Thursday, November 01, 2007

A crise do gás, a estabilidade triste e a falta de imaginação - Blog do Reinaldo Azevedo - 01/11/07

“O Brasil enfrentará nos próximos anos, segundo o economista José Roberto Mendonça de Barros, um sério problema de energia. ‘Hoje, 100% dos analistas privados vêem novo problema de energia já em 2009.’ Segundo ele, há quatro anos não é iniciada no País nenhuma hidrelétrica de porte. A restrição de energia no horizonte leva os empresários a ter dúvidas na hora de investir. ‘Um apagão ou um forte aumento da energia é a mesma coisa. Eu não tenho dúvida de que o preço vai subir.’ Mendonça de Barros chama a atenção também para os crescentes investimentos de brasileiros no exterior, que, na sua avaliação, estão sendo estimulados pela sobrevalorização do real e por condições microeconômicas desfavoráveis no Brasil."

Acima, vai um post do dia 5 de novembro de 2006, que faz referência ao que falara ao Estadão o economista José Roberto Mendonça de Barros. E, daquele dia a esta data, já faz um ano, os especialistas são unânimes em afirmar, nada mudou. Vejam aí: o ritmo um pouco mais acelerado do crescimento econômico — e estamos falando de modestos 5% (modestos na comparação com os pares emergentes), não de 8% ou 9% — acenou com um risco, ainda que não iminente, de desabastecimento. A Petrobras foi obrigada a fazer uma escolha: cortou o gás dos consumidores para poder abastecer as termelétricas. Como sempre acontece nesse caso, a Justiça foi acionada, a empresa vai recorrer... Observem: a coisa já deixou o território da economia.

Acho que isso seria menos grave se tivéssemos um governo menos falastrão — e, sei, os petralhas virão em coro: “E o apagão de 2001?”. Sim, houve o apagão de 2001, e o governo FHC pagou por ele nas urnas, não é? O fato é que Lula tem uma conjuntura externa formidável, maioria folgada no Congresso, popularidade alta e uma estabilidade meio marreta, mas tem. O que impede o governo de fazer deslanchar os investimentos no setor de energia? A competência. Escrevi: “Seria menos grave se o governo fosse menos falastrão”. Por quê? Porque seria menos autoconfiante e ouviria um pouco mais.

Se vocês se lembram, o eixo do PAC — refiro-me aquele grandão, o PACão, pai, dos “paquitos” — era justamente o investimento em energia. Daquela data até agora, perguntem quantos passos foram dados: nenhum! Entre os especialistas, é consenso: no ritmo em que cresce a oferta de energia, o país estará proibido de continuar a crescer 5% — o que não dizer de um crescimento maior?... A Petrobras pode dar o nome que quiser ao que fez, e será sempre um apelido: está racionando gás, sim. E raciona porque as termelétricas vão socorrer as hidrelétricas em razão da pouca água nos reservatórios.

Estamos, de novo, como os macaquinhos imprudentes. A diferença é que eles torciam para não chover, já que não haviam feito suas casas. E nós vamos ter de torcer para chover. Numa reportagem na Folha de hoje, lê-se: “Problemas na Argentina, na Bolívia e um redimensionamento da capacidade de geração de energia em térmicas de gás natural no Brasil fizeram com que a oferta de energia firme -ou seja, com a qual se pode contar- prevista para 2008 fosse reduzida de 57 mil MW médios para 50,9 mil MW médios. ‘Devido a problemas no gás natural, num intervalo de dois anos [2005 a 2007] a oferta firme de geração do Brasil foi reduzida em 12%. Poucos países resistiriam a isso’”. A observação é de Cláudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, que representa investidores privados em energia.

A auto-suficiência prepotente do governo não é auto-suficência energética, não é? No dia 3 de dezembro do ano passado, informava uma reportagem de Renée Pereira, no Estadão:

Os planos do presidente Lula de elevar o crescimento do País para níveis superiores a 5% ao ano a partir de 2007 podem ir por água abaixo se ele não conseguir deslanchar os investimentos na área de energia. Coincidentemente, a iminência de uma nova crise elétrica ocorre no segundo mandato de Lula, a exemplo do que ocorreu em 2001, na administração de Fernando Henrique Cardoso.
Até agora, segundo especialistas, o que tem jogado a favor da oferta de energia no País é o tímido avanço da economia, abaixo de 3% ao ano. Se o País começar a crescer acima de 5% ao ano, o setor elétrico não deve suportar muito tempo. De acordo com dados da Gásenergy, os riscos de déficit estarão acima dos 5% tolerados a partir do ano que vem, em algumas regiões do País.
“Como consumidor, estou preocupado com a situação. Se crescermos 4% ou 5%, o apagão chega mais perto”, enfatiza Mario Cilento, presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), cujas associados representam 25% do PIB brasileiro.
Na avaliação de Gorete Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), além da falta de gás para abastecer as térmicas, há outras questões que aumentam o risco de déficit do País. Um deles é exatamente o argumento do governo de que as distribuidoras estão 100% contratadas até 2010.

Maiores esclarecimentos, com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), braço operativo do governo, especialista na área, ex-ministra do setor. Até agora, de suas ações, não saiu um miserável quilowatt a mais de energia. Mas ela já é considerada peça central da sucessão em 2010 em razão de suas virtudes visionárias.

Ah, sim: ainda bem que o governo Lula, embora se descuide do setor energético, toca todo o resto com competência e presteza: reforma tributária, reforma trabalhista, reforma do Judiciário... Observem: fora do equilíbrio macroeconômico, um conservadorismo meio tristinho, não há nada. Assim, não chega a ser surpreendente que o país apareça em 72º lugar num ranking de competitividade elaborado pelo Fórum Econômico Mundial que inclui 131 países. Caiu seis posições. Os motivos? Burocracia, ineficiência dos gastos públicos, carga tributária excessiva e juros elevados.

Há dados muito interessantes. Quando os 11 mil executivos que votaram foram convidados a avaliar a sofisticação empresarial, o Brasil ficou em 39º lugar. Nada formidável, mas no primeiro terço do grupo. Já quando opinaram sobre a eficiência dos gastos públicos, ficamos a quatro posições do último lugar: no 127º. E tem mais: conforme se lê na Folha de hoje, “a qualidade da educação primária está em 120º — há somente 11 países mais deficientes nesse quesito —, e o sistema legal complexo e ineficiente garantiu o 105º posto neste indicador.”

É isso aí. É preciso muito mais do que a “estabilidade” que aí está. Ela já chegou a significar alguma “ousadia” do PT. Hoje, é pura falta de imaginação. Entenda-se por “imaginação” não a feitiçaria econômica, mas o procura de caminhos políticos para fazer as reformas. Não! Elas não serão feitas. Porque, para fazê-las, é preciso, sim, ter um projeto.
Por Reinaldo Azevedo

Sunday, October 28, 2007

Privataria! - Carlos Alberto Sardemberg - OESP 15/10/07

Quer dizer que o governo Lula entrega o patrimônio nacional para empresas estrangeiras e não cobra nem um centavo por isso? De graça, as companhias espanholas vão ficar 25 anos cobrando pedágio e ganhando dinheiro com estradas construídas com imposto pago pelo contribuinte brasileiro!Quer dizer que o governo Lula monta um modelo de privatização que favorece o capital estrangeiro? Só multinacionais, que trazem capital de fora, mais barato, conseguem assumir pedágios tão baixos. Mais ainda: o dólar tão barato, outra proeza de Lula, favorece os estrangeiros, pois a tarifa em dólar fica maior e as companhias gastarão menos reais para enviar seus polpudos lucros aos acionistas lá fora.Nunca na história deste país um governo foi tão servil às empreiteiras multinacionais. Uma privataria!Essa turma que pede a reestatização da Vale, por ter sido vendida a “preço de banana”, não vai pedir uma “CPI da doação das estradas”? Aliás, deveria ser uma CPI ampliada, pois a Vale, entregue por FHC, acaba de ganhar de Lula um trecho enorme da Ferrovia Norte-Sul.Isso aí, pessoal. Quem quiser pode usar os motes acima, sem pagar direitos autorais. Tão de graça quanto as rodovias.Agora, está mesmo muito engraçado observar Lula, seus ministros e os formadores da opinião de esquerda defenderem seu modelo de privatização de rodovias.Muitos começam por apresentar a ressalva: não é privatização, é concessão. Tudo bem: concessão de uma via pública, construída pelo Estado, para uma empresa privada explorá-la por 25 anos, conforme regras, mas sempre sob a “ótica do lucro”.Depois, segue o argumento, ao contrário da privatização tucana, com seus pedágios caros e “elitistas”, a privatização, perdão, a concessão petista é popular-democrática, pois cobra pedágios bem baratinhos.Assim é, temos agora uma privatização tucana e outra petista. E - quer saber? - ficou melhor para o País. Resta uma discussão de método, os dois lados concordando que a empresa privada, nacional ou estrangeira, é mais competente para operar e oferecer ao usuário uma estrada de qualidade e eficiente para negócios e turismo.Isso posto, eis algumas observações razoáveis sobre o tema:Modelo de concessão - o governo, poder concedente, “dono” da estrada, pode ou não cobrar pela outorga da concessão. No primeiro caso, seria como cobrar um aluguel. As duas modalidades têm justificativas. Quando cobra, o governo faz caixa para, por exemplo, investir em estradas menos rentáveis (modelo adotado em São Paulo). Quando há cobrança, ganha o leilão a empresa que oferecer o pagamento mais alto, dentro de um padrão para os pedágios. Obviamente, o custo da operação é maior, de onde sai um pedágio mais caro. Já no caso dos últimos leilões federais, o governo Lula decidiu não cobrar a outorga. Ganhou a empresa que ofereceu pedágio mais barato. É um critério mais simples, melhor para o usuário, pior para o governo. De todo modo, o governo Lula pode se dar ao luxo de perder essa receita, pois está arrecadando como nunca na história deste país.Exigências impostas à concessionária - mais ou menos investimentos no início do contrato, maior ou menor qualidade do piso, quando se inicia a cobrança do pedágio. No caso do último leilão das sete rodovias federais, técnicos dizem que há exigências menores para o piso, por exemplo. A cobrança do pedágio é imediata, enquanto no caso das privatizações feitas em São Paulo (no governo Mário Covas), essa cobrança se fazia depois de feita parte das obras. Com isso o fluxo de caixa é menor, o custo da operação é maior.O ambiente macroeconômico - em momento de instabilidade, inflação e desarranjo das contas públicas, as empresas privadas só fazem negócio com o governo se tiverem garantias de que a rentabilidade não será reduzida. Preços começam mais elevados para prevenir choques futuros, como inflação ou desvalorização da moeda local. Por exemplo: a empresa estrangeira topa um pedágio de R$ 1,80, o equivalente a US$ 1. De repente, o real se desvaloriza e a cotação vai a R$ 3,60, fazendo com que a tarifa caia a US$ 0,5. E é evidente que o ambiente macroeconômico hoje é muito superior ao do momento em que foram feitas as concessões mais antigas. Há razoável convicção de que não haverá inflação, que os juros vão cair e que o dólar não vai disparar.Capacidade das empresas privadas - concessão de rodovias (e outros serviços) é um negócio relativamente novo. Só agora existem muitas companhias internacionais, entre as quais as espanholas, que desenvolveram enorme capacidade no setor. O Aeroporto de Heathrow, em Londres, é de propriedade de uma empreiteira espanhola. Por isso, no último leilão brasileiro, apareceram tantas empresas competindo. Isso é outro fator que derruba os preços.E mais: pedágio barato não é garantia de sucesso da operação. Em alguns países, como no México, o fracasso de concessões de rodovias teve como causa justamente o preço baixo do pedágio e os prazos menores de concessão (abaixo dos 20 anos). Com isso, as concessionárias, a um determinado momento, perceberam que não obteriam o retorno do capital e pararam de investir. O barato saiu caro.Por isso cuidado com as comparações entre os preços da última licitação e os das anteriores.O que sabemos é que as atuais estradas privatizadas vão muito bem, obrigado. São as melhores do País, têm o menor número de acidentes. O modelo funcionou.O novo modelo, dos pedágios baratos, ainda não foi testado - e só vai ser testado mesmo sabem quando? No próximo governo, no mesmo período, 2010/2011, em que se saberá se o novo modelo lulista deu conta do fornecimento de energia.É preciso admitir: na política e na mídia, o cara é craque. *Carlos Alberto Sardenberg é jornalista.

Tuesday, October 16, 2007

Uma breve história política da dengue. Ou: quero Cruvinel e Franklin matando mosquito - Blog Reinaldo Azevedo - 16/10/07

Leram esta matéria sobre a dengue no Estadao On line? Vejam. Volto em seguida. Por Eduardo Kattah:O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, reconheceu que o Brasil passa por uma epidemia de dengue e classificou como “injustificável” e “inadmissível” o número de 121 mortes em decorrência da doença no Brasil este ano. Temporão participou do lançamento da campanha nacional de mobilização contra a doença, em Belo Horizonte. Ele afirmou que o índice de óbitos significa deficiência no atendimento da dengue hemorrágica. Conforme dados do Ministério da Saúde, nos nove primeiros meses deste ano, o País registrou 480 mil casos da doença, o que representa um aumento de cerca de 50% em relação ao ano passado.O tema da campanha deste ano é “Combater a dengue é um dever meu, seu e de todos. A dengue pode matar”. A campanha será veiculada de forma regionalizada. Na capital mineira, o ministro informou também que está sendo finalizado o projeto de lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais.Temporão defendeu que, nas discussões sobre novos marcos regulatórios para as concessões de TVs, as emissoras sejam obrigadas a “abrir espaço” em horário nobre para a divulgação de informações que o governo “considere relevantes do ponto de vista da saúde pública” e de outras áreas. “E acabar com essa história de que na verdade eles estão fazendo um favor ao governo. É uma obrigação”, disse. Na capital mineira, ele também se reuniu com o governador Aécio Neves (PSDB), no Palácio das Mangabeiras. Temporão fez uma veemente defesa da prorrogação da CPMF, engrossando a ofensiva do Planalto.VolteiHaverá o dia em que os brasileiros ligarão o homem à obra? Não sei.No dia 25 de fevereiro de 2002, Bernardo Kucinski, um petista que fez parte da equipe de comunicação do primeiro governo Lula, escreveu no site Observatório da Imprensa (por que não?) uma nota chamada “O fantasma da dengue persegue Serra”. Eis o texto: “No Rio, ninguém pode ser convencido de que Serra foi um bom ministro da saúde. As mortes e a dimensão da epidemia falam mais forte. O Globo de domingo tem um caderno especial sobre a dengue, mostrando como a epidemia penetrou em todos os espaços do cotidiano carioca. As manchetes de ontem e de hoje são sobre o perigo de os planos de saúde subirem seus preços por causa da dengue. Um em cada dez cariocas está faltando ao trabalho por causa da dengue. Todos se sentem ameaçados e entidades da sociedade civil começam a agir frente à inépcia das autoridades. Deputados do Rio, informa o JB de hoje, vão pedir uma CPI da dengue.”Reportagem da Folha em 20/09/2002: “O candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), criticou duramente a administração de José serra no Ministério da Saúde durante discurso na quadra da escola de samba Mangueira, no Rio de Janeiro. Sem citar Serra nominalmente, Lula atacou a política de combate à dengue adotada pelo governo federal nos últimos anos e disse que o uso de medicamentos genéricos no país ainda é muito pequeno. Lula fez as declarações ao lançar seu programa de governo para a área da Saúde. "Sabem por que estamos lançando esse programa aqui no Rio? Aqui foi o exemplo do desleixo maior do governo federal no combate à dengue", disse o candidato”.No debate na TV Record, LuLa não teve dúvida: fez uma pergunta sobre a dengue a Anthony Garotinho, que aproveitou para bater no tucano, numa ação coordenada entre ambos.Muito bem. Acima, listei três casos. Se vocês forem ao Google, encontrarão outras centenas. Os casos de dengue não haviam chegado nem perto das ocorrências de hoje. Mais: saibam que 50% dos casos estão no Mato Grosso do Sul. E o feito se deu durante a gestão de Zeca do PT — cuja competência já vai no sobrenome. Seu governo foi um verdadeiro criadouro de mosquito. Sob o olhar cúmplice do Ministério da Saúde. Na gestão Serra, a acusação de que a doença havia fugido do controle era só uma farsa política. Agora é fato.Eis aí. E agora? Lula é o culpado pela dengue? Ora, claro que não! E Temporão ou o ex-ministro Humberto Costa? Seriam eles? É evidente que não. Responsáveis são sempre os outros. A julgar pelas palavras de Temporão, a mídia é um deles. Leiam lá suas palavras. Sabe-se lá por quê, o homem está bravo. Quer uma lei. O Jornal Nacional fez uma série de reportagens a respeito.Mas, se o problema é esse, o ministro da Saúde pode ficar tranqüilo. Em breve, teremos a Lula News. Espero que Franklin Martins e Tereza Cruvinel sejam úteis na tarefa de matar mosquito.
Por Reinaldo Azevedo

Saturday, October 13, 2007

O poder das (des)interpretações estatísticas

Ana Lobato, do site www.e-agora.org.br de 17/07/07

A construção, administração e disseminação de estatísticas constitui uma questão central no gerenciamento das sociedades modernas, no planejamento de seu futuro e mesmo na dimensão democrática de um país. A necessidade de instituições independentes do poder político de turno nas tarefas vinculadas à construção das bases de dados parece ser a alternativa mais adequada para reduzir as tentativas quase naturais de todo governo de manipular a construção das bases de dados para se perpetuar e ampliar o poder. No Brasil está, nesse aspecto, no meio caminho entre um Estado totalitário (no qual as estatísticas são assumidas como uma das múltiplas ferramentas de controle social) e um país com maior densidade democrática (no qual a produção de estatísticas é gerada por intuições públicas independentes). Enquanto o IBGE goza de alguma independência e constrói séries com credibilidade a maioria das grandes bases de dados (em geral, registros administrativos) estão administrados por esferas do Governo Federal totalmente vinculadas às instâncias políticas. Em geral, os argumentos que sintetizamos no parágrafo anterior são consensuais. Contudo, um fenômeno de maior sutileza vem se manifestando nos últimos meses e consiste na interpretação das estatísticas. Este tipo de leitura manipulada atingiu tal grau de sofisticação que mesmo nossos quadros técnicos mais qualificados da oposição aderem a este tipo de leitura, tornando menos nítidos os campos nos quais alternativas políticas podem ser desenvolvidas e, involuntariamente, ajudando ao Governo nos seus objetivos de publicidade. Um exemplo dessa leitura está dado pela Nota de Conjuntura que a Assessoria em Finanças Públicas do PSDB/ITV N 062/2007 (do 16/07 a 20/07) e sua análise dos dados do CAGED (emprego formal). A nota afirma que o saldo do emprego no primeiro semestre foi 18,6% superior ao obtido em igual período do ano anterior. Ou seja, comparam-se saldos absolutos e identifica-se uma elevação pouco usual, mesmo em uma conjuntura extremamente dinâmica. Faltou muito pouco para, por meio dessa nota, aderirmos explicitamente ao jargão presidencial: “nunca antes na história deste país” foi gerado tanto emprego com carteira. Este tipo de “análise” é comum nos comunicados com nítido viés demagógico distribuídos para a imprensa pelo Ministério do Trabalho e que mesmo jornais independentes e sérios assumem sem nenhum espírito crítico. A Folha, em recente manchete (21/06/2007) sustentou: ”o emprego formal cresce 19%”. Percentuais de variação de 19% só são críveis em contextos de catástrofe natural, guerra, etc. Nenhum milagre (nem miragem) é capaz de provocar aumentos no emprego de 19%. Qual é a manipulação na interpretação das estatísticas? É simples e mesmo primitiva. Imaginemos que uma economia esteja em um equilíbrio de longo prazo, com crescimento no nível de emprego de 10% por período. Neste caso, partindo de uma base 100, no final do primeiro período terá um emprego de 110, no final do segundo período de 121, no final do terceiro período de 133, etc. Essa hipotética economia está em um equilíbrio de crescimento de 10%. Qual a outra interpretação? Simples, comparar os dados absolutos. O governo vai divulgar que, no primeiro mês foram gerados 10 novos empregos e no segundo mês 11. Ou seja, a economia “estaria” melhor no segundo período uma vez que foram gerados mais empregos. No terceiro período foram gerados 12 novos empregos (133-121) e o desempenho do mercado de trabalho ainda melhorou (“bateu um novo recorde”). Logicamente, as assessorias de comunicação dos Ministérios vão divulgar que “nunca antes neste país” foram gerados tantos empregos. Se a economia continua em um “steady state” de crescimento de 10%, no quarto período o estoque de assalariados será de 146 e a geração de empregos de 13 e, miragem, “nunca antes neste país” foram gerados tantos empregos. Ou seja, no quarto período seriam gerados 30% mais empregos que no primeiro. A economia estaria em uma dinâmica de crescimento rumo ao infinito, o céu é o limite (talvez nem isso). Toda a questão está em que o crescimento das magnitudes econômicas é exponencial e esse fato invalida a comparação de saldos absolutos. Ninguém compara o desempenho do PIB em termos do aumento absoluto senão do relativo e o mesmo teria que ser feito no caso do mercado de trabalho. Que o governo manipule a interpretação das estatísticas dessa forma seria uma coisa esperada. Fato, aliás, vale relembrar, que tem sido feito desde o seu primeiro momento, com as comparações de séries do CAGED que têm metodologias diferentes e que muito combatemos. Que a imprensa e nossos quadros qualificados acompanhem o poder político nessa empreitada explicita de forma inequívoca a densidade do debate no Brasil de hoje. Eles pautam o debate, não questionamentos, apenas repetimos.

No rumo certo - O Estado de São Paulo - 11/10/07

Foi um sucesso o leilão de 2.600 quilômetros de rodovias federais para administração pelo setor privado. Todos os trechos foram arrematados e, além disso, as empresas vencedoras ofereceram pedágios bem abaixo do teto fixado pelo governo. O deságio variou de 39,35% a 65,43%. Trinta consórcios participaram, comprovando a disposição do setor privado de investir na infra-estrutura, se as condições de contrato forem razoáveis e houver o mínimo indispensável de segurança.

Como era previsível, o evento forneceu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva mais uma oportunidade para o auto-elogio e para a comparação triunfal com seu antecessor. Foi, segundo ele, um resultado “espetacular”. O Brasil, disse ele, “deixou de ser um país de faz-de-conta”, agora “com direção” e com “um projeto”. Os fatos, como sempre, não são exatamente aqueles descritos no palavrório presidencial. Se alguma direção e algum projeto estão dando certo, são aqueles definidos pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Quem fez campanha eleitoral falando contra a privatização foi o líder petista, não o seu antecessor.

A grande reorientação da estratégia governamental ocorreu nos anos 90. A desestatização foi motivada por duas considerações. Em primeiro lugar, o poder público já não tinha condições de investir em áreas essenciais. O capital privado podia cuidar dessa tarefa. Em segundo lugar, a privatização permitiria ao governo concentrar-se em funções típicas de Estado. Era oportuno, também por isso, desestatizar várias atividades administradas na maior parte do mundo capitalista pelo setor privado.

O êxito dessa iniciativa é indiscutível para qualquer cidadão informado e de boa-fé. A maior parte das empresas privatizadas cresceu, modernizou-se, conquistou espaços no mercado internacional e passou a pagar enorme volume de impostos. As siderúrgicas, a Vale do Rio Doce e a Embraer são exemplos inegáveis de sucesso.

A novidade importante do leilão de rodovias é a mudança de critérios. As concessões foram negociadas não pelo maior preço, mas pela menor tarifa. Essa é uma evolução positiva, mas a idéia já estava em discussão antes de começar o governo petista. O critério das primeiras privatizações não era o ideal, mas há explicação para isso.

A desestatização coincidiu, na fase inicial, com o primeiro esforço de recuperação das finanças públicas, arrasadas por uma longa fase de baderna fiscal, de má administração de estatais e de irresponsabilidade monetária. Parte considerável da esquerda brasileira, incluídas correntes importantes do Partido dos Trabalhadores, freqüentemente se mostra saudosas desses tempos. Não se contentam com as possibilidades ainda existentes de empreguismo, de aparelhamento e de uso político das empresas e autarquias do Estado.

A mudança de critério, embora positiva, poderá criar problemas. Os novos pedágios serão bem mais baixos que aqueles cobrados nas rodovias já privatizadas. Essa diferença poderá servir de pretexto para protestos, pressões políticas e ações judiciais para equalização de tarifas.

Os novos contratos são muito diferentes dos velhos, porque os últimos leilões não envolveram pagamento pelas concessões. Os cálculos de amortização de investimentos e de rentabilidade são, portanto, muito diversos, mas nem todos estarão dispostos a levar em conta esse dado - e nem todos estarão preparados para entender a distinção.

As circunstâncias diferem também quanto a outro aspecto muito importante. Os anos 90 foram a fase inicial de reconstrução da economia brasileira. Os analistas podiam reconhecer o acerto das novas políticas, mas o setor público brasileiro tinha uma longa história de irresponsabilidade e de instabilidade. Foram necessários muitos anos para o Brasil conquistar o status de país confiável.

Essa conquista só foi possível graças ao esforço de ajuste das finanças públicas dos primeiros anos do real. Além disso, as condições dos mercados globais eram muito menos favoráveis. O governo petista nada teria feito sem essa herança bendita. E fez menos do que poderia ter feito, se não tivesse desperdiçado - com o atraso das licitações, por exemplo - boa parte das oportunidades oferecidas por um ambiente global extraordinariamente propício.

Monday, September 24, 2007

Por que um certo Mano Brown é superior a Cristo - Blog Reinaldo Azevedo - 24/09/07

No dia 9 de fevereiro, antes ainda de Mano Brown atrasar 90 minutos o início de seu “show” na virada cultural e, assim, colaborar para o confronto entre os seus crentes e a polícia — que certo jornalismo vendeu, claro, como exagero das “forças de repressão” —, publiquei o post que segue abaixo. Republico para que vocês, caso vejam o Roda Viva de hoje, tenham mais elementos:
*
Falemos um pouco sobre a glorificação da violência e da chamada cultura da periferia. É claro que eu nunca ouvi um troço chamado Racionais MCs. Nem vou ouvir. Ah, pai autoritário que sou, também não permitiria que minhas filhas ouvissem em casa. Podem ouvir fora? Não tenho como controlar. Com o meu assentimento, não. Já me basta o que volta e meia sai na mídia sobre esses pensadores. A Ilustrada, da Folha, traz hoje uma reportagem sobre o lançamento de um DVD do grupo. Um deles, o rapper Ice Blue, afirma: “A gente se vê como um movimento de guerrilha, e é isso o que queremos preservar". O Manual da Folha, às vezes, informa mais do que a reportagem. Está lá: o cara tem 36 anos. Eis uma coisa que eu nunca tinha imaginado: um rapper coroa. A última vez que fiquei com um pouco de vergonha vendo o que os outros fazem foi um flash de Mick Jagger rebolando no Rio. Parecia uma “cobra mar matada”, como se dizia no sítio de Dois Córregos em que passei parte da infância, onde lia Robinson Crusoé, como naquele poema de Drummond. Um lance de pura sorte.
Bão, bão... Há uma crítica sobre o DVD intitulada “Cenas indicam a força de Mano Brown”. Deve ser o líder do grupo. Lê-se o que vai em vermelho. Comento em azul.

Se não fizerem mais nada de novo nos próximos anos, os Racionais já terão entrado para a história por dar uma voz e um rosto à periferia. Graças a eles, jovens de todas as "quebradas" do país têm orgulho de dizer de onde vêm e de mostrar sua moda, gíria e jeito de falar -até na TV Globo.
Vejam que os rapazes nem mesmo entraram para a história da música. É a história mesmo. Como Júlio César ou Churchill.

O registro desse fenômeno é o maior mérito do DVD, que dá uma idéia de quem são os Racionais e de seu poder de mobilização. Isso fica claro quando uma multidão de meninos e meninas acompanha Mano Brown, recitando o poema que abre a música "Vida Loka [Parte 1]".
Eu não sabia o que era isso e fui procurar na Internet. Achei. É uma letra imensa. Lê-se lá:
"- e ai brown é os espião irmão!
- to com os mao ai, eu vo, to indo ali na zona leste ai, tipo umas 11 horas eu já to voltando já moro?
- ta firmao ai brown ai mano eu vo disliga, mais tu manda um salve pros mano da quebrada ai moro? o giu moro mano? o batatao moro? pro pacheco, pro porquinho pro xande pro dé moro meu? ai no dia do jogo os mano
do exauta samba vao vim manda um salve pro binha la moro? fica com Deus Irmão. Falou"
É o mesmo “salve” do PCC ou é outro? Poema? Como o de Drummond?

Assistir a Brown em ação é uma experiência que todos deveriam ter.
Obrigado, moça! Vejam só: jamais sairia num jornal de grande circulação algo como: “Crer no poder redentor do sangue de Cristo é uma experiência que todos deveriam ter”. Cheiraria a coisa carola, cafona, a imposição religiosa. Logo, você conclui que Mano Brown, na escala dos ungidos ou dos profetas, é superior a Cristo.

No palco, ele assume personagens. É o poeta que chora, o ladrão que tenta mudar de vida, o "cachorro" com várias meninas.
Gostei do “ladrão que tenta mudar de vida”. Não conheço a letra. Mas aposto Nederland (“países baixos”, em neerlandês) que o coitadinho tentou mudar de vida, mas a sociedade não deixou. A sociedade é má.

Nos bastidores, no entanto, cercado pelos filhos, rindo com os amigos ou falando sobre diferenças sociais, cai a imagem de durão e entra o pensador. Um dos maiores que temos no mundo musical.
Pensador? Como Platão, Schopenhauer, Kierkegaard, Kant? Ah, não. É “pensador do/no mundo musical”. Então tá. Mais um pouco de Vida Loka, a crítica da razão pura:
e ai bandi do mal como que é meu parceiro?
- como que é brown firmão truta?
- firmeza total mano... e a quebrada ali?
- ta a pampa, aí fiquei sabendo do seu pai irmão, lamentável, um sentimento mesmo irmão!
- vai vendo brother, meu pai morreu e num deixaram eu ir nem no interro do meu coroa não irmão
- isso é loco, vc tava aonde na hora?
- tava batendo uma bola meu, fiquei mo na neurose irmão.
- ai vieram ti avisar?
- é vieram me avisar, mais ta firmao brother, eu to firmão, logo mais to ai na quebrada com vcs ai
- é quente, na rua tbm num ta facil nao moro truta? ums juntado inimigo, outros juntando dinheiro, sempre tem um pra testa sua fé mais cta ligado sempre tem ums corre pra nois faze, ai mano liga, liga nois ai qual quer coisa lado a lado nois até o fim moro mano?
-to ligado!
Por Reinaldo Azevedo 14:09

Tuesday, September 18, 2007

Nossas crianças estão entregues à sanha esquerdopata - Blog Reinaldo Azevedo 18/09/07

Artigo do jornalista Ali Kamel, no Globo de hoje, está gerando o merecido barulho. Leia-o quem ainda não leu. Voltarei ao tema nos posts seguintes:
O que ensinam às nossas crianças
Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo. O psicanalista Francisco Daudt me fez chegar às mãos o livro didático "Nova História Crítica, 8ª série" distribuído gratuitamente pelo MEC a 750 mil alunos da rede pública. O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Impossível contar tudo o que há no livro. Por isso, cito apenas alguns trechos.


Sobre o que é hoje o capitalismo: "Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários.

"Sobre o ideal marxista: "Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores." Sobre Mao Tse-tung: "Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.

"Sobre a Revolução Cultural Chinesa: "Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (...) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (...) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (...) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes "politicamente esclerosados". (...) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: "Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo." As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo.

"Sobre a Revolução Cubana e o paredão: "A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular." Sobre as primeiras medidas de Fidel: "O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%." Essas medidas eram justificadas assim: "Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde."

Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: "Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA. (...) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?"

Sobre os motivos da derrocada da URSS: "É claro que a população soviética não estava passando fome. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (...) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas... Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinham (sic) inveja da classe média dos países desenvolvidos (...) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (...) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (...) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?"

Esses são apenas alguns poucos exemplos. Há muito mais. De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas apenas um pesadelo?

Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Se não for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém.
Por Reinaldo Azevedo 17:56

Monday, September 17, 2007

Vale do Rio Doce: a verdade é a kriptonita do PT - Blog Reinaldo Azevedo 17/09/07

Tire cópia.
Guarde na carteira.
Use como uma arma da inteligência contra a empulhação.

Estou me referindo ao artigo que Eduardo Graeff escreve hoje na Folha (“Lula e seus militantes amestrados”) sobre essa conversa mole da privatização da Vale do Rio Doce (íntegra no post abaixo). Sempre que um petista, com a fala perturbada e o olhar esgazeado pela ideologia bananeira, babar números inconseqüentes, vocês devem fulminá-lo com a verdade. A verdade é a kriptonita do petista.

A gestão da Vale foi, felizmente, privatizada, sim. E, por conta disso:

1 – Em seis anos, ela recebeu US$ 44,6 bilhões em investimentos: nos 54 anos de estatismo, foram US$ 24 bilhões;

2 – Em 1997, inteiramente estatal, empregava 11 mil pessoas; hoje, 56 mil;

3 – Como estatal, produzia 35 milhões de toneladas de ferro; hoje, são 300 milhões;

4 – Em 1997, exportou US$ 3 bilhões; em 2006, US$ 10 bilhões (mais de um quarto do saldo positivo da balança comercial);

5 – Se a empresa realmente vale hoje US$ 50 bilhões, TRATA-SE DA VALE INTEIRA; em 1997, venderam-se se por US$ 3 bilhões APENAS 42% das ações ordinárias;

6 – Quem continua a ser o verdadeiro “dono” da Vale? O fundo de pensão do Banco do Brasil e o BNDES: eles detêm dois terços do capital da empresa;

7- O outro terço se distribui entre Bradesco, a japonesa Mitsui e mais de 500 mil brasileiros que aplicaram parte do FGTS em ações da companhia.

Isso que vai acima é a verdade. Não a cascata que está sendo contada nas igrejas por padres que entendem de economia o que tendem dos Evangelhos: NADA!!! Eis a verdade, não o que os bispos brasileiros permitem que se fale nos púlpitos. Se quer entrar nesse mérito mundano, que nada tem a ver com Deus, dom Odilo Scherer deveria levar a boa-nova a seus fiéis, em vez conspurcar o altar com a urna da mistificação.

A mentira é coisa do demônio, bispo!

A verdade sobre a Vale também é a verdade sobre as outras empresas privatizadas, especialmente no setor de telefonia. Ou daquela que é hoje um caso de sucesso global: a Embraer, que foi da falência certa a um caso formidável de sucesso.

Vocês conhecem a capacidade da esquerda de contar mentiras. Mais do que isso: ela acha que a mentira é moral se for para garantir o que entende ser o bem da humanidade. Ela não tem qualquer receio de fraudar, de trapacear, de enganar se for para ver triunfar a sua verdade particular. Também é capaz de matar. Em proporções industriais. Não! Em proporções que faria Homero corar.

Lembram-se do post sobre a entrevista de Marxilena Oiapoque à revista argentina Debate? Ela admite que o PT meteu a mão na sujeira, mas diz que seu maior patrimônio é a “ética na política”. E isso significa que ela não distingue a fronteira entre a verdade e a mentira.

Não permita que a baba hidrófoba se espalhe por aí. Contra ela, use apenas a verdade.
Por Reinaldo Azevedo 15:10

Lula e seus militantes amestrados - Eduardo Graeff, Folha de S. Paulo (17/09/07)

O PLEBISCITO sobre a privatização da Companhia Vale do Rio Doce não foi para valer, Lula esclareceu na coletiva de rádio dias depois de o PT anunciar sua adesão à iniciativa do MST e outros. A rigor, o "não tenho nada com isso" dele também não é para valer.
Às vésperas do plebiscito, enquanto o presidente da República negava que a reestatização da Vale estivesse ou pudesse vir a estar na agenda de seu governo, militantes de camiseta vermelha recolhiam assinaturas para o plebiscito comodamente instalados na portaria do Ministério do Planejamento ao som do hino da Internacional Comunista. O que vale mais: a palavra do presidente ou as centenas de milhões de reais com que ele irriga o MST, a CUT, a UNE etc.?
Uma coisa pela outra, eu diria. Falsa como uma nota de três reais é a razão formal que ele alegou para se dissociar da onda reestatizante: houve um "ato jurídico" que o governo deve respeitar. Se tivesse sombra de dúvida que o ato foi fraudulento, como gritam os "excluídos" chapa-branca, teria por obrigação mandar apurar e desfazer o malfeito. Não fará nada, como não fez até hoje, porque não quer assustar o mercado nem ter que passar um atestado de idoneidade ao processo de privatização. Bom mesmo é deixar suspeitas no ar e faturar eleitoralmente, como fez com o boato de privatização do Banco do Brasil em 2006.
Melhor ainda juntar o proveito político do reflexo condicionado antiprivatização com o proveito econômico da Vale privatizada. Recorde de investimento: US$ 44,6 bilhões nos últimos seis anos contra US$ 24 bilhões nos 54 anos anteriores. Recorde de produção: 300 milhões de toneladas de minério neste ano contra média anual de 35 milhões da Vale estatal. Recorde de emprego: 56 mil empregos diretos hoje contra 11 mil há dez anos. Recorde de exportações: quase US$ 10 bilhões em 2006 contra US$ 3 bilhões em 1997, garantindo mais de um quarto do saldo da balança comercial "deste país".
A Vale não é exceção. Da Embraer à telefonia, passando pela siderurgia e petroquímica, o desempenho de quase todas as empresas privatizadas é uma história de sucesso em benefício de seus compradores e empregados e do país.A isso o estatista contrapõe números que são, eles sim, fraude grosseira: a comparação dos US$ 3 bilhões pelos quais a União vendeu 42% de suas ações ordinárias da Vale em 1997 com os US$ 50 bilhões que a Vale inteira valeria hoje, depois de toda a expansão possibilitada pela privatização.
E quem foram os beneficiários desse "ato de lesa-pátria"? A quem pertence a Vale privatizada? Aos funcionários e aposentados do Banco do Brasil, principalmente, por intermédio de seu fundo de pensão. Com o BNDES, eles detêm dois terços do capital da Vale. O restante se distribui entre o Bradesco, a "trading" japonesa Mitsui e mais de 500 mil brasileiros que aplicaram parte do FGTS em ações da companhia. O padrão de gestão da Vale é privado. A propriedade, como se vê, nem tanto. Depois de privatizada, a empresa recolheu aos cofres da União, em impostos e dividendos, algumas vezes mais do que fez ao longo de toda a sua existência como estatal.
Os obreiros do plebiscito e até, forçando a barra, os padres que ecoam essa gritaria inconseqüente dentro das igrejas podem pretextar ignorância. Lula e os dirigentes do PT, não. Esses usam deliberadamente o fantasma da privatização como uma distração para a sua militância -um osso de mentira que se dá a um cachorrinho para ele não roer a mobília.
Um placebo ideológico aqui, uma verbinha acolá, empregos a rodo, barriga cheia, lá vai a militância petista fazer seu número. Pula! Late! E Lula pisca o olho para as visitas: "É brincadeira, gente! Senta que o Lulu é manso".Os empresários sorriem de volta, fingem que acreditam, mas pensam dez vezes antes de botar a mão no bolso. Para eles, pior do que a encenação dos militantes é a falta de vontade e/ ou capacidade do governo de estabelecer regras claras e um ambiente político confiável para os investimentos privados em infra-estrutura.
A conta das ambigüidades virá aí por 2010, prevêem os especialistas, quando o fantasma do racionamento de energia elétrica deve voltar a rondar, dessa vez não por falta de chuva, mas de investimento. Ou quem sabe em 2011. Já pensaram na ironia? Um novo governo às voltas com o apagão, a militância petista a todo vapor de volta à oposição e Lula na Guarapiranga, pescando suas tilápias...
EDUARDO GRAEFF, 57, é cientista político. Foi secretário-geral da Presidência da República no governo FHC

A nova classe social no poder: agora em números - Blog Reinaldo Azevedo 17/09/07

Por Fernando Barros de Mello, na Folha desta segunda. Volto em seguida:

Os cargos de confiança mais altos no governo de Luiz Inácio Lula da Silva são ocupados por sindicalizados e filiados ao PT, de acordo com dados da pesquisa "Governo Lula: contornos sociais e políticos da elite do poder", coordenada por Maria Celina D'Araújo, do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV. "Você tem ainda uma superposição: parte dos petistas é também sindicalizada. É uma malha associativa muito forte", diz a pesquisadora. A amostra da pesquisa levou em conta os cargos DAS 5, DAS 6 (Direção e Assessoramento Superior) e NE (Natureza Especial), que são os mais altos no serviço público. "A população brasileira tem em torno de 14% de sindicalizados. Na nossa amostra, a gente tem 45%. É muito diferente da realidade brasileira", diz. "Nós pegamos os níveis 5 e 6, que são cargos de direção. Acho que, se olhar mais para baixo, a tendência é até ter mais militantes e sindicalizados. A nossa amostra é uma elite que requer especialização técnica", complementa.


Segundo a pesquisa, cerca de 25% tinham filiação partidária: 19,90% eram filiados ao PT, e 5%, a outros partidos. O estudo mostra que a maior parte dos filiados vem do serviço público estadual e municipal. Informações do próprio PT dão conta de que, ao todo, são 5.000 filiados que ocupam cargos comissionados no governo Lula."Os filiados são, em sua maior parte, "outsiders" da esfera pública", diz o texto da pesquisa, segundo o qual os indicadores de "associativismo" também impressionam. "Um total de 46% declaram ter pertencido a algum movimento social, 31,8% declaram ter pertencido a conselhos gestores e 23,8%, a experiência de gestão local. Apenas 5% pertenceram a associação patronais." Outro ponto que chamou a atenção foi o fato de a área econômica ter o maior número de servidores com experiência anterior (27%). Na área da saúde, o número fica em 14,55%, na social, em 19,12%, e na de educação, em 13,93%. "O que a gente observa é que a área econômica é a mais profissionalizada".

Voltei
Eis aí. Vocês sabem que chamo a nova classe social que chegou ao poder com Lula de “burguesia do capital alheio”. A reportagem publicada na Folha não poderia ser mais eloqüente. Este é o poder real do petismo. E notem que se está falando de cargos comissionados, os de confiança. Aposto que, nos escalões inferiores, à medida que se rebaixam as exigências técnica para o exercício da função, os sindicalizados estão em ainda maior número. A base material do novo poder no Brasil é a Central Única dos Trabalhadores, de onde saiu boa parte dos quadros que estão no comando. Por meio da central, o partido controla também os fundos de pensão e as estatais.

Lembram-se da entrevista de Expedito Velloso, aquele que era diretor do Banco do Brasil e que integrou o grupo dos aloprados impunes do dossiê? Qual é a sua origem? CUT. É o caso ainda de Osvaldo Bargas, Jorge Lorenzetti e Ricardo Berzoini, presidente do PT — todos eles diretamente ligados à tramóia. Se o partido perder a eleição em 2010, os titulares dos cargos de confiança serão substituídos. Mas isso não quer dizer grande coisa. A infiltração sindical-petista nos quadros do estado se dá nos Três Poderes e no Ministério Público. Chama a atenção, ainda, o maior número de “companheiros” em áreas como saúde e educação — não por acaso, as que têm desempenho mais sofrível, a despeito da propaganda oficial. A economia, vê-se, está mais protegida da sanha.

A pesquisa expõe a real natureza do governo Lula. Imaginem o comando da Saúde com apenas 14,55% das pessoas com a chamada “experiência anterior” na área. Estão lá, então, por quê? Por, literalmente, “companheirismo”. E a gente ainda estranha que não se consiga fazer o remédio chegar aos indiozinhos. A constatação de fundo e que interessa é esta: o estado está sendo ocupado pelo sindicalismo petista. O esforço, já escrevi aqui, é para tornar a alternância de poder no país uma coisa irrelevante. Ainda que um outro partido possa vir a ser eleito, o PT não pretende abrir mão do domínio da máquina do estado.
Por Reinaldo Azevedo 06:01

Pesquisa 1 – O governo corrupto do Bolsa Família roubou até a estabilidade - Blog Reinaldo Azevedo - 16/09/07

Leiam trechos do texto de Carlos Marchi que está no Estadão deste domingo. Volto depois:O governo Lula fez três coisas boas - o programa Bolsa-Família, a estabilidade econômica e a ajuda aos pobres; e três coisas ruins - a corrupção, o apagão aéreo e a pouca atenção à saúde. Esta é a percepção do eleitorado brasileiro, colhida pela pesquisa Estado/Ipsos. O Bolsa-Família foi apontado por 43% dos eleitores; a estabilidade econômica foi citada por 20% e a ajuda aos pobres foi mencionada por 10%. Só 8% dos eleitores responderam que a maior obra do governo Lula é 'nada'. Na outra ponta, o eleitorado brasileiro aponta como as piores coisas do governo Lula a corrupção, citada por 23%, o apagão aéreo, mencionado por 11%, e a pouca atenção à saúde, lembrada por 10%.
(...)
Para 67% dos brasileiros, o atual presidente é o maior responsável [pela estabilidade]; o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo governo implantou o Plano Real e sustentou os primeiros oito anos estáveis, foi mencionado como responsável pela estabilidade por apenas 7%. (...)
O atual presidente deu mais apoio aos pobres para 80% dos brasileiros; o antecessor ganhou o aval de apenas 9%. Para 73%, Lula favoreceu um melhor poder de compra do brasileiro; só para 16% Fernando Henrique foi melhor nesse quesito. Lula reduziu mais o custo da cesta básica para 73%; o ex-presidente, só para 15%. Lula controlou melhor a inflação para 66%; Fernando Henrique, só para 19%.
(...)
Os mais pobres dizem com mais ênfase que Lula deu apoio aos despossuídos. Na faixa que junta os analfabetos e os que têm até a 4ª série do ensino fundamental, 82% acham que Lula foi melhor que Fernando Henrique na ajuda aos pobres. Entre os que têm curso superior o número não é muito diferente - 79% acham que, no tópico, Lula foi melhor. Os eleitores que têm curso superior atribuíram a estabilidade mais a Lula (55%) do que a Fernando Henrique (15%).(...)
Para os brasileiros, o melhor ministro do governo Lula não é um político, não é do PT nem do PMDB - é o ministro da Cultura, Gilberto Gil, um filiado do PV, que nem da base aliada é. Ele foi citado por 4% dos brasileiros e ficou à frente dos petistas Tarso Genro, das Relações Institucionais, e Guido Mantega, da Fazenda, ambos com 3%.

Voltei

Quanta coisa sai dessa pesquisa, não?

A primeira importante: o governo FHC foi um desastre em comunicação, tanto quanto o petismo é um sucesso. Constantemente vemos petistas metidos em assalto aos cofres públicos, mas o maior roubo que praticaram foi este: a estabilidade econômica. Quem pôs fim ao ciclo histórico da inflação brasileira foi o governo FHC. Poderia ser chocante o fato de também os universitários, camada supostamente mais bem-informada, atribuírem ao petista o que não lhe pertence. Mas não choca, não. O petismo mais radical, mais ideológico, está justamente entre os que têm formação superior. De resto, tal condição precisa ser pensada em suas novas características: o Brasil passa por uma fase de “supletivização” do ensino de terceiro grau. Nunca a ignorância foi tão diplomada.

A segunda questão importante guarda relação com um texto que escrevi ontem, comentando os números do IBGE. O Bolsa Família continuará a assombrar o Brasil por muito tempo. E o mais dramático é que não se forma massa crítica para combater essa barbaridade nem nos setores que estariam especialmente aptos a fazê-lo: a imprensa, por exemplo. Continuaremos amarrados por muito tempo a este programa que torna operativa a pobreza brasileira. A pesquisa Ipsos/Estadão evidencia o óbvio: no Nordeste, Lula é mais popular do que no Sul e no Sudeste.

A terceira questão importante tem a ver com o óbvio: a corrupção se transformou numa das marcas do partido que tem como lema, diz Marxilena Oiapoque, a “ética na política”. A avaliação positiva que se faz do governo Lula, no entanto, indica que esse quesito pesa menos na balança do que a tal inflexão social. Numa esfera puramente moral, temos um “rouba, mas faz caridade”. Governos ladrões ou provocam a repulsa popular ou vão deixando o próprio povo mais sem-vergonha.

A quarta questão importante, acreditem, tem como símbolo Gilberto Gil. Ele é considerado o melhor ministro do governo Lula — e isso prova que inexiste um governo; só existe Lula. O cantor aparece pouco na mídia. Sua atuação é discretíssima. Se consegue, ainda assim, ser o mais lembrado, isso dá conta do que acontece com os demais. O PT é uma máquina gigantesca, infiltrada em todas as esferas do estado e da sociedade — conta até com as práticas clandestinas típicas do velho comunismo (ver posts abaixo) —, mas, eleitoralmente, é extremamente dependente de seu líder carismático: Lula. À sua sombra, até agora, nada cresceu a ponto de vir a ser uma alternativa. E isso tem reflexos eleitorais, conforme se vê abaixo.
Por Reinaldo Azevedo 06:52

Wednesday, September 12, 2007

Sobre os últimos dias

Há tempos não me habilito a escrever no "meu blog". Tem sido mais um banco de posts de outros blogs. Assuntos não me faltam. Falta a habilidade com as palavras. A capacidade de colocar nas palavras toda a indignação, toda a ira, toda a vergonha que me tem sido provocada desde 01/01/03. E que infelizmente se somarão até 2010, pelo menos.
Tópicos:
Aulas e pós graduação de Lula pós mandato
"dureza" da pena de Renan
Estatização CVRD
Discurso de Lula no 3º congresso pt
STF aceita denúncia 40 ladrões
Lula: não aceitaremos ônus pela bolha imobiliária dos EUA
Igreja e "movimentos sociais"

Thursday, August 23, 2007

Marcha Sobre Brasília e tomada do estado - Blog Reinaldo Azevedo de 23/08/07

Brasília assistiu ontem à Marcha das Margaridas, uma manifestação de 15 mil “trabalhadoras rurais” financiada com recursos da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), do governo federal e de três estatais: Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste e Petrobrás. Lula discursou no evento, em tom de campanha eleitoral — faltou o Banco do Brasil com sua propaganda do “Dois mais Um”... — e voltou a falar mal das elites. Apesar do uso evidente do dinheiro público, Carmem Foro, coordenadora da marcha, deu o seu recado: “Tivemos que fazer muita ação entre mulheres, vender bolo, bordar chapéus, vender cabrito, fazer vaquinhas para chegar aqui”. É só a folclorização do pobrismo militante que marca estepaiz. “Nós que apoiamos o presidente Lula não cansamos de lutar”, emendou Carmen. Segundo a Contag, o custo total do ato passou de R$ 10 milhões — cerca de R$ 1 milhão viria desse apoio oficial. Na verdade, todo o dinheiro saiu dos cofres públicos. A Contag não gera receita. Ela vem dos programas oficiais de incentivo à agricultura familiar. Eu e você ajudamos a pagar a manifestação de apoio ao Babalorixá de Banânia.
Vasculhei os jornais. Não há e não haverá uma miserável crítica ao uso de dinheiro público numa mobilização de caráter obviamente político. Vê-se que a tal Carmem está dando uma resposta ao Cansei, a mais demonizada manifestação havida no Brasil em período democrático. Nunca tantos protestaram contra um protesto como nesse caso. Até onde sei, os organizadores usaram seus próprios recursos. O mesmo se dá com os que perseguem Lula com vaias. Compram eles mesmos o seu nariz de palhaço. Se a CEF, o Banco do Nordeste e a Petrobras podem patrocinar uma manifestação a favor do governo, dêem-me um só motivo para que não financie uma contra. As estatais não pertencem a Lula ou ao PT, mas ao estado brasileiro, que não tem partido. No caso da Petrobras, tanto pior: é uma empresa de capital aberto. Os investidores estão ajudando a financiar o proselitismo oficial.
Vejam um vídeo que postei às 19h02 de ontem. Trata-se do material de convocação e divulgação do 3º Congresso do PT, que acontece no fim do mês. O partido retoma a sua retórica socialista, declara seu vínculo com o famigerado Foro de São Paulo e não economiza palavras: “Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político de estado a seu serviço”. E mais adiante: “Não basta chegar ao governo para mudar a sociedade. É preciso mudar a sociedade para chegar ao governo.”Leiam o trecho que está em vermelho à luz, agora, da Marcha das Margaridas. Trata-se, obviamente, de uma confissão: o partido está colocando O ESTADO A SERVIÇO não exatamente de uma classe, mas de seus próprios interesses. Cadê os anões do jornalismo para acusar o cinismo dos manifestantes? Li ontem o texto de um senhor, no Estadão, que esculhambava, uma vez mais, o Cansei. Segundo ele, um dos participantes pagou uma pequena propina para conseguir sei lá que benefício. Impressionante como essa gente convive com pessoas dadas a canalhices. Eu não convivo. Se meus amigos fazem safadezas, têm ao menos o bom gosto de não me contar. E sabem por quê: não acharei nem meritório nem engraçado. Sabe cada um os amigos que lhe ficam bem.Rigor e laxismoVejo a imprensa, na média, cobrir com rigor o mensalão (de volta com o julgamento no STF) e o imbróglio Renan Calheiros, para citar dois casos. É uma pena que não seja rigorosa também na cobertura do que eu chamaria “questões institucionais”. Ora, um jornalismo que se cala diante de um fato como o de ontem — uma manifestação pró-Lula financiada com dinheiro público — perdeu os parâmetros e as medidas do regime democrático. Vejam lá a confissão no vídeo do PT. Parece-me evidente que o esforço para “mudar a sociedade” está sendo bem-sucedido. Já não se distingue com clareza o legal do ilegal.Resulta que somos, como imprensa, rigorosos, sim, com o crime, mas laxistas com suas supostas motivações nobres. Afinal, desdenhar da “direita cínica” que vai à rua dizer que “cansou” corresponde a bater nos vilões de sempre — as tais “elites” brasileiras. Já ousar indagar a legalidade do apoio oficial a uma marcha de apoio ao Estimado Líder parece coisa imprópria. Afinal, aquelas senhoras que lá estavam eram “agricultoras”... Errado! Eram parte de um projeto de poder. Projeto que não inventei e cujas intenções estão claramente reveladas no tal vídeo. Lula, diga-se, nele aparece em meio a líderes como Hugo Chávez, Evo Morales e Fidel Castro.Marcha das Margaridas? Eu a chamaria de “Marcha Sobre Brasília”, pisoteando a legalidade. Mais uma peça do meticuloso trabalho de tomada do Estado que está em curso. E anunciado em vídeo.
Por Reinaldo Azevedo

PT confessa em vídeo: quer o estado a seu serviço. E reafirma seus vínculos com o Foro de São Paulo - Blog do Reinaldo Azevedo - 23/08/07




Muito cuidado nesta hora.

O PT realiza, entre os dias 31 deste mês e 2 de setembro, no Centro de Convenções Imigrantes, em São Paulo, o seu 3º Congresso Nacional. No Youtube, há um vídeo, dividido em partes, em que se apresenta o evento e se trata dos assuntos que serão debatidos. Na retórica ao menos, é inequívoco, há um visível retorno ao “socialismo”. Outro assunto que a grande imprensa faz questão de esconder, não sei por quê, é abordado pelo partido com orgulho: “O Foro de São Paulo”. Mais: o partido revela a sua inclinação gramsciana — e, pois, totalitária —, ainda que fale em “democracia”.

Vamos ver. Clicando na imagem acima (se não conseguir, clique aqui), você assiste à terceira parte do material de divulgação e convocação do Congresso. Ele trata especificamente da “construção do socialismo”. De qual socialismo? Isso o PT não diz há 27 anos. A apresentadora deixa claro que a formulação sobre a luta socialista definida no 5º Encontro Nacional, de 1987, continua a valer em 2007. E ela diz literalmente:

"Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político de estado a seu serviço”. E mais adiante: “Não basta chegar ao governo para mudar a sociedade. É preciso mudar a sociedade para chegar ao governo”. Quem nunca ouviu falar do teórico italiano Antonio Gramsci ou nunca leu a sua obra não dará o devido peso ao que vai acima. Quem conhece as suas formulações viu a fuça do totalitarismo. Ora, quem representa “os trabalhadores” segundo o PT? Se o partido é investido de tal caráter, tudo o que fizer — e isso inclui seus crimes — está a serviço dessa construção histórica. Tanto é assim, que cumpre observar: mensaleiros e aloprados continuam no partido. Ninguém foi ou será punido.

A afirmação de que não há exemplo de classe que tenha mudado a história sem pôr o estado a seu serviço não passa de delinqüência intelectual submarxista. Mas é, de novo, uma confissão. Para eles, quem encarna o poder “dos trabalhadores”? O PT. E como se põe o estado a serviço dos trabalhadores? Ora, pondo-o a serviço do PT. Gramsci, que queria “o partido” como o Moderno Príncipe, dizia que ele deveria ser o “imperativo categórico” da sociedade e que tudo deveria existir e ser feito em função de suas necessidades. Até mesmo a crítica deveria ser autorizada por ele e tê-lo como referência. Em certos setores da imprensa, já experimentamos algo parecido. Só se aceita que petistas contestem petistas.

Num outro momento do vídeo, diz a mocinha: “Não há democracia sem socialismo, e não há socialismo sem democracia”. Trata-se de uma dupla impostura.
Peguemos a primeira oração:
“Não há democracia sem socialismo”
A verdade: nunca houve uma democracia socialista.
Peguemos a segunda:
“Não há socialismo sem democracia”
A verdade: nunca houve socialismo democrático
Da dupla impostura, resta uma verdade inequívoca demonstrada pela história: socialismo e democracia nunca foram vistos num mesmo corpo social.

Foro de São Paulo
E chegamos, finalmente, ao caso. Eu não sei por quê, mas presumo, a chamada grande imprensa faz questão de ignorar um fato que o partido assume com todas as letras: o PT é fundador do chamado Foro de São Paulo, um órgão que continua ativo e que reúne as esquerdas da América Latina, incluindo as narcoguerrilheiras Farc. No vídeo, trata-se do assunto aos 5min20s e aos 7min18s. Delírio do Olavo de Carvalho e do Reinaldo Azevedo? Não. Fato admitido de forma clara, explícita, orgulhosa. Tanto é assim que, ao se referir aos "democratas antiimperialistas" da América Latina, o filme exibe as imagens, entre outros, de Hugo Chávez, Evo Morales e, acreditem!, Fidel Castro. O alinhamento do partido — e do governo — com ditaduras está mais do que demonstrado.

Eu acredito que Lula implantará o socialismo, ainda que aquela pantomima bolivariana, no Brasil? Não. Eu não acredito. Não porque ele não queira, mas porque ele não pode. Mas acredito, sim, que o Brasil, entregue ao PT e às suas teses, será menos democrático. Porque a legenda não tem respeito, e isso fica evidenciado neste material de divulgação, pelo estado de direito. Quem diz que uma classe tem de pôr o estado a seu serviço quer é uma ditadura, ainda que mitigada e fantasiada de democracia popular.

Agora entendo por que José Dirceu acha tão absurdo ser julgado pelo STF. Ele só estava construindo a hegemonia da classe trabalhadora — ou seja: pondo o estado a seu serviço. E ainda há quem reclame...

PS: O PT está quase implorando à chamada grande imprensa que fale do Foro de São Paulo. Será que, desta vez, ela acorda? Não seria interessante rever a expropriação da Petrobras na Bolívia à luz de um concerto ideológico do Foro? Será que o PT não é ainda mais caro do que parece?



Por Reinaldo Azevedo

Monday, August 06, 2007

Simbolismo e liderança

Fernando Henrique Cardoso, O Estado de S. Paulo (05/08/07)


www.estado.com.br/editorias/2007/08/05/opi-1.93.29.20070805.1.1.xml?

A despeito das oscilações recentes do mercado financeiro, que ninguém sabe se serão soluços passageiros ou sinais de desarranjos mais profundos na economia mundial, é inquestionável que a prosperidade gerada pelo fim dos ajustes financeiros dos turbulentos anos 90 e, principalmente, pelo ingresso da China no mercado mundial favoreceu enormemente as economias emergentes.

Os países em desenvolvimento que já dispunham de alguma base industrial e foram capazes de ativar mecanismos públicos e privados de decisão estão se transformando, no embalo da economia mundial, a um ritmo impressionante. Nessa onda favorável, também o Brasil avança. Nossa economia só não começou a mostrar há mais tempo os resultados dos esforços que vinha fazendo desde o Plano Real e da mudança cambial de 1999 porque a crise energética de 2001 e os temores desencadeados pela perspectiva de uma guinada brusca com a eleição do governo petista comprometeram os resultados econômicos de 2002 e de 2003, os quais só apareceram com força depois de 2005.

Vivemos, portanto, um momento extremamente favorável para consolidar as reformas modernizadoras do governo, da sociedade e dos mercados iniciadas anteriormente. Um momento que requer visão de grandeza: abrem-se possibilidades para o Brasil se afirmar como uma grande nação. Isto é, como um país democrático, com uma economia tecnologicamente moderna e competitiva, respeitador das instituições e dos contratos, que ofereça condições universais de acesso à educação, à saúde, à terra e ao trabalho para que seu povo desfrute uma vida digna. Portanto, um país que não se conforme com manter uma parcela ponderável de seus habitantes sem emprego decente, requerendo assistencialismo governamental.

O esforço de arrancada na direção do futuro exige objetivos claros e persistência no caminho escolhido, requer coragem nas decisões e eficiência para implementá-las. Não deixa de ser preocupante que o PT tenha chegado ao poder no momento que mais exige tais qualidades. Por mais que o atual governo tenha dado continuidade às políticas macroeconômicas que herdou, das quais sempre foi crítico e - pasmem! - continua sendo, não soube fazer a revisão programática que lhe permitiria levar adiante um projeto verdadeiramente nacional. Um projeto que abrangesse todas as correntes da sociedade e transcendesse os interesses meramente partidários, corporativos e pessoais. Um projeto que avançasse nas reformas institucionais e permitisse uma colaboração verdadeira entre o Estado regulamentador e a iniciativa privada disposta a empreender, especialmente no campo da infra-estrutura. Um projeto verdadeiramente democrático, ao abrigo de recaídas populistas.

O presidente Lula só faz autocrítica indiretamente, sem assumir responsabilidade pelas decisões que toma. Apenas lamenta "a quantidade de coisas que eu falei e falava porque era moda falar, mas que não tinha substância para sustentar na hora em que você pega no concreto". No exercício do governo, sempre que pode, refugia-se nas frases vagas, na cobrança genérica de responsabilidades, no jogar toda culpa no passado e se contenta com elogios fáceis a si mesmo, do tipo "nunca neste país&"... Em parte a retórica presidencial é certa: nunca houve tantos escândalos e, o que é pior, nunca qualquer outro presidente passou tanto a mão na cabeça dos envolvidos ("não se comprovou nada, são aloprados, e não criminosos, errar é humano").

De conseqüências ainda mais funestas do que a atitude leniente talvez seja a falta de compreensão histórica do governo e de seu líder. No afã de aumentar a popularidade e de iludir quem não tem acesso a melhor informação, governo e presidente assumem como próprio o que herdaram. Pouco importa, se for para o Brasil continuar avançando. Mas importa, sim, e muito, que estejam desperdiçando uma oportunidade histórica excepcional para que o Brasil dê um salto de qualidade, assegurando-o em benefício desta e das gerações futuras. Aqui, sim, cabe a frase: nunca neste país houve maior apagão ideológico e maior desídia diante do interesse público. O que vemos é um quadro de paralisia governamental, de desconexão, de imprevidência e de incompetência, recheada com uma retórica irresponsável.

Digo com lástima, sinceridade e franqueza: jamais imaginei que chegássemos a tal ponto de degradação. Fui testemunha da ação inovadora de Lula no sindicato e corajosa na política, quando ainda não era o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nunca o considerei, nem naquela época, um líder excepcional, pois lhe faltava firmeza para se contrapor à opinião da maioria ocasional, mas o tinha por um símbolo: migrante nordestino, corajoso e lutador que superou barreiras sociais. Tinha-o, e ainda o tenho, como um homem de boa índole, que em termos gerais deseja o bem do povo. Mas me decepciona vê-lo desperdiçar a oportunidade que tem nas mãos. Opus-me aos que, em 2005, cogitaram de propor o impeachment, não porque faltassem argumentos jurídicos nem porque quisesse vê-lo sangrar aos poucos, mas porque acreditava, como continuo acreditando, que o conteúdo simbólico de sua liderança é um patrimônio do País que não deve ser destruído. Lamento vê-lo agora destruir por suas próprias palavras e atos o capital de credibilidade que conquistou.

Presidente: em nome da sua e da História de nosso país, não se rebaixe à vulgaridade em nome da popularidade, resguarde-se de dizer tantos impropérios que machucam o bom senso, a solidariedade e a democracia. Por favor, tenha um pouco mais de grandeza, de que tanto necessitamos!

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República

Wednesday, July 25, 2007

UTOPÉIA - Do blog Prosa & Política de 25/07/07

Por Ralph J. Hofmann


O ano de 2003 trouxe ao povo Brasileiro um momento de catarse. Era um dos poucos lugares no mundo que haviam logrado eleger um trabalhador braçal, com o mínimo de educação técnica possível ao mais alto cargo da nação. Eleição democrática. A voz do povo falara. Um homem que sentira as agruras da vida nos níveis mais baixos da sociedade iria zelar para que as oligarquias entrincheiradas fossem alijadas dos pontos chave da sociedade.
Carregava consigo o beneplácito dos estudantes universitários e seus professores, de certas vozes distintas no mundo acadêmico e até de muitos empresários que o avaliavam pelas suas boas intenções.
Daria oportunidade aos dissidentes que haviam amargado anos de exílio, seja por estarem fora do país seja por estarem afastados dos centros de decisão pelas suas crenças políticas.
E antes de tudo, no decorrer de sua longa caminhada ao poder este homem nunca havia lançado mão da violência, e mais, havia nos últimos meses concordado que não cabia desmantelar o que já existia em termos de atividade privada e de medidas públicas bem sucedidas no país, o que, em última instância era o que gerava riquezas que alimentavam o povo.

Havia os céticos. Como um país complexo como o Brasil poderia ser gerido por um homem avesso a leituras, mesmo que de relatórios técnicos, por um homem que essencialmente era uma pessoa carismática com um instinto para dizer a cada platéia o que esta queria ouvir. Como poderia um primeiro mandatário dar ordens sobre situações complexas oriundas de diferentes áreas simultaneamente.
Mas enfim, o presidente de seja o que for sempre é essencialmente o líder de uma equipe. Escuta seus comandados e decide entre opções. Assim o país jamais ficaria paralisado. O importante seria que este operário estaria, segundo se preconizava, munido de noções de ética e moralidade advindas dos sofrimentos que passara em seus primeiros anos.
O país ouviu durante meses pessoas que conheciam a estrutura do seu partido declararem taxativamente que quem comandava a equipe montada era o próprio presidente. Este estaria se ocupando da imagem do país, mas que ninguém faria nada nos seus ministérios sem que o próprio mandatário desse sua aprovação.
Era importante frisar isto, pois aos observadores parecia que a Casa Civil, O Ministério da Fazenda e sua Secretaria Especial para Assuntos Internacionais estariam governando o país. Mas não, diziam os entendidos ou os alegadamente íntimos, “o Presidente manda em tudo”.
Sendo isto verdade podemos imaginar as lideranças do governo sentadas em suas salas de reunião recendentes a “puros” cubanos, rum e Romanée Conti, mapeando a transformação numa legítima utopia socialista. Imaginamos os mesmos planejadores preenchendo um quebra-cabeças com gráficos, quadros, cronogramas e organogramas, montando uma estrutura equilibrada moldada aos seus princípios éticos morais e de justiça social.
Mas em pouco tempo constatamos, por vídeos, evidências escritas, extratos de contas bancárias, sinais de enriquecimento rápido que o papo era outro.
As reuniões eram para determinar como efetuar o saque do botim. Eram as reuniões dos “capi mafiosi”. Administrar? Nem em sonho. A equipe tinha membros competentes. Mas não em obter soluções para o crescimento do país. Este ficou por conta do que havia sido feito antes da eleição que guindara o presidente ao palácio. Ficou por conta de esforços do setor privado ao longo dos quinze anos anteriores. Ficava-se no “status quo”, com um empurrãozinho daqui, uma apertadinha ali e uma pressão acolá.
Internacionalmente era uma questão de mostrar-se socialista. Não importa que fosse no contexto de um socialismo alijado por cinqüenta anos de insucesso na Europa Ocidental e oitenta anos de insucesso na Europa Oriental. Era uma questão de ser solidário com congêneres das Américas. Mesmo que isso significasse praticamente doar riquezas aos vizinhos ou seguir sambando enquanto um vizinho se empanturrasse de armas qual uma Alemanha da década de trinta.
Quando um país vizinho está fortemente armado normalmente chega um dia em que quer usar suas armas. Vide Saddam Hussein e o Kuwait. Ainda mais quando esgota suas fontes de riqueza sem aproveita-las para garantir o futuro de seu país. Mas o Presidente nos assegura que a amizade com o vizinho será imorredoura. E o Ministro Especial garante isto também. Assim também o antigo Chefe da Casa Civil. Podemos dormir descansados. Nossos filhos e netos não terão de se defender contra o vizinho. Não terão de pagar ano após ano para armar este país para que esteja a salvo do inimigo.
Também cabia ser solidário com as massas mobilizadas contra a modernidade no campo. Não interessa se pregam um desprezo total contra as leis, se efetivamente transgridem a lei com violência, se infringem direitos de outros.
A acomodação de amigos e simpatizantes significa que as próprias fontes e origens de regulamentos e normas estavam sendo solapadas. Organismos criados em décadas de trabalho, com informações seguras quanto às necessidades e objetivos a alcançar no país passaram a ser desmanchadas para acomodar a estrutura de serventes amigos do poder. Planos criados para defender e desenvolver o país foram passados às mãos de administradores que entre pusilânimes e ignorantes deixaram que fossem desmontados, sem que algo de novo surgisse no seu lugar. Passamos a ter ministros que seguindo o próprio exemplo da presidência, não sabem o que precisam fazer. Não conseguem argumentar as necessidades de seus ministérios, pois sequer as conhecem. Não escutam os poucos peritos que sobraram. Assim temos crises como a da aftosa, temos uma transposição de Rio São Francisco apenas baseada em fatores emocionais, temos Pedro roubando de Paulo, temos um apagão aéreo e uma previsão de apagão de energia.
Isso para não falar da corrupção progressiva de todos os aspectos da vida pública nacional.
Realmente, há um monstro de cem pernas devorando tudo que é sólido neste país. O objetivo dos confidentes do Sr. Presidente não é a Utopia. É um mundo em que tenham o poder. Querem algo como o “ Tausend Jahr Reich” (Império de Mil Anos) do Hitler. Um país que lhes pertença para fazerem suas experiências. Mesmo que, como ocorreu na Rússia, na China e no Camboja isto custe a vida de dezenas de milhões. Não Utopia, Utopéia.
Pena que o Presidente operário não tenha dado certo. Teríamos tido prazer em aplaudi-lo se estivéssemos errados em 2003 ao nos mostrar céticos. O problema agora é outro. Com o egoísmo das oposições que não conseguem ser oposição, que lutam por migalhas, vamos ter de seguir agüentando essa perda de estatura do país após 2010?
UTOPÉIA

Friday, July 20, 2007

Os Nojentos - Blog do Reinaldo Azevedo - 20/07/2007



Asquerosa!
Deprimente!
Revoltante!
Vagabunda!
Delinqüente!

A que outras palavras se pode recorrer para definir os gestos despudorados do velho Marco Aurélio Garcia (publico acima, de novo, o vídeo), assessor especial de Lula, e do ainda jovem Bruno Gaspar, assessor de Imprensa? Vejam aí: a maturidade não faz o decoro. Num, a idade foi acrescentando tolice, fatuidade, arrogância. No outro, a falta dela confere jactância, fanfarrice, prepotência. E o velho, ali, era o retrato bem-sucedido do moço. Marco Aurélio é Bruno quando maduro. Bruno é Marco Aurélio quando jovem. Essa gente é uma espécie.

O Brasil ainda chora quase 200 vítimas; enlutadas, as famílias anseiam, ao menos, pelos despojos de seus mortos, para que possam concluir suas respectivas tragédias, já que aqueles a quem amavam lhes foram arrancados, surrupiados, seqüestrados por um governo incompetente; que, quando não é só incompetente, consegue ser pior porque incompetente e corrupto. Corrupção e incompetência fartamente documentadas justamente na Infraero, especialmente na reforma do Aeroporto de Congonhas, mortalha de inocentes; picadeiros de palhaços da morte; valhacouto de assassinos.

O que tanto comemoravam aquelas duas tristes figuras? Quem Marco Aurélio achava que estava f_ _ _ _ _o? Quem estava sendo violado pelo sr. Bruno Gaspar? Quais eram seus inimigos imaginários que estavam ali sendo subjugados em seu festim patético? Por que tripudiavam, eufóricos, sobre 200 mortos, sobre histórias interrompidas, sobre famílias moralmente destruídas, que, a esta altura, não têm de seu nem os corpos para enterrar, carbonizados que foram na pira da incúria, da loucura, da irresponsabilidade, da prevaricação? Por que festejam estes vândalos? Qual foi a grande vitória que obtiveram? Quem o assessorzinho chama de “filho da puta”?

A resposta é simples e chegou a este blog na pena dos acólitos, da Al Qaeda eletrônica, dos esbirros menores da ditadura da corrupção, da incompetência e da vulgaridade. Para estas alimárias, a matéria de William Bonner, no Jornal Nacional, provando que a aeronave estava com um dos reversores desativado (e que enfrentara problema no dia anterior ao do acidente) livrava o governo de qualquer responsabilidade. Mais uma vez, a “mídia”, inimiga eterna de ditadores e, por que não?, dos petistas, seria, então, acusada de conspiração. Como se a informação não tivesse sido tornada pública pela própria mídia que se procurava execrar, ferrar, violar, subjugar, submeter, humilhar.

Feios! Sujos! Malvados!

Só que não prova nada! O reversor desativado lhes saiu pela culatra. Todos os técnicos, incluindo a voz oficial da Aeronáutica, sustentam que, em pista adequada, é perfeitamente possível aterrissar sem o reversor — de fato, sem os dois reversores. Ele pode ajudar a diminuir a velocidade de um avião, mas, deixam claríssimos os especialistas, naquela situação vivida pelo AirBus, teria sido inútil. Sabem o que isso significa? Que a hipótese de problema na pista, em vez de ter diminuído, aumentou. A reportagem do Jornal Nacional, não obstante, é muito importante: em sua entrevista coletiva, Marco Antonio Blogna, presidente da TAM, omitira tal dado. Disse que a aeronave estava em perfeitas condições. Poderiam até ser adequadas, mas perfeitas não eram. Também omitiu que a mesma aeronave quase saíra na pista no dia anterior ao acidente. A relação Infraero-empresas-Anac, vai ficando evidente a cada dia, não pode ser mais obscura, confusa, estranha. Sargento Garcia e o Tonto vibraram inutilmente.

Vocês leram; os posts estão nos arquivos. Desde a primeira hora do acidente, apontei a responsabilidade do governo, seja lá qual for a causa desta tragédia em particular. Tanto é, que Lula vai hoje à TV anunciar medidas. Os três órgãos que cuidam do setor são subordinados ao Executivo: Infraero, Anac e Ministério da Aeronáutica. Lembrem-se: quase uma hora depois do acidente, não se sabia que avião ardia em chamas, não se sabia o nº do vôo, não se sabia nada. Trata-se do maior acidente aéreo no mundo em cinco anos. Na história da aviação, é a primeira vez que um país registra dois casos tão graves em prazo tão curto: 10 meses. Não! Ocorre que este governo não suporta cobranças. Como fica claro num vídeo que postei ontem, Lula ainda espera que lhe sejamos gratos por cumprir tão mal as suas obrigações.

Desde o primeiro post sobre o caso, a Al Qaeda eletrônica tenta se infiltrar aqui. A acusação estúpida, maledicente, que segue o velho princípio de acusar os adversários dos vícios que “eles” têm, é que eu estaria contente com a tragédia. A cobrança política que fiz foi tachada de exploração da dor alheia; foi chamada de insensível. O lema passou a ser, então: “Vamos parar de politizar o acidente”. Revejam o vídeo de Marco Aurélio e de Bruno Gaspar. Agora respondam: quem, de fato, explora a tragédia? Quem se ocupa unicamente de sua dimensão política? Quem, com efeito, está mais preocupado com a imagem do governo do que com a dor das famílias dos mortos?

Marco Aurélio, o Dom Giovanni da ditadura do proletariado, e seu Leporello pegador, de crachá e camisa amarrotada, são mais indecorosos pelo que pensam do que pelos gestos obscenos que fazem. São o retrato de um governo mais interessado em achar uma desculpa do que uma resposta; mais interessado em se safar do juízo da opinião pública do que em resolver um problema. E poderia ser diferente? Garcia é um dos artífices de nossa política externa; foi o homem enviado por Lula à Venezuela, logo nos primeiros dias de seu primeiro mandato, para atestar a “democracia até em excesso” de Hugo Chávez. É o pensador por trás da aproximação de Lula com as ditaduras islâmicas. É, não custa lembrar, co-fundador, com o Apedeuta, do Foro de São Paulo, um ajuntamento de partidos e grupos de esquerda da América Latina em que as narcoguilheiras Farc têm assento. Presidiu o PT durante a crise do dossiê e foi um dos formuladores da tese de que se tratava, vejam só, de uma tentativa de golpe de Estado.

Tremores e desculpa
Marco Aurélio resolveu dar uma pequena entrevista se explicando, com seus óculos redondinhos, como a anunciar que atrás daquelas lentes mora um intelectual refinado. Nós vimos. Classificou as imagens de “clandestinas” e disse que, em público, não se comportaria daquela maneira. Falo já disso. Clandestinas? Ele estava no Palácio do Planalto, na sede do Poder Executivo. Talvez ignore, mas aquele é um espaço público, e ele podia ser visto próximo à janela. Ninguém invadiu a sua casa para flagrá-lo na intimidade. Muito ao contrário. O que ele esperava? Que o cinegrafista, vendo-o ali, desligasse por pudor a câmera? Talvez sim. Os indecorosos sempre esperam que os decorosos se intimidem. Contam com isso.

Mas estupenda e reveladora é sua afirmação de que jamais faria aquilo em público. Ora, todos sabemos, não é? A frase é um emblema. Existe o petismo público e existe o petismo de corredor; existe o petismo para a massa de néscios, e existe o petismo para os escolhidos; existe o petismo oficial, e existe o petismo não-contabilizado, paralelo, caixa dois. Estamos falando, afinal, desde sempre, de um esquerdista para quem, por definição, a moral está a serviço de um projeto. E, na trajetória da esquerda, nunca importou quantos poderiam ou precisariam morrer para que esse projeto se realizasse.

“A nossa moral e a deles”
Marco Aurélio não vem da banda do PT stalinista. Vem do trotskismo — e ele não se curou: ficou mais doente. Porque agora aderiu também à vida pançuda da burocracia estatal. Trotsky é autor de um célebre texto em que fala da “nossa moral [dos socialistas] e da deles [dos burgueses]” Saibam, leitores: tudo aquilo que reconhecemos como escrúpulo, decência, limite, individualidade, respeito ao outro, tudo isso não passa da moral burguesa, a ser descartada liminarmente em nome de uma outra moral, uma doutrina aberta que, supostamente, vai-se construindo na história, mas que, de fato, atende exclusivamente aos interesses do partido encarregado da revolução. No caso, a revolução possível: essa porcaria que o PT vem fazendo.

Para realizar seus objetivos, temos outros exemplos, essa gente já demonstrou não ter limites e não se intimidar jamais. Nas suas explicações, ao ajeitar os seus óculos redondinhos, Marco Aurélio tremia feito uma gelatina. Era alguém acostumado, como se viu, a gestos bastante eloqüentes nos bastidores obrigando-se a fingir uma civilidade que, com efeito, não tem. Pelo menos, vá lá, é um medalhão do partido. E aquele outro coitado? E o Robin ideológico do Batman pançudo do socialismo?

Acusam seus adversários daquilo que eles próprios fazem. Não! Eu não celebrei a morte de ninguém. Lamentei. Lamentei todas elas e uma em particular, a do deputado Julio Redecker (PSDB-RS), e já expus aqui os motivos. Ah, eles sim. Eles tentaram comemorar o que seria a vitória sobre os adversários. Na entrevista, Marco Aurélio teve o mau gosto adicional de citar os mortos, que seriam a causa original de sua indignação. Conversa! Ele julgou, junto com o seu “Menino Prodígio” rompedor, que a fatura estava liquidada. Para ele, Lula havia ganhado mais essa. Para ele, Lula havia derrotado os 200 mortos.

Mas não derrotou. Eles lhe pesam sobre os ombros, junto com os 154 do avião da Gol. Hoje o demiurgo fala. Embora “não tenha nada com isso”, vai anunciar medidas. Se não der um pé no traseiro do Batman Gorducho e do Robin matusquela, estará repetindo ele próprio o gesto de seus subordinados. E, aí, para todo o povo brasileiro. Nunca uma gente tão baixa chegou tão alto. E, por isso, morremos assim: esturricados na fogueira de sua incompetência.

E saibam: eles sempre podem ir um pouco mais longe.


Por Reinaldo Azevedo

Monday, July 16, 2007

Ódio à liberdade alheia - Blog do Reinaldo Azevedo, 16/07/2007



Os petistas odeiam a liberdade. Dos outros.Quem, como eu, tinha 21 anos quando o partido disputou a sua primeira eleição importante — a do governo de São Paulo, com Lula — sabe que o PT foi quem introduziu (na verdade, reintroduziu) o humor nas disputas eleitorais. Vivíamos sob um regime de exceção, uma ditadura mitigada, mas ditadura ainda assim. A cara das campanhas eleitorais era a da Lei Falcão: os santinhos congelados na TV, com uma voz em off lendo a sua biografia. E não qualquer biografia. Em 1978, a referência à aposentadoria compulsória de FHC determinada pelo AI-5 foi vetada. Ele concorria a senador na sublegenda do MDB. Franco Montoro foi eleito, venceu a disputa para o governo de São Paulo em 1982, e aquele que viria ser presidente da República por oito anos assumiu a sua vaga no Senado. O PT percebeu que a irreverência, contrastando com sua pregação socialista então iracunda, era um bom caminho para falar aos trabalhadores, aos estudantes, àqueles que haviam se acostumado com a política mui vetusta dos militares.Com a chegada da propaganda eleitoral gratuita, o partido foi investindo mais e mais em marketing — com freqüência, contou com o trabalho voluntário de publicitários. Observem: não estou aqui fazendo necessariamente a defesa da disputa política como guerra publicitária. Não! Estou procedendo a uma pequena memória histórica: o PT sempre foi mestre em apelar ao humor para transformar seus adversários políticos numa caricatura. E, reitero, chegou a fazê-lo ainda durante o regime militar — não porque lhe sobrasse coragem, mas porque a ditadura brasileira já estava moribunda.É o representante máximo desse partido, ninguém menos do que o presidente da República, quem pede a uma empresa — no caso, a Peugeot — que retire do ar uma propaganda que faz uma brincadeira bem-humorada com a ministra do Turismo, Marta Suplicy. Convenham: o rapaz que encarna a personagem (vejam abaixo) é engraçado, jamais agressivo; é galhofeiro, simpático e, já que recomenda a compra de um automóvel, tem de conquistar a simpatia do espectador. É o exato oposto de Marta, especialmente depois da frase infeliz do “relaxa e goza” (ver filme acima).Se a propaganda tinha algum efeito sobre a imagem a ministra, era, certamente, mais positivo do que negativo. Transferia uma frase típica de uma dondoca alienada e deslumbrada para o terreno da graça. Sei, a cada vez que a propaganda ia ao ar, o fato original era lembrado. Pergunto: Marta acha que ele será esquecido? Acredita que essa doce truculência de pedir a censura a um comercial de TV ajuda a compor a sua imagem?A reação da PeugeotAlguns leitores estão criticando com azedume a Peugeot por ter cedido a uma pressão — a que não era obrigada legalmente a se submeter, notem bem. Ao site do Clube de Criação de São Paulo, Jáder Rossetto, da agência Euro RSCG Brasil, que tem a conta do produto, mostra-se um tanto contrariado, mas deixa claro que “pedido de presidente da República não pode ser negado”. Eis aí. Não pode no Brasil. Se o famigerado Jorjibúxi das esquerdas se metesse numa propaganda de TV nos Estados Unidos, levaria da empresa e da agência um sonoro “Sai pra lá; meta-se com a sua vida”.Acreditem: há no Brasil um regime econômico muito parecido com o capitalismo, mas capitalismo não é. Sim, senhores: as empresas, por aqui, têm enorme dificuldade — receio, medo mesmo — de dizer “não” ao presidente da República, ao governo. Ou vocês já se esqueceram que a Volks recriou o Fusca em 1993 só porque o então presidente Itamar Franco acordou invocado e cismou que era uma boa idéia relançar o carro? Em 1996, o Fusca morreu pela segunda vez. E por que tanto medo? Porque o estado é gigante e tudo pode.Um país de JecasO que é estúpido nessa história é que a frase infeliz de Marta não foi censurada por Lula ou pelo governo. No máximo, ela soltou uma notinha se desculpando. Quem acabou arcando com as conseqüência da imprudência da ministra do Turismo foram a Peugeot, a agência, a liberdade de expressão e o bom humor. Neste ponto, alguns dirão: “A liberdade de expressão não foi atingida; o presidente fez um simples pedido. A Peugeot atende se quiser”. Conversa para boi dormir. Se Marta se sentiu agravada, que recorresse à Justiça. Ainda que a decisão fosse igualmente equivocada, ao menos se teria seguido o ritual do estado de direito. Não! Em vez disso, opta-se pela carteirada, pela pressão da “otoridade”.Qual é a diferença entre a “ministra” da Peugeot e a Marta Suplichique do humorista Marcelo Madureira, de Casseta & Planeta? Aliás, a criação da agência estava mais para a graça de Madureira do que para a truculência frívola da personagem original. O humor pelo humor é moralmente superior ao humor que vende automóveis? Por quê? Digo mais: a Suplichique de Casseta é, necessariamente, uma crítica. O ator carrega nas tintas, digamos, um tanto soberbas de Marta; a da Peugeot era só engraçada: emprestava à ministra uma graça que ela não tem.Acontece que estamos nos tornando um país de Jecas, de gente dodói, que reclama de tudo, que se sente ofendida por qualquer coisa, que sai logo gritando, reivindicando direitos, acusando discriminações. A própria Peugeot teve de tirar do ar uma outra propaganda em que um sujeito tenta, inutilmente, subir uma ladeira com um carro velho. Ele e a namorada vão se livrando das tranqueiras para deixar o veículo mais leve. E nada. Até que sobra apenas a... sogra. Pronto! Tornou-se incorreto até fazer piada de sogra. Será preciso banir a língua-de-sogra dos aniversários de criança. No Carnaval, quando começar a marchinha “Trocaram o coração da minha sogra/ puseram o coração de um jacaré...”, você pára de dançar e sai do salão em sinal de protesto.Logo, alguém vai propor uma Lei Falcão para a publicidade. Mostra-se o produto (em preto e branco, para não excitar o espírito consumista), informa-se a sua finalidade, expõem-se as características do produto (texto previamente revisado pelo Comissariado Contra o Consumismo) e se informa o preço. Tudo muito sóbrio. Tenham a santa paciência. Já se apelou até a um sósia do papa para vender mercadoria. A Igreja Católica pode não ter gostado. Aliás, eu, como católico, não gostei: achei fútil, banal, de mau gosto. E daí? Eu que proteste onde achar conveniente. Vocês sabem: procuro dizer da maneira mais inequívoca e menos ambígua possível o que penso; sempre que possível, evito os tons de cinza — não partilho da idéia idiota de que a verdade está no meio (não está). Mas não tento calar o outro.NeocensuraA verdade bastante incômoda é que estamos vivendo tempos que flertam com a censura, agora considerada uma variante da democracia. Volto ao ponto inicial: o PT é um partido hostil à liberdade alheia. Quando não busca enrijecer os mecanismos de estado para limitar a liberdade de expressão, recorre a expedientes como o que se expõe aqui. O partido quis expulsar um jornalista estrangeiro por suposta ofensa ao presidente da República. Naufragou. Quis criar o Conselho Federal de Jornalismo. Naufragou. Quis impor uma bula à Ancinav. Naufragou. Quis recriar a censura prévia no Brasil. Naufragou. Quer agora criar uma certa TV Pública que tem a única finalidade de cantar as glórias do demiurgo. Tomara que naufrague também — ah, claro, não custa lembrar: premia os veículos bem-comportados ou alinhados com publicidade oficial. Até o jornaleco do MR-8 já recebeu anúncios da Receita Federal e da Caixa Econômica. Há uma certa revista semanal que ninguém lê, quase clandestina, como aquelas cartilhas de Luiz Gushiken, que vive de propaganda de estatais e do governo.O leitor poderá dizer: “Bem, tantos naufrágios indicam, então, que não corremos riscos”. Errado. Nenhuma dessas iniciativas foi irrelevante. A cada uma, a liberdade se retraiu um pouco. Até porque, como lembrou muito bem José Dirceu em recente seminário na CUT, uma parte da imprensa, hoje, está com Lula. Vocês acham o quê? Os publicitários, a partir desta segunda, tendem a evitar referências a figuras do mundo político. Quando o PT, no auge do escândalo do dossiê, saiu gritando que estava em curso um “golpe da imprensa”, é claro que sabia se tratar de uma mentira deslavada, primitiva até. Mas contava com a reação que, de fato, se verificou: muitos veículos passaram a se policiar mais, a se questionar se não estavam mesmo exagerando, a se esforçar para deixar claro que não se tratava de uma campanha contra Lula. O PT é mestre em empurrar quem tem razão para uma posição de defesa. E como faz isso? Atacando sempre, especialmente quando está errado.
Batuque na cozinha
Só pra encerrar a crônica destes dias: num texto sobre a festa do Pan, afirmei, um tanto galhofeiro, que a variedade de instrumentos de percussão numa cultura é inversamente proporcional à civilização. Pronto! Foi um deus-nos-acuda. Se tentassem provar a minha ignorância musical, até antropológica (“Mas o que é civilização para você, Reinaldo?), talvez eu esperneasse, mas o capeta não baixaria em mim. Agora não venham me dizer o famoso “Você não pode escrever isso”. Não posso por quê? Já escrevi. E escrevo de novo: a variedade de batuques num país costuma ser inversamente proporcional ao respeito aos direitos individuais. O máximo que se pode debater aqui é o seguinte: alguém dá exemplo de uma sociedade cheia de batuques e direitos individuais, e eu tento desqualificá-lo. O meu direito de escrever isso só pode estar em questão numa ditadura. Será que é preciso desenhar?
Por Reinaldo Azevedo