Saturday, July 17, 2010

Uma carta aos leitores... Blog do Reinaldo Azevedo - 17/07/10

Leitores do Tio Rei,

não sou tipo que, invejando a saúde dos jovens, o colágeno de sua pele, cantarola: “Esses moços/ pobres moços/ ah, se soubessem o que eu sei”… Aos 48, ainda não tenho idade pra isso, embora não me fizesse mal nenhum ter agora 25 — de preferência, sabendo o que eu sei, hehe. Brincadeirinha à parte, idade ou juventude indicam, sem dúvida, mais experiência ou menos, mas não necessariamente mais repertório ou menos. Os livros existem também para que nos preservemos de certos enganos, sem que precisemos passar por eles.

Por que essa conversa? Compadecem-me um tantinho os jovens jornalistas e candidatos a tanto, ainda nas universidades. Refiro-me a dois grupos em particular:
1) aos que “sabem”, porque bastante lidos, e tiveram ou têm de suportar a patrulha bucéfala em seus cursos, submetidos à glossolalia ideológica esquerdopata de professores que transformam as salas de aula em verdadeiras madraçais partidárias;
2) aos que se deixaram seduzir, muitas vezes sem nem perceber, pelo “outro mundo possível”, sem se dar conta de que “o outro mundo possível” só foi “impossível” até agora porque, a partir de certo estágio, a civilização resiste ao horror — o que não quer dizer que não possa cair nele, como provaram os fascismos europeus do século passado e o bolchevismo.

Como sabem, sou bastante crítico da imprensa, mas não para controlá-la e esmagá-la, como Dilma deixou claro querer no programa que rubricou, mas não tragou. Reconheço que a coisa é realmente complicada para os moços. Como se livrar daquela craca que se grudou ao pensamento, a lhes dizer que sua tarefa não é relatar o que vêem e o que apuram, segundo a regra da ordem democrática, mas promover “justiça social”, como se a dita-cuja fosse um conceito universal ou natural, feito a Lei da Gravidade, e não estivesse ela própria submetida a crivos ideológicos? Como é que essa “meninada” vai entender que essa tal “justiça social” é parte de um discurso organizado de quem tem um projeto bem mais amplo do que simplesmente promover a “igualdade”?

É difícil! A questão lhes é proposta, desde a mais tenra idade — e eu tenho filhas, lembram-se? —, como uma imposição moral, de sorte que a agenda ideológica fica diluída numa conversa pastosa sobre a igualdade, a maldade das elites, o egoísmo… Em que momento esses jovens entraram em contato com o pensamento que assegura, porque isto é história, que é a democracia a grande promotora da justiça social, e não a justiça social a promotora da democracia? Resposta: nunca!

Os exemplos estão aí: nos países em que o discurso da justiça social se tornou o redutor do debate público, prosperaram e prosperam as ditaduras; naqueles em que a ordem democrática é tornada questão inegociável, não se admitindo práticas que a solapem, caminha-se progressivamente para a redução das condições que geram as desigualdades, restando a cada indivíduo arbitrar sobre o seu destino, porque este segue sendo o único horizonte que dignifica a vida humana: a escolha.

Os dirigentes que transformaram a “justiça social” no objeto último de sua luta caminharam, sem exceção, para a ditadura — e pouco importa saber se seus propósitos eram originalmente bons. Os que fizeram da democracia seu horizonte inegociável tornaram o mundo mais tolerante; produziram a igualdade das leis para que os homens, livres para escolher, pudessem ser desiguais.

Sei, no entanto, que há uma espécie de “conspiração da bondade” contra os fundamentos da democracia. Militâncias particularistas — de gênero, de cor de pele, do meio ambiente, até de categorias profissionais — tomaram o lugar antes ocupado pela velha “luta de classes” e pretendem, a partir de sua visão muito particular de mundo, construir um saber de abrangência supostamente universal. Levadas a efeito todas as suas propostas, seríamos, sem dúvida, menos livres porque teríamos de obedecer aos “superintendentes” das causas.

Os jovens se deixam seduzir muitas vezes não porque sejam bobos, mas porque pretendem ser justos; ignoram que certas “causas”, se bem-sucedidas, solapariam justamente o regime de liberdades que lhes permite a manifestação, a organização, o protesto. Esse ímpeto, no mais das vezes, é manipulado por grupos ideológicos — no caso do Brasil, por um partido político em particular: o PT. Partido que, diga-se, em muitos aspectos, não poderia ser mais “da ordem” do que é; no que concerne à democracia, continua a ser da desordem — desordena a democracia.

Imprensa e bem-estar democrático
Penso naquele programa que Dilma enviou ao TSE, depois substituído por outro, não menos deletério no que respeita à imprensa. A sede de controlar a “mídia” foi reiterada depois, de modo um tanto oblíquo, numa entrevista concedida pelo presidente do partido.

Na oposição, os petistas exaltavam a liberdade de imprensa; no governo, passaram a lastimá-la. Na oposição, contavam com o trabalho da imprensa para chegar ao poder; no governo, querem silenciá-la para continuar no poder. A liberdade, pois, que lhes foi tão útil para a conquista de um objetivo passou a ser um empecilho para a conquista do outro.

O “controle da mídia” é uma dessas causas vendidas aos jovens. Nós conhecemos uma das respostas do PT à imprensa que o partido considera “pouco afeita (sic) à qualidade, ao pluralismo e ao debate democrático”: a malograda TV Pública, cuja mensagem se propaga numa vasta e milionária solidão, falando para ninguém. O governo e o partido, nesse particular, não têm conseguido nem mesmo ser doutrinários. O leitor, o telespectador, o ouvinte e o internauta repudiam a imprensa chapa-branca, o jornalismo a soldo, feito sob mando do estado, do governo ou de um partido.

O PT dos vários programas tem, na verdade, um programa só: substituir a sociedade pelo partido, daí as reiteradas tentativas de controlar a imprensa. O jornalismo digno desse nome, que não se confunde com os esbirros a soldo, investiga o poder, questiona os poderosos, fala em defesa dos direitos protegidos pela Constituição. E é alvo permanente dos que preferem se esgueirar nas sombras, atuando à margem da lei. Enquanto extremismos homicidas lutavam para provar a moralidade superior de suas respectivas ditaduras, a imprensa brasileira encarnava a firme, paciente e continuada defesa da democracia e do estado de direito. E tem de continuar livre. Porque quero continuar a criticá-la!

A imprensa, como destacou a Carta ao Leitor da VEJA, na semana passada, não tem lições a receber de quem não compreende o valor universal da democracia e pretende subordiná-la aos interesses de um partido e de grupos de pressão que, sob o pretexto de representar a diversidade, falam em nome de seus próprios preconceitos.

A liberdade de imprensa não é uma concessão que governos generosos ou compassivos fazem à sociedade. Ao contrário: os governos é que são uma concessão dos cidadãos à necessidade de um ordenamento jurídico que garanta as liberdades individuais. Elegemos governos para que eles assegurem os nossos direitos, não para que os cassem.

Os autoritários transformam o estado e o governo numa finalidade. Para os democratas, eles são meios que asseguram as liberdades individuais e públicas. A imprensa é o pilar do bem-estar democrático, sem o qual a meta do bem-estar social é promessa vã de embusteiros.

Paro (talvez…) uns dias para descansar, mas já estou cheio de ânimo para o retorno. Todos dizem querer o bem-estar social, e essa luta, sem dúvida, já está muito bem representada e tem muitos militantes. Saio um pouquinho e volto para a causa para a qual os convoco: O BEM-ESTAR DEMOCRÁTICO, pouco importa quem vença as eleições. Não permitiremos que façam a nós, em nome de seus princípios, o que jamais faríamos a eles, em nome dos nossos.

O “Estado de Bem-Estar Democrático!” É o nome de nossa causa!

Por Reinaldo Azevedo

Sunday, June 20, 2010

Os manuscritos de Getúlio e o prefácio que Lula não escreveu - Blog do Augusto Nunes - 19/06/10

Nunca antes neste país houve um presidente que não tivesse lido sequer uma orelha de livro nem escrito pelo menos alguma anotação na agenda. Lula foi o primeiro. Ele jamais escondeu a aversão a leituras ─ ou porque dão azia, no caso dos jornais, ou porque são mais estafantes que exercício em esteira, se passam de 10 centímetros. E ninguém jamais o viu empunhando uma caneta ou dedilhando um teclado para produzir meia dúzia de linhas sobre o que quer que seja.

Há sete anos e meio em Brasília, Lula não sabe se existe alguma estante na Granja do Torto, nem procurou saber onde fica a biblioteca do Palácio da Alvorada. E sua letra foi vislumbrada pela primeira (e última) vez em 1982, zanzando sem bússola num recado tatibitate ao sobrinho que fazia aniversário. De lá para cá, não rabiscou lembretes em agendas, não fez anotações em diários, não mandou cartas, e-mails ou bilhetes ordenando a Gilberto Carvalho que o acordasse mais tarde. Nunca escreveu coisa alguma.

Começou agora, avisou o senador Aloízio Mercadante em 13 de Junho do Ano de Graça de 2010: “Entreguei um exemplar do meu novo livro ‘Brasil, a construção retomada’ ao presidente Lula, que fez o prefácio”, garantiu a mensagem transmitida pelo twitter do Herói da Rendição. A notícia embutia uma segunda descoberta igualmente assombrosa: como ninguém escreve o prefácio sem ter lido o livro, Lula ─ entre a assinatura de um tratado de paz no Oriente Médio e a celebração de um acordo no Irã ─ encontrara tempo para ler com a devida atenção outro filhote do prolífico Mercadante.

Desde novembro passado, os interessados na compreensão da saga republicana aguardam, justificadamente excitados, a divulgação de quase 700 bilhetes enviados por Getúlio Vargas a Lourival Fontes, chefe da Casa Civil do governo constitucional. Redigidos entre o começo de 1951 e agosto de 1954, deverão chegar às livrarias junto com o catatau do senador. Os manuscritos de Vargas podem jogar mais luz sobre uma tragédia. O prefácio pode ser jogado no lixo: é só outra farsa. Lula limitou-se a garatujar a assinatura no palavrório que alguém escreveu.

Por ação ou omissão, os intelectuais companheiros se tornaram cúmplices da celebração da ignorância. O que houve com o Brasil para engolir sem engasgos alguém incapaz de desenhar um O com um bule?, pergunta a gente sensata. O que leva um país a tratar como inimputável um chefe de governo incapaz de produzir um único registro escrito sobre os anos vividos no coração no poder? Conversa de elitista, recita o ensaísta Antônio Cândido, que não fez outra coisa na vida além de lidar com palavras.

“Acho que os historiadores do futuro terão dificuldade em entender o contraste entre essa quase unânime reprovação do Lula pela grande imprensa e sua também descomunal aprovação popular”, escreveu Luis Fernando Verissimo. “O que vai se desgastar com isto é a idéia da grande imprensa como formadora de opinião”. É muito cinismo, estariam berrando os intelectuais independentes e os estudantes livres de cabrestos ideológicos se ambas as espécies não estivessem em extinção no Brasil da Era da Mediocridade. O que os historiadores do futuro custarão a entender é a vassalagem prestada por escritores estatizados, cronistas federais e humoristas amestrados ao chefe que encarna a Era da Mediocridade.

A julgar pela comédia nsaiada por Mercadante, o rebanho agora quer promover o pastor a homem de letras. É tarde. O espaço reservado a Lula no Museu da República não terá uma única gaveta ocupada por cartas, diários, anotações, rascunhos, recados, mensagens, canetas, lápis, boletins escolares, composições à vista de uma gravura ─ nada. Se algum curador oportunista fizer de conta que prova de fraude é documento histórico e expuser à visitação pública as páginas que abrem o livro de Mercadante, tomara que não fiquem ao lado dos bilhetes de Getúlio.

Os manuscritos permitirão que se contemple com mais nitidez o ocaso perturbador de um estadista que saiu da vida para entrar na História. O prefácio que Lula não escreveu desnuda a cabeça primitiva de um político que caiu na vida e caiu da História.

Monday, March 22, 2010

Se ouvisse Arias em vez de Lula, Obama não teria quebrado a cara - Blog Augusto Nunes, 21/03/10

Barack Obama precisou de uma crise política em Honduras, reincidências atômicas no Irã, um pedido de socorro formulado por presos políticos cubanos e aparições da comitiva brancaleônica no Oriente Médio para descobrir o tamanho do engano cometido em abril de 2009, na Cúpula das Américas de Trinidad-Tobago. O presidente americano desembarcou para a apresentação de estreia no clube dos cucarachas com pouca informação e muita pressa. Fez uma escolha errada ainda no primeiro dia e retornou a Washington sem corrigir o equívoco tremendo.

Se conhecesse a cabeça de Lula, teria evitado dizer qualquer coisa que permitisse ao intérprete do Itamaraty jurar ao presidente brasileiro que, segundo o novo inquilino da Casa Branca, ele era o cara. Se tivesse tempo para ouvir com a merecida atenção o discurso de Oscar Arias em Trinidad-Tobago, Obama talvez entendesse de imediato que o cara era aquele. Para tanto, bastaria pinçar alguns trechos e confrontar o que disse o presidente da Costa Rica com o falatório de Lula. Como atestam os pontos de vista abaixo resumidos, cinco temas seriam suficientes para uma comparação muito reveladora:

EDUCAÇÃO
ARIAS : A escolaridade na América Latina ─ 7 anos, em média ─ é inferior ao da maioria dos países asiáticos, dos Estados Unidos ou do Canadá, que têm o melhor sistema educacional do mundo, similar ao dos europeus. Esse tempo é insuficiente. De cada 10 estudantes latino-americanos que chegam ao curso secundário, só um consegue concluí-lo. Não estamos educando corretamente nossos filhos.

LULA: Ninguém melhor que o Amador Aguiar, que virou dono do Bradesco sem ter estudado, para provar que a inteligência é uma coisa à parte, e a universidade é apenas o aumento do conhecimento que as pessoas precisam ter sobre determinadas coisas específicas. No Brasil se adquiriu o hábito de confundir título universitário com sabedoria, título universitário com inteligência, o que é uma coisa descabida.

UNIVERSIDADE E DESENVOLVIMENTO
ARIAS: A América Latina já tinha universidades quanto surgiram as primeiras dos Estados Unidos. Mas nossas universidades parecem estacionadas nos anos 60, 70. Parecemos ter esquecido que o Muro de Berlim caiu em 9 de novembro de 1989 e que o mundo mudou. Continuamos a discutir sobre todos os “ismos”. Ainda discutimos se o melhor é capitalismo, socialismo, comunismo, liberalismo, neoliberalismo, socialismo-cristâo. Os asiáticos encontraram no fim do século passado um “ismo” muito mais realista para o século XXI: pragmatismo. Desde 1979, os chineses crescem a 11%, 12% ou 13%, e livraram da pobreza 300 milhões de pessoas. Enquanto isso, continuamos a discutir ideologias que devíamos ter enterrado há muito tempo.

LULA: Ninguém criou mais universidades que o torneiro-mecanico analfabeto que foi eleito presidente. (…) É importante que os universitários tenham sua ideologia, seus ideais. Isso é uma coisa muito pura. (…) O neoliberalismo quase acabou com o Brasil. (…) Nossa economia vai continuar crescendo porque isso é coisa do destino.

CARGA TRIBUTÁRIA
ARIAS: Nós temos países cuja carga tributária é de 12% do Produto Interno Bruto. É um índice absurdo, e não sabemos cobrar das classes realmente mais ricas o dinheiro devido.

LULA: Tem gente que vive reclamando da nossa carga tributária de 34% do PIB. Não imaginem um país com carga tributária fraca. Não tem país no mundo em que o Estado possa fazer alguma coisa que não tenha uma carga tributária razoável. Todos nós queremos pagar menos impostos e todos nós queremos melhores serviços, e é incompatível essa dádiva de Deus de menos impostos e mais serviços.

ORÇAMENTO/INVESTIMENTOS
ARIAS: Não é possível que a América Latina esteja gastando 50 bilhões de dólares com armas e soldados. Não faz sentido países desperdiçarem tanto dinheiro com despesas militares. Nossos inimigos reais são as carências do sistema educacional, o analfabetismo, a má saúde dos nossos povos, a falta de cuidados com a preservação ambiental, a falta de investimentos em infra-estrutura, a escassez de rodovias, portos e aeroportos, a desigualdade social vergonhosa.

LULA: Durante vinte anos, as Forças Armadas foram sucateadas, os equipamentos envelheceram. Isso precisa ser substituído, modernizado. (…) E se alguém resolver, por exemplo, invadir o pré-sal? (…) O Brasil, na década de 70, tinha empresas modernas, que produziam tanques, um monte de armas para as Forças Armadas. Isso foi desmontado, e nós queremos recuperar. (…) O que falta fazer de obra será feito pelo PAC. É o programa administrativo mais perfeito que já existiu neste país.

AMÉRICA LATINA E EUA
ARIAS: Não podemos culpar os Estados Unidos pelos nossos males passados, presentes e futuros. Alguma coisa os latino-americanos fizeram e continuam fazendo de errado.

LULA: Os Estados Unidos deveriam ter uma política mais pró-ativa para a América Latina. (…) Nunca antes neste país um presidente fez as coisas tão certas como eu estou fazendo.

Obama demorou quase um ano para descobrir que Lula era só mais um asterisco na História ─ e que Oscar Arias é um dos raros sinais de vida inteligente na América Latina. O noviço americano errou de cara. Quebrou a cara.

Friday, March 19, 2010

São ideológicos, por isso corrompem. Roberto Jefferson - Folha de São Paulo - 19/03/10


Roberto Jefferson – na Folha de São Paulo
Um dos traços constantes da vida brasileira é a coexistência de dois tipos heterogêneos e incomunicáveis de política: a “profissional”, cuja única finalidade é o acesso a cargos públicos para a conquista de benefícios pessoais ou grupais, e a socialista (ou “capitalismo burocrático-corporativo”, como define o sociólogo Fernando Henrique Cardoso), empenhada na conquista do poder total sobre a sociedade.
A segunda vale-se ocasionalmente dos instrumentos da primeira, mas, sobretudo, cria os seus próprios: os “movimentos sociais” (o adestramento de formidáveis massas militantes dispostas a tudo), a ocupação de espaços na administração federal e em áreas estrategicamente vitais e, por último, mas não menos importante, a conquista da hegemonia cultural.
As próximas eleições vão opor, numa disputa desigual, a política socialista à profissional. Esta emprega os meios usuais de propaganda, enquanto aquela utiliza todos os meios disponíveis (inclusive os heterodoxos).
O político profissional tem a seu favor somente os eleitores, que se manifestam a cada quatro anos e depois o esquecem, enquanto o socialista tem a vasta militância, pronta a matar e a morrer por quem personifica suas aspirações.
O voto, ainda que avassaladoramente majoritário, não afiança ninguém no poder. O que garante a supremacia é a massa organizada, disposta a apoiar o eleito todos os dias e por todos os meios. Vejam a situação da governadora do Rio Grande do Sul: quando a oposição se vangloriou de ter “varrido o PSDB do Estado gaúcho”, não percebeu que tentara expulsá-lo apenas de um cargo público.
O maior erro que as débeis oposições cometem é não saber enfrentar o modelo político socialista.
É de acentuar que a quase totalidade do empresariado nacional já foi cooptada e aceita naturalmente o petismo, que se adonou e faz uso do histórico caráter patriarcal do Estado brasileiro -sedimentado pela ditadura militar- em seu benefício.
O estatismo foi reconfigurado. É mais fácil controlar mecanismos reguladores (em todos os níveis) e instâncias de fomento e financiamento, que tornam reféns de seus interesses os capitães da indústria privada.
Na discussão orçamentária, os políticos profissionais preocupam-se apenas com emendas que podem fortalecê-los em suas bases, proporcionando-lhes benefícios particulares.
Nenhum deles confronta a tradição doutrinária de controle da máquina pública e do exercício do poder, delineada desde Maquiavel.
Seguidor de Lênin, Trótski, Stálin e Gramsci, o petismo, por meio de seu núcleo dominante, abriu mão da luta armada, mas não do objetivo revolucionário. E valem-se da União, a garantidora de empréstimos a municípios e Estados. É o clientelismo, dos quais são porta-vozes os políticos de todos os partidos, que, assim, jogam pelas regras estabelecidas por aqueles que detêm o poder decisório.
A eventual saída do PT da Presidência, porém, não mudará esse quadro. Porque os aparatos administrativo-arrecadadores (Receita Federal, INSS) e fiscalizadores senso estrito (policial e judicial), além da órbita cultural, foram aparelhados.
O PT detém controle também sobre os sindicatos, o funcionalismo público, o aparato repressivo (MPF e PF, usados para destruir seus inimigos, fazendo terrorismo e chantagem política), os estudantes, os camponeses, a igreja, a intelectualidade artística, universitária e jurídica.
Se eleito, portanto, José Serra vai comandar uma máquina estatal dominada por adversários, muitos deles indicados para atuar em tribunais superiores. Sem esquecer o MST, que mantém acampamentos ao longo das principais rodovias (e pode, a qualquer momento, paralisar o país).
No Brasil, hoje, não há mais escândalos. Ficam uma semana nos jornais e na TV, depois ninguém mais se lembra deles. Não produzem consequências judiciais, porque o sistema é pesado e dominado por uma processualística interminável, da qual decorre a impunidade. O caso do mensalão é emblemático.
O PT deu caráter rotineiro a tudo isso na vida brasileira. As oligarquias aliaram-se ao partido pensando que iriam dominá-lo, mas se deu o contrário, porque elas não têm projeto.
O PT, contudo, tem, e o põe em prática planejadamente, sistematicamente, em todos os níveis. Segue a lógica da revolução, quer construir o socialismo (quem sabe à maneira de Fidel, que Lula e sua turma tanto incensam?). Os petistas acreditam nisso.
Não são apenas corruptos, são ideológicos e, por isso, corrompem. E, no processo de destruição, vale tudo.
Para combater a hidra, é preciso conhecê-la, armar-se e propor um projeto diferente de país. Não se enfrentam tanques com bodoques, mas com mísseis. E, se vierem mísseis em represália, joga-se a bomba atômica.
Quem vai fazer isso?
ROBERTO JEFFERSON , 56, advogado, é presidente nacional do PTB.

Monday, December 28, 2009

A falta que faz um Sobral Pinto - Blog do Augusto Nunes - Momentos de 2009

Publicado em 22 de maio

Preferi poupar o pessoal da coluna da leitura de meia dúzia de comentários, todos extraordinariamente torpes, sobre o texto que tratou do caso Suzane Von Richthofen. O pai morto a pauladas a mando da filha é acusado de assediá-la sexualmente, obrigá-la a depositar dinheiro em contas ilegais na Suiça, transformar o local de trabalho num balcão de delinquências, daí para baixo. O que os advogados de defesa de Suzane murmuram, os comentaristas de aluguel berram. Uns e outros estão interessados não na verdade, mas no dinheiro da herdeira homicida.

Depois de registrar que a lei que vai tirar Suzane da cadeia vale para todos, e antes de massacrar a memória do engenheiro executado junto com a mulher, uma remetente pergunta: ” O que você propõe, meu querido?”. É uma jovem advogada, informam o dialeto data venia e as expressões que usa. (Entre 100 doutoras recém-formadas, 99 chamam desconhecidos de “meu querido”). Proponho que se mire no exemplo de juristas que sempre combateram leis absurdas, minha querida. E tente saber alguma coisa sobre figuras como o doutor Heráclito Fontoura Sobral Pinto.

Sobral Pinto e o poeta Augusto Frederico Schmidt eram amigos de muitos anos quando conversaram por telefone em 16 de outubro de 1944. Schmidt, além de versos, sabia também fazer dinheiro como editor, intermediário de transações financeiras e ocupante de cargos públicos. (Segundo a história oral, é ele o poeta federal que tira ouro do nariz no poema de Carlos Drummond de Andrade). Naquele outubro, quem ligou foi o empresário Schmidt, para pedir ao advogado que reservasse todo o dia 20 a um só compromisso: examinar a vasta documentação que lhe permitiria representá-lo numa causa de natureza trabalhista.

Sobral Pinto informou que, antes de aceitar a proposta, teria de verificar se o candidato a cliente tinha razão. Advogado não é juiz, replicou Schmidt. Ouviu outra vez que o convite só seria aceito depois do exame eliminatório. Como tudo teria de ser feito até o dia 21, Sobral Pinto sugeriu que Schmidt contratasse outro advogado. A conversa não deve ter terminado bem, atesta a carta remetida pelo jurista na manhã seguinte. Roberto Sobral Pinto Ribeiro, neto da figura admirável, enviou cópia da carta ao colunista. É uma luminosa aula de Direito. É uma lição de vida irretocável.

”O primeiro e mais fundamental dever do advogado é ser o juiz inicial da casa que lhe levam para patrocinar”, ensina certa altura. “Incumbe-lhe, antes de tudo, examinar minuciosamente a hipótese para ver se ela é realmente defensável em face dos preceitos da justiça. Só depois de que eu me convenço de que a justiça está com a parte que me procura é que me ponho à sua disposição”. A regra vale também para velhos amigos? Claro que sim: ”Não seria a primeira vez que, procurado por um amigo para patrocinar a causa que me trazia, tive de dizer-lhe que a justiça não estava do seu lado, pelo que não me era lícito defender seus interesses”.

Outros trechos ensinam a proteger os códigos éticos da profissão de socos e pontapés hoje desferidos tão rotineiramente: ”A advocacia não se destina à defesa de quaisquer interesses. Não basta a amizade ou honorários de vulto para que um advogado se sinta justificado diante de sua consciência pelo patrocínio de uma causa. (…) O advogado não é, assim, um técnico às ordens desta ou daquela pessoa que se dispõe a comparecer à Justiça. (…) O advogado é, necessariamente, uma consciência escrupulosa ao serviço tão só dos interesses da justiça, incumbindo-lhe, por isto, aconselhar àquelas partes que o procuram a que não discutam aqueles casos nos quais não lhes assiste nenhuma razão”.

A aula termina com palavras que deveriam ser reproduzidas em bronze nos pórticos e auditórios das faculdades de Direito: ”É indispensável que os clientes procurem o advogado de suas preferências como um homem de bem a quem se vai pedir conselho. (…) Orientada neste sentido, a advocacia é, nos países moralizados, um elemento de ordem e um dos mais eficientes instrumentos de realização do bem comum da sociedade’.’

Defensores de gente como Suzane Von Richthofen nunca souberam disso. Pelo que andam fazendo nestes tempos tristonhos, poucos advogados sabem.

Tuesday, November 10, 2009

Anotações para uma reedição da história universal da infâmia - Blog do Augusto Nunes - 10/11/09

SEÇÃO » Direto ao Ponto
10 de novembro de 2009


Em novembro de 1984, por não enxergar diferenças entre Paulo Maluf e Tancredo Neves, o Partido dos Trabalhadores optou pela abstenção no Colégio Eleitoral que escolheria o primeiro presidente civil depois do ciclo dos generais. Em janeiro de 1985, por entenderem que não se tratava de um confronto entre iguais, três parlamentares do PT ─ Airton Soares, José Eudes e Bete Mendes ─ votaram em Tancredo. Foram expulsos pela direção.

Em 1988, num discurso em Aracaju, o deputado federal Luiz Inácio Lula da Silva qualificou o presidente José Sarney de “o grande ladrão da Nova República”. No mesmo ano, a bancada do PT na Constituinte rejeitou o texto da nova Constituição.

Em 1989, derrotados no primeiro turno da eleição presidencial, Ulysses Guimarães, candidato do PMDB, e Mário Covas, do PSDB, declararam que ficariam ao lado de Lula na batalha final contra Fernando Collor. Imediatamente recusado, o apoio acabou aceito por insistência dos parceiros repudiados. Num comício em frente do estádio do Pacaembu, Ulysses e Covas apareceram no palanque ao lado do candidato do PT. Foram vaiados pela plateia companheira.

Em 1993, a ex-prefeita Luiza Erundina, uma das fundadoras do partido, aceitou o convite do presidente Itamar Franco para assumir o comando de um ministério. Foi expulsa. Em 1994, ainda no governo de Itamar Franco, os parlamentares do PT lutaram com ferocidade para impedir a aprovação do Plano Real. No mesmo ano, transformaram a revogação da providencial mudança de rota na economia numa das bandeiras da campanha presidencial.

Entre o começo de janeiro de 1995 e o fim de dezembro de 2002, a bancada do PT votou contra todos os projetos, medidas e ideias encaminhados ao Legislativo pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Todos, sem exceção. Uma das propostas mais intensamente combatidas foi a que instituiu a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em janeiro de 1999, mal iniciado o segundo mandato de Fernando Henrique, o deputado Tarso Genro, em nome do PT, propôs a deposição do presidente reeleito e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. O lançamento da campanha com o mote “Fora FHC!” foi justificado por acusações, desacompanhadas de provas, que Tarso enfeixou num artigo publicado pela Folha de S. Paulo. Trecho: Hoje, acrescento que o presidente está pessoalmente responsabilizado por amparar um grupo fora da lei, que controla as finanças do Estado e subordina o trabalho e o capital do país ao enriquecimento ilegítimo de uns poucos. Alguns bancos lucraram em janeiro (evidentemente, por ter informações privilegiadas) US$ 1,3 bilhão, valor que não lucraram em todo o ano passado!

O que diriam Tarso, Lula e o resto da companheirada se tal acusação, perfeitamente aplicável ao atual chefe de governo, fosse subscrita por alguém do PSDB, do DEM ou do PPS? Coisa de traidor da pátria, inimigo da nação, gente que aposta no quanto pior, melhor, estariam berrando todos. “Tem gente que torce pra que tudo dê errado”, retomaria Lula a ladainha entoada há quase sete anos.

Faz sentido. Desde a ressurreição da democracia brasileira, a ação do PT oposicionista foi permanentemente orientada por sentimentos menores, miúdos, mesquinhos. É compreensível que os Altos Companheiros acreditem que todos os políticos são movidos pelo mesmo combustível de baixíssima qualidade.

Desfigurado pela metamorfose nauseante, o chefe de governo não teria sossego se o intratável chefe da oposição ainda existisse. O condutor do rebanho não tem semelhanças com o Lula do século passado, mas continua ouvindo o som dos balidos aprovadores. O caçador de gatunos hoje é padroeiro da quadrilha federal. O parlamentar que recusou a conciliação proposta por Tancredo é o presidente que se reconcilia com qualquer abjeção desfrutável. O moralizador da República presidiu e abafou o escândalo incomparável do mensalão.

Mas não admite sequer criticas formuladas sem aspereza pelo antecessor que atacava com virulência. É inveja, Lula deu de gritar agora. O espelho reflete o contrário. Nenhum homem culto prefere ser ignorante, nenhum homem educado sonha com a grosseria, gente honrada não quer conversa com delinquentes.

Lula não esquece que foi derrotado por FHC duas vezes, ambas no primeiro turno. E sabe que o vencedor nunca inveja o vencido.

Monday, November 09, 2009

Vinte anos depois - Nelson Ascher - www.dicta.com.br

Arquivado em: História incluído por dicta
Data do post: 9 de novembro de 2009
Tags: Muro de Berlim

por Nelson Ascher

Há várias maneiras de abordar os eventos de 1989, que entraram para a história como a queda do Muro de Berlim. Para começar, junto com o desmantelamento, dois anos depois, da União Soviética, eles representam o fim da Guerra Fria, o conflito que, depois da Segunda Guerra Mundial e por quase meio século, dividiu o planeta em dois blocos antagônicos. Eles apresentaram também, para quem tivesse a mente e os olhos abertos, os resultados do maior experimento de engenharia social realizado não com ratinhos de laboratório, mas com gente de verdade. Quando acompanhados de perto, eles pertencem ademais à história de cada nação, de cada uma das sociedades envolvidas. Abordados sob esses variados ângulos, os fatos nos oferecem lições diversas e complementares, um autêntico leque de narrativas que têm em comum, todas elas, a ausência de um final feliz.

A Guerra Fria, como se sabe, foi mais do que um simples embate entre dois blocos em busca da hegemonia. Desde o começo, talvez com mais cinismo entre as lideranças e com mais sinceridade e empenho entre os militantes, ela representou o conflito não só de duas visões de mundo ou de duas formas de organização sócio-política. Ela contrapôs, isto sim, duas concepções da própria natureza humana. Embora –graças a uma espécie consensual de amnésia– elas continuem existindo e se digladiando quase como se todas aquelas décadas não tivessem existido nem produzido resultados concretos, a vantagem de sua competição aberta foi justamente a de propiciar uma comparação visível e mensurável de ambas. Isto se deu porque, desde sua imposição na Rússia e, em seguida, nos países vizinhos, os partidários da engenharia social, isto é, os comunistas, fizeram previsões e promessas verificáveis a olho nu.

O adversário que, recorrendo a um termo duvidoso, reducionista e uniformizador da heterogeneidade, chamavam de capitalismo estava fadado a se autodestruir por meio de uma sequência acelerada de crises cada vez mais graves. Já o comunismo, livre de contradições internas por ter reorganizado as forças produtivas numa base racional, assegurava, se mais nada, pelo menos uma fartura material bem distribuída. Uma vez feitas, era impossível impedir que tais previsões e promessas fossem constantemente monitoradas e, quanto mais, em termos de abastança ou afluência, os países capitalistas deixavam as nações socialistas para trás, mais o comunismo se desmoralizava aos olhos de seus súditos e menos atraente ele se mostrava no mundo desenvolvido. Os resultados comparativos do milagre econômico na Europa Ocidental patentearam aos poucos, salvo para os militantes mais cegos, que o que mantinha o comunismo no poder na outra metade do continente não era qualquer opção ideológica da população, mas simplesmente os tanques soviéticos. Entre regimes que propiciavam o enriquecimento progressivo de seus cidadãos e aqueles que mal conseguiam nutrir seus súditos, não havia ideologia capaz de justificar estes últimos.

Sabe-se hoje que, durante suas décadas finais (um pouco esticadas, aliás, pela alta do petróleo que, a partir de 1973, beneficiou a Rússia), a URSS via, como possível salvação, mesmo que provisória, a incorporação, sob a forma de satélite, da Europa Ocidental a seu bloco. Foram as iniciativas defensivas de Ronald Reagan e Margareth Thatcher que tornaram essas hipóteses inviáveis e, obrigando seus rivais a aumentarem desmesuradamente seus gastos militares, culminaram com a bancarrota pacífica do sistema soviético.

Quanto aos habitantes de países como a Polônia, Hungria, Romênia, Tchecoslováquia etc., o sistema em questão, além de um tipo particularmente insuportável de opressão do indivíduo pelo estado, significou também o esmagamento de suas aspirações nacionais. Apesar de suas diferentes trajetórias mais antigas, cada qual desses países era, em 1945, uma nação relativamente nova. A Polônia que, associada à Lituânia, fora um importante reino medieval e desempenhara inclusive um papel destacado tanto na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) quanto na defesa da cristandade contra o invasor otomano, desagregara-se no final do século XVIII, quando se deu sua partilha e seus territórios foram incorporados à Rússia, Prússia e à Áustria. Foi somente após a Primeira Guerra (1914-18) que ela reapareceu como entidade unitária e independente no mapa.

Data dessa mesma época a criação seja da Tchecoslováquia, seja da Iugoslávia, ambos países multiétnicos e multilinguísticos, formados ao redor de reinos que remontavam à Idade Média: respectivamente a Boêmia e a Sérvia. No que diz respeito a ambos, o mosaico de nacionalidades que viviam desconfortavelmente juntas revelou cedo, já no entreguerras, sua inviabilidade, a qual se confirmaria com sua dissolução nos anos 90. Outras tantas tensões internas e externas marcaram a primeira tentativa de vida independente desses países. O que eles têm em comum é o fato de, situados geograficamente entre a Alemanha e a URSS, todos terem sido, de uma forma ou de outra, envolvidos na Segunda Guerra que, em seus territórios, mostrou-se muito mais selvagem e destrutiva do que na Europa Ocidental. Tal envolvimento, porém, não foi uniforme. Invadi da quase concomitantemente pela Alemanha nazista e pela URSS em 1939, a Polônia lutou contra as duas até o fim, e perdeu 20% de sua população (3 milhões de poloneses cristãos e 3 milhões de judeus). A Tchecoslováquia e a Iugoslávia se dividiram em partes diversas, algumas das quais resistiram aos alemães e outras que colaboraram com eles. A Hungria, a Romênia e a Bulgária, cada qual em maior ou menor medida, colaboraram com o 3º Reich, e o mesmo vale para parcelas significativas da população dos países bálticos.

Embora isso pareça história antiga, a verdade é que, congelando as contradições e conflitos internos desses países, o comunismo contribuiu decisivamente para que, uma vez independentes, eles retomassem suas histórias individuais do ponto onde elas foram interrompidas. Assim, eles ressurgiram em 1989 muito mais etnicamente divididos do que seus vizinhos ocidentais e com muito mais contas a acertar com a história. O caso mais grave, sem dúvida, foi o da Iugoslávia. Embora se reconheça atualmente que o principal agente de sua guerra civil nos anos 90 foi o nacionalismo sérvio manipulado por oportunistas e demagogos como Milosevic, não há razão alguma para inocentar o nacionalismo croata, nem se pode negar que os muçulmanos relativamente laicos e seculares da Bósnia aceitaram de bom-grado o apoio e a intervenção direta de fundamentalistas que ligaram, assim, aquele conflito localizado à nova conflagração global.

Vale a pena igualmente observar que os estragos decorrentes de décadas de comunismo se revelaram mais profundos e duradouros do que se esperava. Imaginava-se, em 1989, que, capitaneados pela metade oriental da Alemanha e apoiados pela (ainda então) Comunidade Européia, os ex-países socialistas logo se emparelhariam com o resto do continente. Se é verdade que o nível de vida ali melhorou substancialmente, ele segue longe do que vigora no mundo desenvolvido e, devido à relativa fragilidade das respectivas economias, nada indica que alguém nascido ainda no comunismo viva para presenciar grandes avanços. Toda a infraestrutura daquelas nações também estava tão degradada que, em muitos casos, teve que ser reconstruída do zero, tarefa que está longe de concluída. De resto, o modo de vida imposto pelo regime de partido único e a desarticulação de qualquer núcleo de sociedade civil garantiram que, quando os cidadãos recomeçassem a se organizar por conta própria, muitos o fariam segundo moldes que, em outros lugares, seriam considerados arcaicos e falidos. Há, portanto, em toda região uma pluralidade de grupos, partidos e até de milícias de extrema direita que, por seu caráter nacionalista e/ou clericalista e/ou abertamente racista (anti-cigano e antissemita), assemelham-se ao que se podia encontrar no continente 70/80 anos atrás. Não se deve tampouco omitir que, quando sem programa nem planejamento, as economias locais mais ou menos adotaram o livre mercado, os indivíduos mais bem colocados para se beneficiarem disso foram justamente os membros do antigo partido reinante. Há, consequentemente, uma coincidência entre as velhas e as novas elites bem como uma continuidade da corrupção, fatores que têm perpetuado e mesmo acentuado o cinismo do homem comum.

Nada disso, porém, significa que a situação atual não seja visivelmente superior à que prevalecia anteriormente. Na pior das hipóteses, tchecos ou eslovenos, romenos ou poloneses podem fazer as malas, vender a mobília e mudar de país, algo que lhes era proibido no antigo regime. Para os que se habituaram às fronteiras abertas, assim como para a maioria dos habitantes de um mundo caracterizado por fluxos migratórios cada vez maiores e mais intensos, isso talvez pareça um detalhe pouco significativo. Este era, no entanto, a marca registrada do sistema comunista que via –e tratava—os indivíduos como propriedade privada do estado, ou seja, do Partido, ou seja, do autocrata ou do grupúsculo de burocratas que se agregavam no Comitê Central. Para todos os efeitos –algo se constata ainda hoje em Cuba ou na Coréia do Norte—o sistema soviético não foi nem mais nem menos do que a plena reinstauração da escravatura, e nada o demonstra melhor do que o seguinte fato: a forma mais óbvia e generalizada de discordância, insatisfação e ou oposição ao regime era, não a atividade de intelectuais e dissidentes, mas a simples vontade, não raro desesperada, de emigrar, ou melhor, fugir dali. Muitos morreram tentando fazê-lo, e outros tantos amargaram anos de cadeia ou em campos de prisioneiros. Como Berlim estava dividida em duas metades, uma pertencente à Alemanha Ocidental, outra à Alemanha Oriental, ela passou a simbolizar a própria divisão do continente –e do planeta—em dois blocos definidos, afinal, menos pela oposição entre liberdade e tirania do que pela diferença entre afluência e penúria material. E foi lá que se construiu o igualmente simbólico muro cujo objetivo era não impedir uma invasão, mas, sim, bloquear a evasão, a fuga de gente que, reduzida à escravidão e privada de seus principais direitos, pertencia ao estado e ao Partido. Quanto à Iugoslávia, trata-se de um caso à parte que não é, porém, como os nostálgicos supõe, decorrência do fim do comunismo. Pelo contrário. Os elementos da guerra civil interétnica, interconfessional e intercomunitária estavam presentes desde a formação do país e já tinham se manifestado abertamente durante o conflito de 1939-45. Que, durante os mais de 40 anos que perdurou o regime da partido único, sua violência potencial não se atenuasse nem eles tivessem sido equacionados e muito menos resolvidos, é outra prova da ineficiência estrutural (e não apenas econômica) do comunismo realmente existente.

Toda uma geração cresceu e chegou à idade adulta desde 1989, e tanto os acontecimentos daquele ano quanto as esperanças que despertaram parecem extremamente remotas. Não é difícil, contudo, entender o que, naquele momento, provocou um otimismo até desmesurado. A Guerra Fria havia perdurado por quase meio século e fora travada, no mundo inteiro, entre os mais diversos países e mesmo no interior de muitos. Cada qual desses conflitos tinha raízes e motivos próprios, mas o fato de se desenrolarem no contexto de uma conflagração maior criou a ilusão de que, uma vez que esta terminasse, nada mais havia nem haveria de suficientemente grave para contrapor populações e desencadear guerras. Inspirada também na unificação de um continente –o europeu— cuja desunião deflagrara duas guerras mundiais, essa visão otimista acreditava na iminência da paz universal e depositava suas esperanças em instituições multilaterais e organismos transnacionais. Prevalecendo, à sua maneira, em parte substancial do mundo desenvolvido, sobretudo na Europa ocidental, tal otimismo impede seus adeptos de levarem a sério ameaças como a do jihadismo ou fundamentalismo islâmico e do neopopulismo autoritário de esquerda que se afirma na América Latina. O curioso é que, tendo se esquecido das origens de seu otimismo na derrota da tirania comunista, os otimistas fazem agora causa comum com os derrotados de 1989, aqueles que não tomaram o desmoronamento do bloco soviético como uma refutação de suas crenças. Talvez seja justamente por causa dessa estranha aliança que, embora até haja alguma celebração, fala-se tão pouco sobre/e se investiga menos ainda o sistema que ruiu junto com o Muro de Berlim.



Nelson Ascher é poeta, jornalista e tradutor.

Tuesday, November 03, 2009

Lula não viu - Miriam Leitão - O Globo - 03/11/09

Panorama Econômico

O presidente Lula viajou durante três dias pelas obras da transposição do Rio São Francisco. O que ele não viu? Que do total de um milhão de hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) no rio, 700 mil estão degradados. A recuperação mal começou. É preciso plantar 27 milhões de mudas por ano, o Ministério da Integração prevê 1,5 milhão, 5% do necessário, mas só 200 mil estão sendo produzidas.

Conversamos com quem está trabalhando para a proteção do rio. É um desconsolo.

O que Lula não viu foi a vasta tarefa ambiental que precisa ser feita para recuperálo e protegê-lo dos impactos da obra de transposição.

As APPs — que são alto de morro, beira de rio, entorno de nascente, encostas — do São Francisco chegam a 1 milhão de hectares porque o rio é imenso e há muito tempo está mal tratado.

Dos 700 mil hectares que precisam de recuperação, metade pode ser cercada para que a vegetação nativa se recupere naturalmente, mas a outra metade exige plantio de 27 milhões de mudas por ano, de acordo com o Plano Integrado de Desenvolvimento Florestal Sustentável do São Francisco, estudo feito pela Universidade Federal de Lavras, a pedido do próprio governo.

O projeto que está sendo executado pelo Ministério da Integração Nacional prevê a produção anual de apenas 1,5 milhão de mudas, pouco mais de 5% do que seria necessário. Isso é o que está no site, porque se existe uma tarefa difícil é tirar do governo o que está sendo feito para proteger o rio. O Ministério da Integração mandou um texto no mais puro burocratês. A Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) pediu as perguntas por escrito na quarta, mandou a resposta no domingo, num claro corte e cola de documento velho. Não há uma resposta compreensível.

Para o Ibama ligamos durante uma semana inteira.

Já os pesquisadores das universidades de Lavras e do Vale do São Francisco conversaram conosco. Eles acham que o número de mudas previsto no projeto do governo é insuficiente e não está sendo atingido. Estariam sendo produzidas não mais que 200 mil, menos de 1% do que precisa ser feito.

O coordenador do Centro de Referência em Recuperação de Áreas Degradadas do Alto do São Francisco, Antonio Claudio Davide, ligado à Universidade de Lavras, percorreu de helicóptero mais de 1.500 quilômetros de extensão do rio para medir a degradação e planejar o projeto de recuperação.

— Gostaria de saber onde estão esses um milhão e meio de mudas, que já seriam muito insuficientes.

Aqui no centro, estamos produzindo 70 mil mudas, que dariam para plantar cerca de 35 a 40 hectares. Precisamos cobrir 350 mil hectares! O fato é que não existe no governo a consciência da importância da recuperação dessas áreas. E sem replantio, não dá para falar na recuperação do São Francisco — explicou Davide.

Os números são tão imensos quanto a dimensão do Velho Chico: de acordo com o plano feito pela Universidade de Lavras, é preciso investir R$ 4,7 bilhões em 18 anos, somente para reflorestamento.

São R$ 2,37 bilhões para produção e plantio de mudas; R$ 1,8 bilhão para cercar áreas onde haverá regeneração natural; e o restante em infraestrutura, estudos, contratação de pessoal, treinamento. Um gasto anual de R$ 261 milhões, de 2008 a 2025.

Na avaliação de Davide, o projeto de recuperação das APPs está andando em “velocidade de carroça”. Há baixa produção de mudas; resistência de produtores rurais, que querem usar todas as áreas para agropecuária; falta de profissionais qualificados; e pior, as liberações de recursos não têm regularidade. Tem hora que o dinheiro sai, tem hora que não sai.

— O orçamento anual do meu centro é de R$ 350 mil.

Em 2008, o dinheiro veio, mas em 2009 ainda não recebi nada. O ano está perdido.

Agora em novembro, receberei R$ 200 mil, mas é para financiar o trabalho dos próximos sete meses.

Perdi mais da metade da minha equipe e agora terei que recontratar e treinar todo mundo — afirmou.

Enquanto o projeto de recuperação está nesse ritmo, as obras de transposição são exibidas como troféu de campanha eleitoral. De acordo com o 8º Balanço do PAC, de outubro de 2009, as obras do eixo Leste estão 16% concluídas e as do eixo Norte, 13,7%.

Para o coordenador do Programa de Conservação da Fauna e Flora da Universidade Federal do Vale do São Francisco, José Alves, não há garantias de que o projeto de recuperação será feito de forma correta, antes e após a conclusão das obras de transposição do rio: — Estamos trabalhando de forma isolada e os custos e os desafios da recuperação são muito grandes.

Não há continuidade nos repasses por parte do governo federal. É preciso fazer um inventário de toda a fauna e flora, e isso tem que ser feito agora. Coletar espécies raras que só existem no local, aprender a fazer a produção e o plantio das mudas, como armazenar as sementes. Do jeito que está, não temos nenhuma garantia de que depois da transposição, o projeto de recuperação será executado de forma correta — disse Alves, que coordena os estudos sobre a flora.

Isso é só para fazer uma parte do projeto de revitalização: a recuperação da vegetação. Não ocorre lá o que estava na carta de Pero Vaz: “Em se plantando, tudo dá.” É preciso fazer as mudas das espécies certas, esperar crescer, plantar na hora certa, torcer para que as chuvas venham, contar as perdas, proteger as que se firmarem. Tudo numa vasta extensão de um rio que atravessa cinco estados.

Muito precisava ser visto e feito. Abrir dois canais com a força do Exército brasileiro é a parte mais fácil.

Monday, November 02, 2009

Para onde vamos? - FHC - www.estadao.com.br de 01/11/09

Para onde vamos?

Fernando Henrique Cardoso

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio "talvez" porque alguns estão de tal modo inebriados com "o maior espetáculo da Terra", de riqueza fácil que beneficia poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?

Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advém do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarzinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm que ver com nossos ideais democráticos.

É possível escolher ao acaso os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira "nacionalista", pois, se o sistema atual, de concessões, fosse "entreguista", deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares, se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem nenhum pudor, passear pelo Brasil à custa do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?

Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do "autoritarismo popular" vai minando o espírito da democracia constitucional. Esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os "projetos de impacto" (alguns dos quais viraram "esqueletos", quer dizer, obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: "Brasil, ame-o ou deixe-o." Em pauta temos a Transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no Orçamento e mínguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo Tribunal de Contas da União. Não importa, no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: "Minha Casa, Minha Vida"; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.

Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo "Brasil potência". Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU - contra a letra expressa da Constituição - vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que se tenha esquecido de acrescentar: "L"État c"est moi." Mas não se esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender o "nosso pré-sal". Está bem, tudo muito lógico.

Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no "dedaço" que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são "estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.

Ora, dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil os fundos de pensão não são apenas acionistas - com a liberdade de vender e comprar em bolsas -, mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou "privatizadas". Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo, antes que seja tarde.

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República

Monday, October 26, 2009

O ensino da matemática através dos anos - Site www.prosaepolitica.com.br

O ensino da matemática através dos anos

Publicado por Adriana Vandoni em 25/10/2009 às 09:13 hs. Acompanhe as respostas pelo RSS 2.0.

Por Ralph J. Hofmann

O estudo abaixo é inspirado numa Lenda Urbana inglesa.

1. O ensino da matemática em 1970

Um madeireiro vende um metro cúbico de madeira por R$ 1.000.

Seu custo de produção é 4/5 do preço.

Qual é o lucro?

2. O ensino da matemática em 1980

Um madeireiro vende um metro cúbico de madeira por R$ 1.000.

Seu custo de produção é 80% do preço.

Qual é o lucro?

3. O ensino da matemática em 1990

Um madeireiro vende um metro cúbico de madeira por R$ 1.000.

Seu custo de produção é R$ 800.

Qual é o lucro?

4. O ensino da matemática em 2000

Um madeireiro vende um metro cúbico de madeira por R$ 1.000.

Seu custo de produção é R$ 800 e seu lucro R$ 200.

Você deve sublinhar o número 200.

5. O ensino da matemática em 2003.

Um madeireiro desalmado corta uma linda floresta porque é egoísta e não dá a mínima para os animais ou a preservação da natureza. Você deve discutir como os animais silvestres devem se sentir lesados ao verem seu habitat sumir para que o madeireiro egoísta ganhe míseros R$ 200.

6. O ensino da matemática em 2006

Um madeireiro procura as autoridades para pedir autorização para desbastar um reflorestamento que plantou há 20 anos. Imediatamente as autoridades visitam sua propriedade e descobrem uma motoserra que não está registrada, adquirida pelo pai do madeireiro em 1970. Multam o madeireiro em R$ 10.000, e o levam preso pela presunção de pretender cometer crime inafiançável.

Pergunta: 1) Como dividir a multa entre o fiscal, seu supervisor e a direção do órgão fiscalizador; 2) Sugerir a pena a ser aplicada ao infrator.

7. Ensino da matemática em 2009

Um madeireiro procura as autoridades para pedir autorização para fazer um desbaste em sua floresta plantada há 20 anos. A autoridade local indica que deve ir a Brasília fazer o requerimento pessoalmente. Na sua ausência a propriedade é invadida pelo MST que corta todas as árvores e as vende para a serraria mais próxima.

Perguntas: 1) Que multa deve ser aplicada ao madeireiro por ter deixado derrubar a floresta. 2) O MST deve ocupar a terra e plantar lavouras, criar gado, ou deixar que o madeireiro volte, plante uma nova floresta para invadir o terreno novamente dentro de 20 anos.

8. Ensino de matemática em 2020.

Repita el problema de dos mil y nueve pero haga las respuestas en el dialecto oficial de las Republicas Bolivarianas.

Arquivos que podem estar relacionados:

1. Maioria dos parlamentares é contra o aborto
2. Ainda sobre o Dia dos Médicos
3. A caravana dos farsantes
4. Responsabilidade dos políticos
5. O pai dos Cubanos

Friday, August 14, 2009

Whose side is Brazil on? - Revista The Economist - 13/08/09



Aug 13th 2009
From The Economist print edition
Time for Lula to stand up for democracy rather than embrace autocrats

AP

THIS is a grand time to be a Brazilian, and especially to be Luiz Inácio Lula da Silva, the country’s inspirational president. Long the chronically underperforming giant of Latin America, Brazil is now on every list of the half-dozen or so new places that matter in the 21st century. It seems that no international gathering, be it to discuss financial reform or climate change, is complete without Lula, a former metal worker and trade-union leader whose bonhomie and instinct for conciliation between political opposites make him friends everywhere. “He’s my man,” gushed Barack Obama at the G20 summit in London; Fidel Castro calls him “our brother Lula”.

Brazil’s new prominence is deserved. It stems in large part from the success of Lula and his predecessor, Fernando Henrique Cardoso, in stabilising a previously dysfunctional economy, ushering in faster economic growth. Already one of the ten biggest economies, it was one of the last of them to enter recession and now looks like being one of the first to leave it. When Goldman Sachs bracketed it with China, India and Russia as the BRIC economies and said they would dominate the world by 2050, there was much sniffing that Brazil did not belong in such muscular company. Certainly the BRIC tag has done Brazil a marketing favour. But it is now Russia, with its depressed, oil-dependent economy, that looks like the misfit.

Lula, too, deserves much of the praise heaped upon him. On taking office in 2003, he showed political courage in sticking to responsible economic policies, ignoring calls from his left-wing Workers’ Party to default on debt. His instinct for rational economics has turned him from a protectionist into a champion of free trade. His ambitious social policies have helped to lift 13m Brazilians out of poverty; searing inequalities of income are narrowing steadily. Despite almost supernatural popularity ratings, he has wisely rejected talk of changing the constitution to run for a third term.

Success at home has given oxygen to the vaulting ambition of Lula’s foreign policy. His Brazil wants to be seen as a great power by setting itself up as the leader of a united Latin America while also seeking new alliances with other rising powers of the global “south”. Thanks to Lula’s ability to be all things to all men, thus far Brazil has achieved influence without being weighed down by responsibility. But look more closely and he risks bequeathing a disappointingly ambivalent legacy. Above all, Brazil needs to decide what it stands for and who its real friends are—or risk that others make that choice for it.
Southern successes and discomforts

Though history has also given it kinship with Africa, whence millions were brought as slaves, Brazil is at first sight the most “Western” of the BRICs. Unlike China or Russia, it is a democracy in a mainly democratic region. But Brazil’s leaders have often preferred to see their country as a “southern” power, a leader of the developing world. Under Lula, this bias has hardened. In some ways this is healthy. Lula is right to call for the world’s institutions to be reshaped to reflect a changing balance of power. Brazil’s exports have found new markets in Asia, Africa and the Middle East. But what really unites these countries? To Brazil’s chagrin, China helped block its bid for a permanent seat on the United Nations Security Council, while India did much to stop a world-trade deal. And the southern bias has gone hand-in-hand with more negative traits.

Admirably for a would-be great power, Brazil has renounced nuclear weapons. Less admirably for a country which defends the Nuclear Non-Proliferation Treaty, it has refused to sign an improved safeguards protocol, denying international inspectors full access to its civilian nuclear facilities.

Lula’s government also shows a puzzling disregard for democracy and human rights beyond Brazil’s borders. Celso Amorim, his foreign minister, argues that condemnations by rich countries of abuses in poor ones are biased and ineffective. Human-rights groups complain that at the UN Brazil aligns itself with countries like China and Cuba to protect abusive regimes. Lula congratulated Mahmoud Ahmadinejad on his victory in Iran’s deeply flawed election, comparing massive opposition protests to those of football fans whose side has lost. Mr Ahmadinejad’s first post-inauguration foreign trip will be to Brasília. Mr Obama has asked Lula to “use his influence” to persuade his guest to curb his suspect nuclear work. If Brazil takes up a rotating seat at the UN Security Council next January, it may have to choose whether to back tougher sanctions against Iran.
No triangulation between democrats and autocrats

In many of these stances there is a tacit streak of anti-Americanism. This is costliest for Brazil in Latin America. Yanqui influence there is in relative decline, while the sway of China and others is growing (see article). If there are now fears of a “new cold war” in the region, as some in Brazil worry, the man who threatens to start it is not Mr Obama but one of Lula’s dodgiest friends, Venezuela’s Hugo Chávez.

Yes, Mr Chávez is elected, but he shows ever-fewer signs of being prepared to relinquish power at the ballot box and constantly stirs up tensions in the region. It was fear that Honduras’s president was turning his country into the latest chavista domino that prompted the misguided coup there in June. Now Mr Chávez threatens war against Colombia because it is updating an agreement under which it grants facilities at military bases to the United States, which is helping it fight FARC guerrillas and other drug traffickers. Only the paranoid can construe this as a threat to Venezuela or the Amazon. Yet Brazil chose to express concern about the bases while remaining silent about Mr Chávez’s arms build-up and clear evidence that his people have sold weapons to the FARC (see article).

Nobody should expect Brazil to act as America’s sheriff. But it is in its own interest to prevent a new cold war in the region. The way to do so is not to equivocate between democrats and autocrats, as Lula seems to think. It is to shame Mr Chávez by drawing a clear, public line in favour of democracy—the system that allowed a poor lathe-operator to come to power and change Brazil. Why should other countries deserve less?