Thursday, February 28, 2008

Lula e o revanchismo triunfalista - Blog do Reinaldo Azevedo - 28/02/08

FHC respondeu ontem, comento no post das 2h29 desta madrugada, às boçalidades que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva andou lhe dirigindo. Não são poucos os tucanos que acham que o ex-presidente poderia se poupar da refrega, uma vez que Lula parece contar com essa reação para estufar um tanto mais o... deveria escrever “peito”, mas escolherei “a barriga” — parece-me que carrega o simbolismo adequado a estes dias. Mais do que pelo orgulho, este governo se define pela jactância balofa. Segundo Lula, ele é pé-quente; FHC era pé-frio. Não basta ao Apedeuta privatizar os esforços de estabilidade que já são de uma geração. Ele precisa ser também o ungido. Lula e o PT criaram no país uma coisa bastante perversa à cultura política: o revanchismo do triunfo.

Ora, ele ganhou a eleição duas vezes depois de três derrotas — duas deles para FHC, e este fato não deve ser minimizado no seu rancor —; governa um pais que está com a economia em ordem porque, afinal, seus adversários de antes (e de agora) fizeram rigorosamente o contrário do que recomendava... Lula! E não seria difícil demonstrá-lo. Do Apedeuta — e isto não se faz com nenhum outro político no país —, não se cobra coerência, mas apenas eficiência. E ele é, sob certo ponto de vista, “eficiente”: justamente quando ignora tudo o que pregou o PT ao longo de mais de 20 anos. Como subsiste certo temor de que possa entrar em regressão, seus atos em favor da economia de mercado são calorosamente aplaudidos. Espera-se sempre que o som desses aplausos abafe certo alarido de seus esquerdistas, de seus nacional-desenvolvimentistas.

Lula tira, claro, proveito dessa figura sem passado em que se transformou. Explico: passado, ele tem, sim. Mas apenas o mítico: “o operário pobre que venceu as dificuldades, aderiu à esquerda e descobriu o mercado”. Ninguém dá bola é a seu passado histórico. Podem observar: cobra-se de FHC até hoje a união do intelectual marxista (que ele nunca foi, diga-se) com o PFL lá em 1994... Mas nada de perguntar o que faz Lula com os seus “conservadores”.

Peguei algumas estradas vicinais. Volto à principal. Essa condescendência, se concorre para amansar-lhe o espírito (ele adora dizer que supera FHC também nos valores, vá lá, de mercado), também cria uma figura que transita na política acima do bem e do mal. Por isso parece comum, até natural, que, mesmo vitorioso, surfando em índices formidáveis de aprovação, ele se comporte ainda como uma espécie de opositor do regime de... FHC!!!

Não basta que lhe reconheçam as obras, até as que não são suas: no caso da estabilidade, por exemplo, sua virtude foi manter as regras instituídas por outros. Lula sente a necessidade também de expropriar FHC de seu passado: precisa compulsivamente mutilar a biografia do antecessor; apagar imagens da fotografia; retocá-la com a determinação que tinham os stalinistas de reinventar o passado. Ah, sabemos: faz isso sem teoria mesmo, sem saber direito quem foi Stálin; sem ter qualquer motivo, vá lá, utópico (ainda que uma utopia torta) para apoiar ditadores como Fidel Castro ou Hugo Chávez.

Ora, ora... As regras da estabilidade que estão dadas, digo num post abaixo, custaram caro ao antecessor do petista. O beneficiário óbvio — porque está aí, no poder — do desgaste foi o próprio PT. Vejam, pois, que coisa formidável: tudo aquilo contra o que o partido lutou e que garantiu a sua ascensão é hoje o seu melhor patrimônio. Lula poderia, quando menos, silenciar, então, sobre o passado. Mas não: ele continua a demonizar FHC usando a régua e compasso que lhe deu... FHC!!!

“Ora, dirão, política é assim mesmo!” Não é, não. Caso se eleja um presidente da oposição, que não seja do gosto do petismo, posso apostar que o PSDB não saberá proceder a essa desconstrução do passado. Porque não é de sua natureza — e isso, se querem saber, é bom. Não acho que o petismo deva ser um modelo de ética para os demais partidos. Mas é bom ter claro: o PT sabe e soube, dentro e fora do poder, politizar os temas que são do interesse da sociedade; transforma tudo em uma guerra de valores: “nós” contra “eles”. O PSDB ainda não aprendeu a fazer isso. O DEM parece ter descoberto essa necessidade, e a luta contra a CPMF veio a demonstrá-lo. Se bem se lembram, os tucanos entraram tarde na peleja — e quase fazem besteira. A desnecessidade da CPMF, dado o recorde da arrecadação, está demonstrada. Os tucanos souberam aproveitar? No outro dia, já havia alguns deles ocupados em debater formas para recriar a contribuição... Santo Deus!

É preciso que as oposições, especialmente o PSDB, comecem a definir alguns temas pelos quais vale a pena lutar e se mobilizar. Até porque o “revanchismo triunfalista” se prepara para subir no palanque em 2008 e em 2010. Depois, então, de oito anos de governo petista, o palanqueiro Lula falará, uma vez mais, contra o... passado!!!


Por Reinaldo Azevedo

Thursday, February 21, 2008

Brasil já é credor externo: derrota histórica das esquerdas e vitória de FHC!!! - Blog do Reinaldo Azevedo - 21/02/08

Por Fernando Nakagawa, da Agência Estado. Volto em seguida:

Pela primeira vez, o Brasil tem em suas reservas internacionais dinheiro suficiente para quitar toda a dívida externa - pública e privada. O cálculo é do Banco Central e consta de um relatório divulgado nesta quinta-feira, 21, pela instituição, ressaltando a evolução recente dos indicadores de sustentabilidade externa do País. De acordo com o documento, a projeção do BC indica que em janeiro as reservas internacionais superaram a dívida externa em US$ 4 bilhões. Isso não significa, contudo, que o País vá quitar sua dívida, tampouco a das empresas, mas esta condição melhora a credibilidade do Brasil no exterior. O resultado das contas externas de janeiro será divulgado na próxima semana.

No documento intitulado "Indicadores de Sustentabilidade Externa do Brasil, Evolução Recente", o BC lembra que a posição devedora do Brasil era de US$ 165,2 bilhões ao final de 2003. Ao longo dos últimos quatro anos, o fortalecimento das reservas internacionais e o programa de recompra da dívida externa e de antecipação de pagamentos resultou na redução desse montante. Apenas no ano passado, as reservas internacionais cresceram 110% e chegaram a US$ 180,3 bilhões no final de dezembro.

Para o BC, as reservas apresentaram "evolução sem precedentes nos últimos anos", de US$ 16,3 bilhões, em 2002, quando excluídos os empréstimos do FMI, para US$ 180,3 bilhões ao final de 2007, "tendo crescido 110,1% apenas neste último ano", destaca o texto. Na avaliação da autoridade monetária, "o principal fator responsável por essa ampliação foi o superávit no mercado cambial, que acumulou US$ 150,6 bilhões de 2003 a 2007".

No relatório, o BC avalia que a compra feita pela própria instituição no mercado cambial respeita a política de câmbio flutuante. "Ou seja, não adicionando volatilidade (oscilação) ao mercado e não definindo pisos nem tendências", cita o documento. As compras líquidas de dólar feitas pelo BC alcançaram US$ 141,3 bilhões nos últimos cinco anos, dos quais 55,6% apenas em 2007.

O que isso significa?
O comentarista econômico do jornal O Estado de S. Paulo, Celso Ming, destaca que a posição credora do Brasil no mercado internacional traz conseqüências positivas para o País. Ele enumera:
1- Esta condição melhora a percepção do Brasil perante os investidores estrangeiros. Isso significa aumento de confiança nos títulos de empresas e do governo brasileiro.
2- Com a melhora da percepção do País, mais investidores compram títulos de empresas e do governo brasileiro. Isso significa mais dólares entrando no mercado interno.
3- A melhora da percepção também deixa o Brasil mais perto do grau de investimento - classificação dada a países com baixíssimo risco de calores.
4- Se a classificação de grau de investimento se confirmar, mais investidores estarão dispostos a investir no País e mais dólares entrarão no Brasil. Além disso, o juro do dívida cai e as condições de endividamento do País ficam ainda melhores.

Comento
Vejam só! É, dei um título ao texto para provocar mesmo os “tonton-maCUTs” do petralhismo.
- Quem não se lembra do plebiscito da CNBB — já bastaria que nossos bispos entendessem de religião, não é mesmo? — propondo a suspensão do pagamento da dívida externa?
- Quem não se lembra da pauta histórica das esquerdas, incluindo o PT, sim (aquele pré-poder)? “Pela suspensão do pagamento da dívida externa!”
- Quem não se lembra, como é mesmo, das “percas internacionais de Leonel Brizola?
- Quem não se lembra da moratória, saudada como um ato de coragem nacionalista, de Dílson Funaro?

Os números que estão aí são a conseqüência virtuosa do que os delinqüentes teóricos chamaram, ao longo dos oito anos de governo FHC, de “neoliberalismo”. Fosse, e dado que a política teve continuidade no governo Lula, entao se tem um mérito do Lula neoliberal!

E, sim, POR ISSO LULA DEVE SER ELOGIADO. Quem disse que não elogio nunca? QUANDO ELE NEGA, NA PRATICA, TUDO O QUE ELE PREGAVA NA TEORIA, merece o meu aplauso.

“Ah, então, vamos pagar tudo?” Não. Não é necessário. É mais vantajoso, para o país, manter as reservas e administrar a dívida, como vem fazendo. O que se tem aí é o resultado de 13 anos de uma política macroeconômica coerente, que fez a opção pela responsabilidade. Pode-se discordar disso ou daquilo, da valorização excessiva do câmbio aqui ou do juro ali, mas o rumo se manteve.

PARABÉNS AO PRESIDENTE LULA POR, AO MENOS NA POLÍTICA MACROECONÔMICA, TER DECIDIDO PRESERVAR A HERANÇA BENDITA.


Por Reinaldo Azevedo

Wednesday, February 20, 2008

O Coma Andante 1 - Não há ambigüidade: Fidel é um dos maiores assassinos da história - Blog do Reinaldo Azevedo de 19/02/08



Tenho um pouco de vergonha da minha profissão. Com as exceções de sempre e de praxe, afirmo de modo categórico: está tomada por pusilânimes, por idiotas, por cretinos incapazes de escolher entre o bem e o mal, entre a democracia e a ditadura, entre a vida e a morte. Li, quero crer, tudo o que a imprensa relevante publicou, no Brasil e no mundo, a respeito da renúncia de Fidel Castro, que deixou formalmente a presidência de Cuba, depois de uma ditadura de 49 anos. Não fiz uma contabilidade, mas creio que 90% dos textos apelam a uma covardia formidável: seu legado seria ambíguo; Fidel nem é o herói de que falam as esquerdas nem o facínora apontado pela direita. Até parece que ele é apenas um objeto ideológico sujeito a interpretações. Não por acaso, esquece-se de abordar, então, o seu legado segundo o ponto de vista da democracia.

A mais estúpida de todas as leituras é aquela que poderia ser assim sintetizada: “Fidel liderou uma ditadura, mas melhorou os índices sociais”. Isso que parece ingênuo, de uma objetividade crua e descarnada de qualquer ideologia, é, de fato, uma impostura formidável; aí está a fonte justificadora do mais assassino de todos os regimes políticos jamais inventados pela humanidade. A ditadura comunista viria, assim, embalada pelo mito da reparação social: "Não se tem liberdade, mas, ao menos, há saúde e educação para todos". Pergunto: uma ditadura de direita, então, se justificaria segundo esses mesmos termos?

Mas atenção! Não se trata apenas de criticar esse postulado indecente que aceita trocar liberdade por conquistas sociais. O milagre social da revolução cubana foi criado em cima de mentiras objetivas. Em 1952, Cuba tinha o terceiro PIB per capita da América Latina. Em 1982, estava em 15º lugar, à frente apenas de Nicarágua, El Salvador, Bolívia e Haiti. A fonte? La Lune et le Caudillo, de Jeannine Verdes-Leroux. O livro, de 1989, tem o sugestivo subtítulo de “O sonho dos intelectuais e o regime cubano”. Estuda como se implantou e consolidou o regime comunista no país entre 1957 (a revolução é de 1959) e 1971. Não foi só essa mentira. Ao chegar ao poder, Fidel afirmou que 50% da população da ilha era analfabeta. Mentira! Em 1958, a taxa era de 22%, contra 44% da população mundial.

Um ano depois da revolução, já não havia mais no governo nenhum dos liberais e democratas que também haviam combatido a ditadura de Fulgêncio Batista. Tinham renunciado ao poder, estavam exilados ou mortos. Logo nos primeiros dias da revolução, antes mesmo que se explicitasse a opção pelo comunismo, Fidel e sua turma executaram nada menos de 600 pessoas. Em 1960, pelo menos 50 mil pessoas oriundas da classe média, que haviam apoiado a revolução, já haviam deixado Cuba. Três anos depois, 250 mil. A Confederação dos Trabalhadores Cubanos, peça-chave na deposição do regime anterior, foi tomada pelos comunistas. Em 1962, imaginem, a CTC cobra de Fidel a “supressão do direito de greve”!!! O principal líder operário anti-Batista, que ajudou a fazer a revolução, David Salvador, foi encarcerado naquele ano.

Só nos anos 60, o regime de Fidel fuzilou entre 7 mil e 10 mil pessoas. Caracterizá-lo como um assassino não é uma questão de gosto, mas de fato; não se trata de tomar essa característica como parte de seu legado supostamente ambíguo. Não há nada de ambíguo em fuzilar 10 mil. É coisa de facínora. Como é incontroverso que ele e seu amiguinho, o Porco Fedorento Che Guevara, criaram campos de concentração na ilha, os da UMAP (Unidade Militar de Apoio à Produção), formados por prisioneiros políticos, que chegaram a 30 mil!!! Ali estavam religiosos, prostitutas, homossexuais, opositores do regime, criminosos comuns... Os movimentos gays, que costumam ser simpáticos à esquerda, deveriam saber que a Universidade Havana passou por uma depuração anti-homossexual. Isso mesmo. Em sessões públicas, os gays eram obrigados a reconhecer seus “vícios” e a renunciar a eles. As alternativas eram demissão e cana (em sentido literal e metafórico).

Segundo O Livro Negro do Comunismo, desde 1959, estima-se em 100 mil o número de pessoas que passaram pela cadeia ou pelos “campos” de reeducação no país. Os fuzilamentos são estimados entre 15 mil e 17 mil pessoas.

Quando Fidel fez 80 anos, escrevi neste blog o seguinte:

Em 1961, estima-se que Cuba tivesse 6,5 milhões de habitantes. Nada menos de 50 mil já tinham fugido da ditadura para o exílio. Ou seja: 0,77% da população. Isso não impediu, é claro, que José Dirceu fosse buscar abrigo na ilha quando veio o golpe militar. Ali ganhou uma nova cara e consta que treinou guerrilha — há quem diga que nunca deu um tiro. Em 1964, o Brasil tinha 80 milhões. Se os militares tivessem feito aqui o que o ditador cubano fez lá, nada menos de 616 mil brasileiros teriam ido embora. Cuba tem hoje 11 milhões de habitantes. Desde 1959, foram executadas na ilha 17 mil pessoas — não se sabe quantas morreram nas masmorras. Só os reconhecidamente executados são 0,154% da população. Postos os números em termos brasileiros, dada uma população atual de 180 milhões, os mortos seriam 277.200. Só nos primeiros cinco meses da revolução, foram sumariamente executadas 600 pessoas (0,0092% da população). É pouco? No Brasil de 1964, isso significaria 7.360 mortes logo de cara.
Os 21 anos de ditadura militar brasileira mataram, em números superestimados, 424 pessoas, incluindo os guerrilheiros do Araguaia. Desse total, por razões comprovadamente políticas, foram 293 pessoas. Os números sobre o Brasil estão no livro Dos Filhos Deste Solo, do petista e ex-ministro de Lula Nilmário Miranda. Em Cuba, de 1959 para cá, passaram por prisões políticas 100 mil pessoas (0,9% da população atual). Em Banânia, isso representaria 1.620.000 pessoas. Essa é a democracia que um grupo de petistas estava — ou está — se preparando para saudar no próximo dia 13 de agosto, quando Fidel faz (ou faria) 80 anos, 47 dos quais à frente de uma das ditaduras mais fechadas e sanguinárias no planeta. Mais detalhes no texto A América Latina e a Experiência Comunista, de Pascal Fontaine, que integra O Livro Negro do Comunismo – Crimes, Terror e Repressão (Editora Bertrand Brasil), recebido com um silêncio covarde e cúmplice por aqui. E também em Loué Soient nos Seigneurs, de Régis Debray (Editora Gallimard), que conheceu de perto, em Che Guevara, parceiro de Fidel, “o ódio eficaz que faz do homem uma eficaz, violenta, seletiva e fria máquina de matar”.
Nota: ainda hoje, as prisões cubanas são um exemplo acabado da degradação humana. A totalidade dos presos de Fidel preferiria, sem sombra de dúvidas, dividir celas com os terroristas de Guantánamo. Mas o mundo, claro, acha Bush um bandido e pára quando discursa o ditador de opereta."

Então...
Viram só? Por que os nossos ditadores, que não passam de soldadinhos de chumbo perto da máquina de matar que foi Fidel Castro, também não têm reconhecida a sua herança ambígua, não é mesmo? Já imaginaram. “Há quem diga que o general Emílio Médici foi um ditador, mas, para alguns, foi um verdadeiro herói...” Não! Isso os nossos jornalistas isentos jamais dirão.

Lembram-se daquela reação canalha à matéria de VEJA que evidenciava, com fatos, que o porco fedorento Che Guevara era um assassino? Pois é. Até hoje, há vagabundo que ainda a cita como exemplo de “falta de equilíbrio e de isenção”.

Cobram de nós a isenção diante de um dos maiores assassinos da história.

PS: No alto deste texto, vocês vêem um quadro, publicado pela VEJA em 20 de dezembro de 2006, com os mortos por 100 mil de algumas ditaduras. Os números de Cuba, do Arquivo Cuba, estao subestimados. Outras apurações independentes (leiam acima) apontam que o número de mortos está entre 15 mil e 17 mil. Mesmo assim, vejam lá, a ilha do Coma Andante é líder absoluta no campeonato na morte.

Por Reinaldo Azevedo

Saturday, February 16, 2008

As últimas da ministra das paroxítonas hiperparoxítonas - Blog do Reinaldo Azevedo - 15/02/08

Leia o que vai abaixo. Preste atenção ao que está em vermelho:

Por Wellington Bahnemann, da Agência Estado. Volto depois:
A ministra chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, afirmou nesta sexta-feira, 15, que o governo não teme "nenhuma investigação" sobre os gastos com os cartões corporativos, referindo-se à CPI mista protocolada no Senado na última quinta-feira. "Nossa liderança se posicionou favorável a realizar a CPI", afirmou. Dilma defende que a investigação inclua os gastos a partir 1998 (na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) para que se verifique a melhora das despesas com cartão corporativo.
Segundo a ministra, a CPI é importante para que se aperfeiçoe a utilização do cartão corporativo. "Muita coisa precisa ser aperfeiçoada, só não podemos achar que o cartão é mau."

"O cartão é a melhor maneira de controlar essas pequenas despesas. Não apenas a União instituiu o cartão como também reduziu esses pequenos gastos. Em 2001, essas despesas eram de R$ 233 milhões. Ano passado, elas foram de R$ 177 milhões. Só não foi menor porque houve gastos com o Censo Agropecuário e com o Panamericano", disse. Apesar da celeuma envolvendo os cartões corporativos, Dilma afirmou que todo órgão público, seja prefeituras ou estados, utiliza esse meio de pagamento. Ela inclusive cobrou que se compare os gastos da União com outros Estados. "Li na imprensa que em São Paulo esse gasto é de R$ 108 milhões. É preciso olhar proporcionalmente, porque nós cobrimos do Oiapoque ao Chuí", disse.

Comento
Viram só? A ministra das paroxítonas hiperparoxítonas não esconde o objetivo de se fazer a CPI retroativa a 1998: demonstrar que o governo Lula é melhor. Entenderam? Descobre-se a lambança com os cartões, o que só serve de pretexto para provar a superioridade do... governo Lula! Não é só: CPI agora virou espaço de aperfeiçoamento da administração. Santo Deus!

Não acabou: ela também fala dos gastos de São Paulo e investe na fraude comparativa que ainda está presente em parte da imprensa: seriam R$ 108 milhões do governo de São Paulo contra os R$ 177 milhões do governo federal.

Pelo menos se corrigiu parte da fraude, não é? De tanto que se martelou aqui. Até outro dia, falavam em R$ 75,6 milhões. Há uma diferença importante, de saída, que a mídia “isentista” não quer fazer: só se conhece a destinação de 11% dos gastos federais. No caso de São Paulo, é possível rastrear 100% dos gastos. No caso dos federais, há verbas secretas; em São Paulo, não há.

Mas isso não é tudo. Dilma insiste em que, em 2001, os gastos emergenciais eram de R$ 233 milhões, e, no ano passado, de R$ 177 milhões. Huuummm. Para os idiotas do petralhismo que ficam enviando comentários para cá, isso basta.

Para mim não basta, não. Quero saber, daqueles R$ 233 milhões, quanto era gasto secreto e saque na boca do caixa. E hoje? Essa é a pergunta que interessa. Também é preciso saber se houve despesas que passaram a ser supridas pelo Orçamento, deixando a condição de emergenciais.

Mais um ministro de estado — Tarso Genro já fez isso — demonstra que o objetivo da CPI não é apurar nada, mas buscar um atestado de inocência para Lula e de condenação para FHC. E, por incrível que pareça, não há qualquer denúncia contra o governo tucano: eles vão “apurar” para saber se houve irregularidade. E isso é inédito na história.

Por Reinaldo Azevedo

Friday, February 15, 2008

Sobre o terror: "Mas que diabo de católico é você?" - Blog do Reinaldo Azevedo - 15/02/08

O post sobre a morte do facínora Imad Mughniyeh, chefe militar do Hizbollah, traz, até agora, um único comentário publicado. Estão aqui guardados. Vou vê-los daqui a pouco. Dona Reinalda preferiu que eu mesmo os avaliasse. Ela me diz que um bom grupo de leitores pergunta que diabo de católico sou eu, já que escrevi que o mundo está melhor sem ele, e se não sou contra a pena de morte.

É engraçado. Costumam confundir catolicismo com fraqueza de caráter. Esperam de um católico que seja idiota, não que seja convicto. Os críticos do catolicismo acham que a religião só se justificaria se seus adeptos estivessem permanentemente de joelhos, expiando culpas — sobretudo as que não têm.

O que queria Imad Mughniyeh? Um mundo pacífico, em que as diferenças políticas e religiosas fossem decididas por meio do diálogo? Como ele lidava com o seu impressionante estoque de cadáveres? Mostrou, em algum momento, alguma forma de arrependimento? Prometeu não matar mais? Os métodos a que ele recorria eram uma das formas possíveis da ação política no terreno do que compreendemos ser a civilização? No caso particular do Oriente Médio, lutava, sei lá, por dois estados independentes na região de Israel-Palestina ou por uma federação de estados? Nada! Queria o fim de Israel e a expulsão dos judeus da região.

Mesmo assim, sua “luta” poderia se limitar a financiar políticos que defendessem esse ponto de vista, certo? Mas não! Ele se organizava para matar inocentes. Não só a vida dos palestinos não melhorou em conseqüência de seus atos, como a dos libaneses se transformou num inferno Um católico, um cristão, não deve, sem que isso macule seus princípios, optar pela morte, pela eliminação física do outro, como forma ativa de política. Mas, se quiserem, dá para encontrar a pena capital em Deuteronômios. Não se escolhe a morte. Mas também não se a acolhe como um fatalismo.

Dá pra matar, de modo cristão (afinal, aquele livro do Velho Testamento é acatado pelos católicos), apelando à letra do texto bíblico. Mas a ética cristã e católica avançou em outra direção. Ali Kamel, no seu excelente Sobre O Islã — é leitura obrigatória — demonstra, por exemplo, que as 72 virgens que esperariam os suicidas-homicidas no Paraíso, para onde o morto poderia indicar outros setenta parentes (uma espécie de nepotismo celestial), não é coisa do Islã, mas de uma seita fundada em 1090 pelo persa xiita Hassan e-Sabbah. Escreve Kamel: “O crime devia acontecer à luz do dia, no lugar mais movimentado da cidade, de preferência numa mesquita bem cheia, durante as orações de sexta-feira. Para que o ato tivesse ampla repercussão e provocasse medo”. A primeira vítima desse tipo de crime é de 1092: Nizam el-Mulk, um vizir turco que, durante 30 anos, organizara o poder sunita. O que era um sectarismo na disputa entre xiitas e sunitas foi recuperado no mundo contemporâneo como forma de luta política. Estamos lidando com reacionários delirantes, que conspurcam o Corão para matar.

O que fazer diante desse delírio? Entregar-se em holocausto? Ficar esperando o próximo ataque dos Imads? Oferecer a outra face? A nossa face ou a face da imensa massa de inocentes mundo afora? Olhem aqui: não preciso recorrer a Deuteronômios para endossar o ato. Apelo ao direito à autodefesa. Temos de fazer, nesse caso, como Nasser fez no Egito, em 1966, com Sayyd Qutb, então principal ideólogo da terrorsita Irmandade Muçulmana: forca. Anuar Sadat, lembram-se dele?, resolveu relaxar o cerco à turma. Foi assassinado.

A morte de qualquer homem nos diminui. A de um terrorista nos eleva e consola. E nada nos impede de rezar por sua alma.



Por Reinaldo Azevedo

Um fenômeno no Youtube - Blog do Reinaldo Azevedo - 15/02/08


A maioria de vocês já assistiu ao vídeo acima. Ele me foi enviado quando havia não mais do que dezenas de visitas, há dias. Já foi acessado por 82.186 pessoas. Alguém de ótimo humor pôs no ar imagens do filme A Queda, de Oliver Hirschbiegel, com Hitler tendo um ataque de fúria e apoplexia na reta final de seu reinado de morte, e a elas sobrepôs legendas contando, em linguagem satírica, a história dos cartões corporativos. O resultado é impagável.Não postei antes porque há uma passagem ou outra que considero um tanto incômodas. Limitei-me a publicar os links na área de comentários, como vocês sabem. Publico agora: afinal, estou reportando um fenômeno no Youtube. Se não conseguir acessar clicando na imagem acima, clique aqui.

Por Reinaldo Azevedo

Quem é o Chomsky do Irã? - Blog do Reinaldo Azevedo - 15/02/08

Aí escreve o leitor sobre a morte do terrorista:

Terrorismo é ruim, mas, se for terrorismo de Estado, maravilhoso.Crime é crime... Feito por grupos como o Hamas ou por estados como Israel ou EUA.Sou contra o Hamas, mas abomino que tais práticas sejam adotadas pelos países acima mencionados ou qualquer outro, independente de ideologia ou religião que o legitimem.Coerência, Reinaldo, senão a credibilidade....

Comento
Ah, se eu dependesse disso que você chama “coerência” e que eu chamo covardia, isentismo, pusilanimidade, pararia de escrever. Na esfera, vamos dizer, do simbolismo religioso, eu chamo esse seu pensamento de “coisa do capeta”, hehe. O demônio é aquele que vem para chamar o bem de mal, o certo de errado, o virtuoso de criminoso — ou o contrário. O demônio faz com que duvidemos de nossas mais profundas convicções com sua lógica ilógica.

Por que comento o texto acima? Porque esse leitor não é um, mas uma legião. Está sendo vítima do que Olavo de Carvalho chama “O Imbecil Coletivo” — leiam o livro. Então vamos ver o que me propõe o valente:

1 – Eu, porque sou cristão, sou contra a pena de morte, certo? Como tenho de viver segundo os meus princípios, devo me opor a que ela seja aplicada a qualquer homem. Pois bem.
2 – Um “outro”, porque não é cristão — na verdade, ele quer destruir o que chama de união dos “judeus com os cruzados” —, pode, então, segundo os seus princípios, aplicar a pena de morte a seus adversários, o que me inclui.

Deixe-me ver se entendi a fórmula: eu, porque acredito na convivência entre os diferentes e aposto na tolerância, devo permitir que aquele que não acredita em nada disso me elimine, de sorte que a minha coerência deva coincidir necessariamente com a minha morte.

É isso?

Um judeu ou um cristão, para ser um bom judeu ou um bom cristão, caminha para a morte sem piar. Já um extremista islâmico — contrariando, diga-se, a essência de sua religião —, ao decretar suas penas de morte estaria apenas agindo segundo os seus valores.

Donde se conclui que:
- quando um terrorista islâmico mata alguém, estaria dando prova de coerência;
- quando um cristão ou um judeu mata um terrorista (há suspeitas de que a própria Síria eliminou o facínora, num conflito de meliantes morais), isso, sim, é que seria o verdadeiro terrorismo.

Eis uma das formidáveis confusões de nossa época, nascida do relativismo moral e cultural — e, curiosamente, do multiculturalismo em sua expressão mais deformada.

Comigo, não, violão! A morte de um terrorista é um canto de glória em defesa da vida.

E para encerrar: essa conversa de “terrorismo de estado” é só um desses jargões imbecilizantes postos para circular pelas esquerdas mundo afora e por delinqüentes morais como Noam Chomsky, que abusa de sua condição de judeu para provar a sua suposta “independência” intelectual. Esse cretino acha que pode privatizar a vertente universalista do pensamento judaico e pô-la a serviço do terror.

Os atos terroristas do Hamas são terrorismo de Estado. Os atos terroristas do Hizbollah são terrorismo de estado. Afinal, são grupos sustentados por... estados: Irã e Síria à frente. Quer dizer que uma ação de países democráticos e que defendem os valores que nos permitem ser livres e donos de nosso nariz é necessariamente nefasta, mas a dos facínoras é só uma expressão da resistência?

Que gente curiosa!

Se um dia essas vertentes teratológicas do islamismo assumissem o poder para valer no mundo, os idiotas úteis que combatem os EUA e Israel seriam os primeiros a ir para a forca. Vejam lá o que os aiatolás fizeram com seus esquerdistas, seus ateus, suas feministas, seus homossexuais, seus artistas, seus multiculturalistas. Quem não morreu ou está na cadeia está de bico fechado.

Quem é o Chomsky do Irã?

Por Reinaldo Azevedo

É claro que Bush estava certo! - Blog Reinaldo Azevedo - 15/02/08

Escreve um leitor habitual deste blog, que não é um petralha (ele em azul, eu em preto):

Há para mim um equívoco no seu argumento, e ele tem a ver exatamente com os princípios cristãos que alega ter o "olho por olho". Ou seja, para evitar os que nos querem "destruir", devemos trucidá-los, empalá-los, explodi-los.
Quem disse que isso é um princípio cristão, Ricardo? Não é, não. Nem cristão nem meu em particular.

Uma coisa é capturá-los e julgá-los de acordo com as leis. Outra, completamente diferente, é usar a regra de Talião. Pois assim praticamente nos igualamos às bestas.
Epa! Errado! O que você propunha? Que os EUA ou Israel invadisse a Síria para capturar o assassino compulsivo?

Por mim, o sr. Sharon deveria ter morrido também, mas isso não passaria por sua cabeça, acredito eu, já que ele é um "defensor" da democracia (que eu chamo teocrática).
A história de que Israel é uma teocracia, data venia, é uma bobagem formidável, Ricardo. Vocês pode achar o que quiser, mas não conseguiria provar. Jamais fui um admirador de Sharon, especialmente o carniceiro de Sabra e Chatila. Mas fez a coisa certa quando fundou um novo partido e decidiu a desocupação unilateral da Faixa de Gaza. Mas as lideranças palestinas jogaram fora cada miserável chance de fazer o processo de paz avançar. Volte no tempo e pesquise: se Arafat tivesse aceitado o plano de Ehud Barak, a história seria outra. Em vez disso, sempre procurou usar a seu favor o terrorismo islâmico. Veja no que deu.

Concordo em quase tudo que você escreve sobre política nacional, mas é impressionante como nossa visão é quase oposta em política internacional. Felizmente, tenho sido mais correto em minhas análises, como o fiasco do Iraque se provou.
Que fiasco? O pós-guerra foi desastrado, sim. Mas a intervenção americana, além de correta, é um sucesso no que respeita ao combate ao terror. O Iraque iria se transformar num campo de treinamento dos vários terrorismos, Al Qaeda incluída.

Boa parte de seu juízo e motivada, Ricardo, pelas mentiras espalhadas pelo senador democrata Carl Levin, segundo quem jamais houve indícios ou provas de que a Al Qaeda e o Iraque de Saddam Hussein mantivessem contato. A realidade é bem outra. No dia 8 de setembro de 2006, veio à luz no Senado dos EUA um documento intitulado: “Descobertas do pós-guerra sobre os programas iraquianos de armas de destruição em massa e ligações do Iraque com o terrorismo, e como essas descobertas se relacionam com as informações do pré-guerra”. No dia da divulgação do relatório, Levin, que presidia a Comissão das Forças Armadas, divulgou um duro texto contra Bush e Cheney, acusando-os de mentir ao mundo de forma deliberada.

E o tal relatório, vejam só, evidenciava que os contatos da Al Qaeda com Saddam Hussein datavam de... 1990! E olhem que o texto ainda ignorava, estranhamente, carta enviada à Comissão de Inteligência por George Tenet, então diretor da CIA, no dia 7 de novembro de 2002 em que se afirmava:
- “Temos relatos de contatos de alto escalão entre Iraque e Al Qaeda que já ocorrem há uma década”;
- "Informações confiáveis indicam que o Iraque e a Al Qaeda já discutiram as questões de asilo e não-agressão mútua”;
- “Desde a operação ‘Liberdade Duradoura’, temos provas concretas da presença de membros da Al Qaeda no Iraque, inclusive soubemos que alguns estiveram em Bagdá”;
- "Temos relatos confiáveis de que líderes da Al Qaeda procuraram contatos no Iraque que os ajudassem as adquirir armas de destruição em massa. Esses relatos acrescentam que o Iraque forneceu treinamento para membros da Al Qaeda nas áreas de venenos e gases e na construção de bombas convencionais”;
- “O crescente apoio do Iraque a grupos palestinos extremistas, juntamente com os crescentes indícios de ligações com a Al Qaeda, sugere que o relacionamento de Bagdá com o terrorismo deverá aumentar, mesmo na ausência de qualquer ação militar por parte dos EUA”.

São dados de documentos oficiais, coletados por Ali Kamel no livro Sobre o Islã, que recomendo de novo. Bush não teria outra coisa a fazer a não ser o que fez. É o que eu também faria. A idéia de que Bush foi o Lobo Mau que só queria papar o petróleo de Chapeuzinho Vermelho é um infantilismo político, a que nos acostumaram as esquerdas mundo afora. Mas, claro, é uma fábula.

Caro Ricardo, você diz que a sua oposição à guerra se revelou correta. No meu entendimento, não. A guerra, tudo somado, foi bem-sucedida. E era histórica e moralmente justificável.
Por Reinaldo Azevedo

Wednesday, January 30, 2008

OS NÚMEROS DA VIOLÊNCIA E POR QUE AS ESQUERDAS FAZEM MAL AO PAÍS - Blog do Reinaldo Azevedo - 30/01/08

Caros,
O texto que vai abaixo é longo, bem longo, mas está, a meu juízo, entre os mais importantes que escrevi neste blog. Passem-no adiante, divulguem-no, façam panfletagem se necessário. Uma grande trapaça política, intelectual e moral está em curso.
Denunciemo-la.
*
Sim, os embusteiros que tomaram de assalto a política no Brasil têm de ser permanentemente identificados: porque mentem, trapaceiam e empurram o país para o buraco. São capazes de tudo. Até de torturar os números para que eles confessem as suas teses esquerdopatas. O que foi desta vez, Reinaldo? Vocês devem ter visto que a Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) e os ministérios da Justiça e da Saúde divulgaram ontem os dados do Mapa da Violência nos Municípios referentes a 2006. Entre 2003 e 2006, o número de homicídios no país inteiro caiu de 50.980 para 46.660.

São Paulo
O fenômeno que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo já havia percebido e apontado aparece agora nesse levantamento também. Atenção: entre o estudo do ano passado e o tornado público ontem, a capital paulista, que ocupava o 182º no ranking de homicídios, despencou para 492º. É isso mesmo: a cidade ganhou 310 posições. A relação do número de mortes por 100 mil habitantes (proporção que caracteriza a taxa de homicídios) na capital paulista caiu de 48,2 em 2004 para 31,1 em 2006. Os homicídios recuaram 40,4%: de 4.275 para 2.546 dois anos depois. Note-se: a tal Ritla e os ministérios da Justiça e da Saúde trabalham com uma base de dados diferente dos da Secretaria de Segurança Pública, que não considera os homicídios culposos — praticados sem a intenção de matar. Só para vocês poderem comparar: nesse levantamento, Recife tem uma taxa de 90 mortos por 100 mil habitantes.

A taxa de homicídios na cidade e no estado de São Paulo vem caindo de forma continuada e sustentada desde 1999 (tabela aqui). “Qual será o segredo?”, perguntam-se os especialistas. Eu tenho uma explicação objetiva, material, aritmética:
- São Paulo tem 40% dos presos do país — não prende demais, não; os outros é que prendem de menos;
- Existem 227,63 presos por 100 mil habitantes no Brasil; em São Paulo essa relação salta para 341,98 por 100 mil habitantes;
- Em 2001, o estado de São Paulo tinha 67.649 presos; em 2006, eles eram 143.310 — mais do que o dobro.
- Entre 1996 e 2006 (ano do levantamento divulgado ontem), o número de presos aumentou 10 vezes;
- Até julho de 2006, haviam ingressado no sistema prisional do estado 4.832 pessoas — 800 por mês ou um preso por hora.
Só eu tenho esses números. Não! São públicos. Todo mundo tem.

Não é mesmo fantástico? Mais bandidos presos, mais pessoas vivas! Quem seria capaz de negar essa evidência? Pois acreditem: a esquerdopatia militante nega, sim! E fica encontrando falsos motivos e subterfúgios para explicar o espantoso sucesso da cidade e do estado.

O que eles dizem
A Folha foi ouvir especialistas. A USP tem um tal Núcleo de Estudos da Violência (NEV). Jamais o vi reconhecer a eficiência da Polícia paulista. Leiam o que disse ao jornal o pesquisador do NEV Marcelo Batista Nery: “Se você perguntar para o poder público, ele vai dizer que foram as suas intervenções, como o policiamento; outros vão dizer que foram as ações das ONGs, que melhoraram as inter-relações sociais entre as pessoas. Para mim, foi tudo isso junto". Uma pinóia, meu senhor! Acima, eu exibi dados. E não sou “pesquisador”. Quais são os seus sobre a efetividade do trabalho das “ONGs” para reduzir a violência? Quais trabalhos? Quais organizações? Onde estão os números?

Mesmo no levantamento um tanto perturbado (direi por quê) da tal Ritlta e dos ministérios, as mortes na capital paulista caíram 40,4% de 2004 para 2006 — de 4.275 para 2.546. Pergunto ao pesquisador: as outras capitais também não contam com ONGs que melhoram “as inter-relações sociais entre as pessoas”? Aliás, a expressão do moço deveria lhe render algumas chicotadas para aprender a falar “enquanto gente”, não “enquanto sociólogo”. Como os números não lhe parecem bons o bastante para o proselitismo, ele resolve criar subcategorias: “Os dados mostram uma queda geral em São Paulo. Mas é preciso considerar que a cidade é muito complexa. As situações de Moema [bairro de classes média e alta] e Brasilândia [periferia da cidade], por exemplo, são muito diferentes." Ah, são. Aí a própria Folha escreve: “Os indicadores do Observatório Cidadão Nossa São Paulo, lançados na semana passada, mostram essa disparidade. Enquanto na região da Subprefeitura da Vila Mariana houve 8,97 crimes violentos por 100 mil habitantes em 2006, em Parelheiros (ambos na zona sul) foram 47,88 casos.” Esse tal Observatório é um aparelho do PT dirigido por Oded Grajew, ex-assessor especial de Lula. Tão especial, que ninguém nunca soube o que ele fazia lá.

Agora leiam o que diz Paula Miraglia, diretora-executiva do Ilanud, órgão da ONU (aquela entidade de petralhas globais) sobre delitos e tratamento do delinqüente: "Não há uma causa única para essa queda expressiva. Há uma tendência clara de queda em São Paulo desde 1999. Até agora, nenhum trabalho deu uma resposta conclusiva para esse fato". Não deu porque a moça não quer. Porque as esquerdas adoram odiar a Polícia. Eu repito e, se ela quiser, desenho:
- o número de presos em São Paulo, entre 1996 e 2006, aumentou 10 vezes;
- em 1999, no estado de São Paulo, havia 52,58 homicídios dolosos por 100 mil habitantes; em 2006, eles eram 18,39 por 100 mil.
- Atenção: em 2007 (ano que está fora daquele relatório), os homicídios dolosos na capital paulista caíram outros 22% em relação ao ano anterior: de 1.984 para 1.538. Assim, em vez dos 18,39 por 100 mil, o número caiu para 15 por 100 mil;
- Dos 96 distritos da capital, já há 29 com menos de 10 mortes por 100 mil habitantes, um índice de país civilizado. O paupérrimo Sapopemba está entre eles;
- No estado, o número de assassinatos caiu18%. Num universo de 645 cidades, 427 estão com índices abaixo de 10 assassinatos por 100 mil habitantes. Em 2006, eram 396.
- Os números acima incluem apenas os homicídios dolosos, critério que me parece melhor do que o outro como indicador de violência.

Mais besteiras
O festival de besteiras ainda não havia chegado ao fim. Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador da equipe que preparou o mapa, afirmou o seguinte ao Estadão: “A queda da mortalidade em São Paulo começou em 1999. Houve melhorias do aparato policial, mas, principalmente, uma reação da sociedade civil, com a criação dos Institutos Sou da Paz e São Paulo Contra a Violência”. E mesmo? Quais ações objetivas ele poderia apontar dessas ONGs? A moça Miraglia, aquela lá da ONU, falou também a esse jornal. Foi um pouco mais eloqüente do que com a Folha: “Desde o aumento da eficiência do Departamento de Homicídios, passando pela redução da circulação de armas, aumento das prisões, conversões religiosas, hip-hop etc. Todas ajudam a compreender um fenômeno extremamente complexo.” Como se vê, no seu sarapatel de motivos, a polícia é apenas um fator. Diga-me aí, dona Paula, nas outras capitais:
- não existe conversão religiosa?;
- não existe redução da circulação de armas?;
- não existe hip-hop (ou porcaria parecida)?

Vai ver, para a moça, mais do que a ação da polícia, quem fez diminuir mesmo a violência em São Paulo foi o Mano Brown...

Concluo
Sabem por que São Paulo caminha para ter índices de homicídio considerados aceitáveis pela Organização Mundial da Saúde? Porque o Estado têm mantido, já há bastante tempo, longe do poder os cleptocratas, os populistas e as esquerdas, capazes de afirmar as porcarias que se lêem acima. E, pior de tudo, esses três grupos agora prometem caminhar juntos.Se eles chegarem ao Palácio dos Bandeirantes algum dia, os números virtuosos regredirão, certo como a luz do dia. Negando toda a experiência nacional e internacional a respeito, tentarão combater a violência com ONGs, com hip-hop, com assembleísmo de entidades supostamente defensoras de direitos humanos... Em vez de meter bandido nas cadeias, tentarão abrir as portas dos presídios.A maior cidade do Brasil e a terceira ou quarta maior do mundo é um exemplo no combate à violência, embora muito precise ser feito. O estado que mais prende tem ainda um déficit de 40 mil vagas. Quando elas forem criadas e preenchidas, estaremos ainda mais seguros. Esses humanistas do pé quebrado querem fazer crer que há um fenômeno metafísico em São Paulo. Não há, não. Há uma escolha correta: bandido tem de ficar preso, e gente boa tem de andar com liberdade.
Por Reinaldo Azevedo

Thursday, November 22, 2007

Os “soviéticos” da economia brasileira – Um documento asqueroso - Blog Reinaldo Azevedo - 22/11/07

Estou entre enojado e escandalizado. Os soviéticos estão chegando. Os soviéticos já chegaram. Recebi uma “moção” de apoio a Márcio Pochmann, o patrulheiro do Ipea (vocês se lembram), assinada pelo Conselho Regional de Economia do Estado do Rio de Janeiro (Co.R.Econ-RJ), pelo Sindicato dos Economistas do Estado do Rio de Janeiro (Sindecon-RJ) e pelo (Centro de Estudos para o Desenvolvimento). Acreditem: essas entidades
- hipotecam integral apoio a Pochmann;
- demonizam os economistas demitidos do Ipea (a culpa é das vítimas);
- deixam claro que os quatro economistas foram mesmo “punidos” por não rezarem segundo a cartilha do governo: trata-se de uma questão ideológica;
- dizem que ainda é pouco e que mais precisa ser feito.

O texto é tão asqueroso no seu oficialismo, tão estúpido nos conceitos que emite, tão energúmeno na sua gramática moral e da língua portuguesa, que cheguei a duvidar de que pudesse ser verdadeiro. Entrei na página do Corecon na Internet. Não encontrei a tal moção. Tinha um pequeno fiapo de esperança. Talvez fosse um desses falsos e-mails. “Ninguém seria tão canalha”, cheguei a pensar. “Não é possível que exista gente que se disponha a exibir o nariz marrom desse jeito”, duvidei, cheio de esperança. Fiquei com o pé atrás quando vi que os valentes chamam “site” de “sítio”. Sim, claro, a mesma coisa... Ocorre que, no Brasil, só opta por “sítio” quem é atacado pelo complexo vira-lata de Policarpo Quaresma.

Aí cumpri o meu dever. Liguei para o Corecon — Tel: (21) 2103-0178 ou pelo FAX: (21) 2103-0106 —: “Tenho aqui uma moção que estaria sendo enviada aos economistas...”. Em suma: era tudo verdade. Eles realmente haviam redigido o texto que segue em vermelho. Citei o sovietismo, não é? Acho que fui muito severo com os camaradas. Nem os comissariados profissionais do stalinismo seriam tão sabujos quanto o que vai abaixo. Faço ainda intervenções em azul:

MOÇÃO
Em reunião de 14 de novembro último o CORECON – RJ, o SINDECON e o CED, aprovaram e recomendaram a ampla divulgação da seguinte moção.A imprensa vem criticando duramente os recém-nomeados presidente e diretor do IPEA, Márcio Pochmann e João Sicsú, pelo fato de terem dispensado quatro pesquisadores da instituição. Tendo sido essa decisão supostamente devida ao fato de serem os mesmos contrários a política econômica do Governo.
Vou me abster de comentar os erros de língua portuguesa e as grosserias de estilo. Alguns dos meus amigos mais inteligentes são economistas — um já trabalhou para este governo; não digo o nome nem debaixo de chicote. Mas os que redigiram esta “moção” são analfabetos.

Com respeito à questão, o fato a ser inicialmente sublinhado é que a mudança no comando de instituição de pesquisa oficial (e não acadêmica) traduz o desejo do Poder Público de dar nova orientação aos trabalhos da entidade. No caso em análise, a mudança no comando do IPEA traduz a nova orientação (embora ainda tímida e incompleta) do Presidente Lula no sentido de melhorar os resultados obtidos pelo Brasil em termos de desenvolvimento.
Como se vê, há o endosso cego da política oficial e o que, para mim, corresponde a uma confissão: houve mesmo expurgo; houve mesmo punição ideológica. Observem que os bravos esperam ainda mudanças. Eles acham pouco.

O Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, a criação do Ministério Extraordinário de Ações Estratégicas, com a indicação de Mangabeira Unger para comandá-lo, a nomeação de Guido Mantega para o Ministério da Fazenda e de Luciano Coutinho para o BNDES, constituem importantes corolários dessa decisão de imprimir novos rumos à economia brasileira. É, portanto, perfeitamente natural e necessário que o IPEA, órgão oficial de apoio à definição de políticas econômicas, seja comandado por dirigentes afinados com a nova orientação desejada pelo Governo. E esses dirigentes, para levarem adiante sua tarefa, devem ajustar a equipe técnica do órgão às suas novas funções.
Você pode não ter entendido direito o que vai acima, dadas a pontuação porca, a sintaxe claudicante, a vírgula entre o sujeito e o predicado etc. Mas é só um elogio do oficialismo, explicitando que o afastamento dos quatro pesquisadores faz parte de uma estratégia.

Mais grave, porém, é a alegação de que a dispensa dos quatro pesquisadores, cuja capacidade profissional e contribuição científica não se discute, teria decorrido de serem eles contra a política econômica oficial.
Observem que “grave”, para os soviéticos, não é o afastamento dos economistas, mas a leitura que se faz dela. Querem regular a interpretação da notícia. Em tempo: eles reconhecem a “capacidade profissional e contribuição científica” dos afastados...

Ora, o fato incontestável com respeito a esta,”
Com respeito a esta”??? Cadê o meu pau-de-arara estilístico?

é que os economistas brasileiros se dividem hoje entre os que aceitam, ou rejeitam, a visão neoliberal do Banco Central que, presentemente, comanda os destinos econômicos do país. Visão que concede absoluta prioridade à manutenção dos equilíbrios fundamentais (cambial, fiscal e monetário) relativamente à necessidade de incremento acelerado do PIB brasileiro. Com a conseqüência de ter sido o crescimento da economia brasileira muito inferior ao de países em condições bem menos favoráveis que as nossas para o desenvolvimento econômico.
O que essa gramática símia acima está dizendo é que o reconhecido equilíbrio cambial, fiscal e monetário impede o Brasil de crescer mais. Logo, para os valentes do Corecon (esta sigla com nome de remédio anticaspa), para crescer mais, é preciso provocar um desequilíbrio dos fundamentos... Quem sabe uma gastança ainda maior, quem sabe uma inflação maior, quem sabe a centralização do câmbio... Olhem: também tenho críticas à política econômica. Já as fiz aqui. Mas o que vai acima é um desserviço prestado àqueles que possam ter reservas técnicas à política do Banco Central. Se eu fosse Henrique Meirelles, adoraria ter críticos energúmenos como estes. Ademais, quem nomeia o presidente do BC é Luiz Inácio Lula da Silva, não Fábio Giambiagi.

Com base nesse critério, o que se pode afirmar é não terem os quatro economistas desligados do IPEA jamais se colocado firmemente (o que possivelmente seria sua obrigação) contra o conservadorismo alienante do Banco Central traduzido, entre outros fatos, nos altíssimos juros, na sobrevalorização do real e na recusa em intervir na livre movimentação do capital estrangeiro especulativo.”
Obrigação” por quê? Quer dizer que eles são proibidos de estar lotados num órgão do estado e, eventualmente, concordar com a política monetária? O que vai acima é a admissão tácita de que o Ipea pretende ser uma frente avançada de combate à política do Banco Central.

Quanto à posição dos novos dirigentes do IPEA é suficiente referirmo-nos à dois livros recentes de autoria e co-autoria de João Sicsú. Neles vamos encontrar três críticas, baseadas em impecáveis argumentações científicas, quais sejam: a) ao uso, para manter a inflação sob controle, de altíssimos juros, que paralisam a economia, e são desnecessários por existirem instrumentos alternativos, igualmente eficazes; b) a sobrevalorização do real, que está conduzindo a economia brasileira a indesejável especialização em “commodities” agrícolas e industriais e c) a liberdade, e até encorajamento, concedidos ao capital especulativo estrangeiro, o que coloca o Brasil diante do risco permanente de crises cambiais. Com respeito à taxa de câmbio, Sicsú classifica como irresponsável a aceitação de qualquer relação real/dólar inferior a 2,8.
Como a gente vê, Sicsú, sozinho, descobriu o que é bom para o Brasil. Agora dividindo o comando do Ipea com Márcio Pochmann, impõe a linha justa. Seu livro não é mais uma das leituras possíveis da economia brasileira: é uma cartilha.

Ou seja, em termos de posição a favor ou contra a política econômica oficial, é a nova direção do IPEA, e não os quatro pesquisadores dispensados, que deve ser considerada contrária à política econômica oficial, comandada pelo Banco Central.
Então deveria ser demitida segundo os mesmos critérios que levam Pochmann a afastar os quatro economistas dos quais diverge. Eis a lógica dos “economistas” que pretendem substituir os “neoliberais”. Deus me livre! Tentariam nos convencer a tomar sorvete com a testa.

É, finalmente, necessário lembrar que Márcio Pochmann e João Sicsú são unanimemente apontados como desenvolvimentistas e, portanto, visceralmente contrários a uma política econômica que já levou o país à quase três décadas de semi-estagnação.
O problema dessa gente começa na estrutura binária: basta ver como gosta de pôr crase onde não precisa e de tirar de onde precisa. “Três décadas de semi-estagnação” por causa da política econômica, que eles chamam “neoliberal”??? Então vamos ver. Teria sido o “neoliberalismo” o responsável, entre outras coisas:- pela moratória da dívida externa, com Dílson Funaro (neoliberais, vocês sabem, gostam de calote...);- pelo congelamento de preços do Plano Cruzado (neoliberais, vocês, sabem, odeiam o mercado...);- pelo câmbio fixo do Plano Real (vocês sabem: neoliberais não acreditam em flutuações de mercado...).Trata-se de asneira ditada por um misto evidente de burrice com ideologia. Depois reclamam da minha má vontade com sindicalistas e afins, essa gente que se junta em associações profissionais para defender “usdireitcho da catchiguria”. Se for trabalhador pobre, vá lá... Mas por que alguém precisa de um sindicato de economistas? Economista que presta sabe se defender sozinho, não é mesmo?

O CORECON-RJ, o SINDECON e o CED desejam e esperam que o IPEA, sob nova direção, volte a desempenhar sua tarefa básica, por muito tempo esquecida, de comandar definição de estratégia capaz de recolocar o país na trilha do crescimento acelerado.
Assinaturas:
Conselho Regional de Economia do Estado do Rio de Janeiro – Co.R.Econ-RJ
Sindicato dos Economistas do Estado do Rio de Janeiro
Centro de Estudos para o Desenvolvimento
É isso aí. Assinem essa impostura. Que o documento sirva como prova da indigência técnica e política dessa gente.Ah, sim: os valentes acima elegeram Márcio Pochmann o “economista do ano”.
Por Reinaldo Azevedo

Thursday, November 15, 2007

Comuno-fascistóides 1 – Presidente petista o Ipea promove expurgos - Blog do Reinaldo Azevedo - 15/11/07

Por Guilherme Barros, na Folha desta sexta. Volto depois:
Quatro pesquisadores independentes e considerados não alinhados ao atual pensamento econômico do governo foram afastados nesta semana do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), no Rio, pela nova direção do instituto, vinculado ao Núcleo de Assuntos Estratégicos, comandado por Roberto Mangabeira Unger. São eles: Fabio Giambiagi, Otávio Tourinho, Gervásio Rezende e Regis Bonelli. Os dois primeiros, que estavam cedidos pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), foram informados de que seus convênios não seriam renovados no vencimento, em dezembro. Já para os outros dois, que estão no Ipea há 40 anos e faziam trabalhos regulares para o instituto, a alegação foi a de que eles já estavam aposentados.
Procurados pela Folha, por meio de suas assessoria de imprensa, os economistas Marcio Pochmann, presidente do Ipea, e João Sicsú, diretor de Estudos Macroeconômicos do órgão, considerada a mais importante posição do instituto, e que fica instalada no Rio, não se pronunciaram. A assessoria da Ipea confirmou a saída dos quatro pesquisadores, mas deu motivos diferentes dos que foram apurados pela Folha. (...) O ex-deputado Delfim Netto, que comandou a economia no período de 1979 a 1985, durante o regime militar, chegando a ser chamado de superministro, lamentou e criticou a saída dos quatro pesquisados do Ipea. Delfim foi até chamado por Pochmann -e aceitou- para assumir o cargo de conselheiro do Ipea. "Tenho esses profissionais [os quatro pesquisadores afastados] em alta conta. São economistas dedicados à pesquisa, com boa formação acadêmica e trabalhos relevantes prestados à economia brasileira", afirmou o ex-deputado.Assinante lê mais aqui

Voltei
Pochmann foi secretário de Trabalho de Marta Suplicy. Na pasta, produzia mais pesquisas furadas do que Lula produz sandices. É um marqueteiro de mão cheia. Tanto que virou um dos principais fornecedores de estatísticas para Eremildo, o Idiota. E, assim, acabou ganhando a injustificada fama de economista sério.A sua obra mais notável até hoje foi uma pesquisa produzida em 2002 — ele na prefeitura petista, e o governo, é claro, era o de FHC — em que demonstrava, com base em vários dados (sim, sim, claro...) que o Brasil era o segundo país NO MUNDO em número absoluto de desempregados. Isto mesmo que vocês entenderam: o valente fez um ranking de desempregados que considerava OS NÚMEROS ABSOLUTOS NO PLANETA. Segundo Pochmann, Banânia só perdia para a Índia...Não! Ele não excluía de seu levantamento nem mesmo os 25% da humanidade da China. Pochmann foi o primeiro economista a obter dados confiáveis sobre emprego no gigante comunista. Conseguiu atravessar também o cipoal de castas, religiões e culturas na Índia para medir com precisão o que nem o governo daquele país se atreveria a dizer: quantos são os desempregados. Com um pouco mais de senso de oportunidade, teria provado que o Brasil é tão injusto, mas tão injusto, que tem mais milionários do que o milionário Principado de Mônaco...Deram-lhe trela. Ele virou notícia de jornal. Mais: a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a sempre petralha SBPC, achou seu estudo tão bacana, que o mantém em seu site (aqui). Esse cara é hoje o chefão do Ipea.

Tá com medinho, 13?
Curioso Pochmann não falar com a imprensa, justo ele, não é mesmo? Até chegar ao Ipea, ela era a sua principal parceira. Na hora em que tem de dar explicações, foge. A verdade é esta: começou a fase de caça às bruxas, o comuno-fascismo light à moda petista. Vejam o caso dos dois economistas que estavam no órgão há 40 anos. Resistiram à ditadura, à redemocratização, a Collor, a Itamar e a FHC. Mas sucumbiram diante da democracia popular petista.É uma vergonha, um escárnio. Tudo muito próprio de quem assumiu a direção do instituto defendendo o aumento de gastos públicos e a contratação de mais servidores — afinal, ele se quer um “desenvolvimentista”. Conheço economistas, alguns do PT. Não há um único, unzinho só que seja, que o leve a sério. Só jornalistas lhe deram bola. Mas, como se vê, ele não está lá para produzir estudos. Sua função é fazer a depuração ideológica. E, para realizar o serviço sujo, nada como um burocrata medíocre.
Por Reinaldo Azevedo

Monday, November 12, 2007

Do blog do Aguinaldo Silva de 10/11/07

Em 1978, quando a ditadura já seguia em velocidade de cruzeiro e muitos intelectuais de esquerda haviam dado um jeito de mamar de novo nas tetas do governo que supostamente ainda condenavam, eu ganhei o I Prêmio Abril de Jornalismo no gênero “melhor reportagem individual”, com uma matéria intitulada “Pobres Homens de Ouro”.Os Homens de Ouro, se vocês não sabem, era o ovo da serpente do qual nasceu o Esquadrão da Morte e seus afiliados da época, todos de sinistra memória. Então, aos olhos de todos, inclusive os meus, os mocinhos (ou seja, a polícia) eram os bandidos.
Esse foi um cacoete que adquirimos naqueles tempos difíceis, e do qual muitos não se livraram até hoje: para estes, a polícia não presta. E os bandidos, mesmo aquele psicopata sedento de sangue do ônibus 174, são apenas heróis românticos, justiceiros dispostos a expropriar o que lhes pertence e que nós, a chamada “elite”, lhes roubamos, porque temos o atrevimento de trabalhar e ganhar dinheiro.Naquela época, os Homens de Ouro, que eram sete e incluíam o famoso Mariel Mariscot, era o que havia de mais temível. Ao escrever sobre eles, e mostrar como eles progrediram na vida através do terror e da mão grande, eu fui premiado, mas causei preocupação aos amigos, que me perguntavam a toda hora: “você não tem medo?” Eu tinha. Então eu era – desculpem a falta de modéstia – uma das “estrelas” dos jornais alternativos Opinião e Movimento, para os quais fazia matérias semanaisMuitas vezes eu saía de madrugada de minha casa no então ameno bairro de Santa Teresa para entregar meus textos na redação dos jornais no Jardim Botânico. E enquanto atravessava a Rua das Laranjeiras, o Cosme Velho e o Túnel Rebouças no meu Fusca, tinha a nítida sensação de que estava sendo seguido. Em geral estava. Mas as ameaças nunca passavam disso.Então eu já tinha sido preso (fiquei 70 dias na Ilha das Flores, 45 dos quais incomunicável), e também fui processado três vezes, sempre por delitos de opinião, que permitiam ao então Ministro da Justiça, o dr. Armando “no coments” Falcão, me enquadrar na Lei de Imprensa.Podia, por causa da prisão e dos processos, ter pedido indenização ao governo atual, como fizeram muitos. Mas não acho que o povo tenha que pagar pelos agravos que sofri em virtude de minhas convicções políticas. Por isso prefiro viver às minhas próprias custas. E se tem alguma coisa da qual vou me orgulhar na hora da morte é de sempre ter vivido do meu trabalho e jamais ter mamado nas tetas de nenhum governo.Sim, na época eu tinha medo. Mas por mais sangrenta que fosse a ditadura, as aflições que então sofríamos por causa disso não tinham tanto peso quanto têm as aflições de hoje, quando somos supostamente livres. É que na época os militares até podiam impor arbitrariamente sua vontade. Mas pelo menos não eram fundamentalistas, não achavam que tinham a missão divina de reorganizar e assim salvar o mundo. E agora...Agora os que não concordam com o que está aí também sentem medo. E são seguidos na calada da noite. E são ameaçados. E têm suas contas bancárias secretamente devassadas. E recebem telefonemas sinistros disparados de celulares com IDs privados. E morrem sim, porque alguns, como aquele prefeito lá de Santo André, são mortos nunca se sabe porquê nem como.Digo a vocês sem maiores rodeios. Neste momento eu sinto medo, e tenho sérias razões pra isso. A julgar pelo que dizem os telefonemas disparados dos tais celulares com IDs privados, por motivos alheios à minha vontade posso até nem terminar a novela DUAS CARAS, que tanta discussão está gerando.Mas fica o aviso: se eu parar não será por minha própria vontade. E embora, no final de contas, o que eu faço seja “apenas Chinatown”, ou seja, uma novela, se eu não puder terminá-la porque amanheci, como dizem os tais telefonemas: “com a boca cheia de formigas”, espero que um dia Mamãe História se pronuncie e alguém venha a ser responsabilizado por isso.Mas não se preocupem. Isso ainda não é uma despedida. Até o próximo texto!

Friday, November 09, 2007

Atentai, jornalistas, para Mexilhão! - Blog do Reinaldo Azevedo - 09/11/07

Vocês querem ver como são as coisas?

Em setembro de 2003, a Petrobras anunciou a descoberta de um campo gigantesco de gás em Santos: Mexilhão. Era a nossa redenção. Estamos no fim de 2007. Até agora, não se tirou de Mexilhão gás para produzir um pum. Querem um bom divertimento? Façam uma pesquisa na Internet sobre o palavrório a respeito. Se gogó movesse turbina, o Brasil seria mesmo uma potência mundial.

No dia 13 de junho de 2005, informava o jornal Valor Econômico:

“Na reunião com a Fiesp, Dilma [Rousseff] também informou que a Petrobras deverá focar seu objetivo na antecipação de 2009 para 2007 da produção de gás do campo de Mexilhão, na Bacia de Santos, disponibilizando 12 milhões de metros cúbicos diários do insumo; e de outros 10 milhões de metros cúbicos por dia da Bacia do Espírito Santo também em 2007, segundo informação do presidente da Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy, que participou da reunião.”

Viram só? Aconteceu? Não! Os investidores reclamavam e continuam reclamando da falta de clareza dos marcos regulatórios.

Uma fonte da empresa, na mesma reportagem, era menos otimista do que a ministra: "'A previsão para Mexilhão entrar em operação é junho de 2008 e esse será o projeto mais rápido a entrar em operação na história da Petrobras. Não é possível antecipar Mexilhão para 2007, porque vamos precisar de uma unidade de processamento de gás natural com capacidade para processar 12 a 15 milhões de metros cúbicos por dia, da plataforma e precisamos fazer os contratos. Tudo isso toma tempo', explicou a fonte da estatal.

"Entendo...

Em 26 de julho de 2006, 13 meses depois da fala da Dilma, noticiava a Folha On Line: “O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli de Azevedo, anunciou a aprovação do estudo de viabilidade técnico-econômica do pólo de gás de Mexilhão, um dos cinco complexos de produção a serem implantados na Bacia de Santos”. Epa! A reserva foi descoberta em 2003; em 2005, a ministra anunciou gás para 2007, mas o estudo sobre a viabilidade só ficou pronto em junho de 2006? Ah, claro, no mesmo texto, informava o presidente da Petrobras: “O projeto do pólo de Mexilhão, orçado em US$ 2 bilhões (R$ 4,3 bilhões), prevê a produção diária de 8 a 9 milhões de metros cúbicos de gás no primeiro semestre de 2009. Já sua capacidade máxima deve ser atingida em 2011, quando serão produzidos até 15 milhões de metros cúbicos de gás”

Vocês leram direito. Um campo descoberto em 2003, anunciado também com aquela paixão inaugural do lulismo, só vai produzir plenamente, se produzir, oito anos depois — em 2011. Um especialista da área me conta que Mexilhão está atrasado.
Se é assim com um campo de gás, imaginem como será com o petróleo, dadas as dificuldades lembradas pela própria Petrobras e a necessidade de criação de uma tecnologia específica. O caso de Mexilhão é exemplar. Tudo tivesse se dado conforme o anúncio oficial, o país não estaria hoje rezando para não faltar chuva — já que a crise do gás é, de fato, uma crise do setor elétrico.

Como diria Mão Santa, “atentai, jornalistas, para Mexilhão”.

Os pauteiros podem fingir que nada disso existe, claro. Podem fingir que o que os seus próprios veículos escreveram jamais foi escrito.

Por Reinaldo Azevedo

Como requentar uma notícia velha, influenciar pessoas e até fazer fortunas - Blog Reinaldo Azevedo 09/11/07

É evidente que o governo deu um jeito ontem de trazer o futuro a valor presente, anunciando até mesmo o ingresso futuro do país no grupo dos exportadores de petróleo. Reitero: tomara que se encontre mesmo todo o petróleo e todo gás que se anunciam e que eles sejam queimados aqui, pelo crescimento da economia brasileira. Exportar petróleo, por si mesmo, não é grande vantagem. Os EUA, por exemplo, são importadores. Tudo confirmado, a notícia é boa?

O mais fantástico do que se viu ontem — uma operação gigantesca de publicidade, que agitou o mercado financeiro — é que a notícia é, pasmem! VELHA. O que não quer dizer que não seja boa. Leiam reportagem de Sabrina Lorenzi na Gazeta Mercantil de 6/09/2005 — há mais de dois anos. Volto em seguida:
*
O grande desafio da Petrobras agora é extrair o óleo a 6.000 metros de profundidade. A ousadia de ir mais fundo rendeu à Petrobras o que deverá se tornar a mais valiosa reserva de petróleo e gás já encontrada. A estatal encontrou óleo leve — de excelente qualidade — a 6.000 metros de profundidade, na Bacia de Santos, numa prévia da jazida gigante que avista.

O gerente- executivo de exploração e produção da estatal, Francisco Nepomucemo, revela a expectativa que a companhia vive após a descoberta. "É uma nova província petrolífera no Brasil. Não está concluído o poço; vamos perfurar mais para fazer o teste de produtividade (volume) do óleo e confirmar a existência de um reservatório", comemora com cautela. Ele prefere não falar em quantidade antes dos testes de confirmação, mas admite que pode ser volume suficiente para revolucionar os planos da estatal.

"Só digo que, confirmando a descoberta e a produtividade dessa área, aumenta muito o potencial petrolífero da Bacia de Santos. É o grande potencial do Brasil hoje", disse. Há uma semana, a Petrobras comunicou ao mercado a descoberta de indícios de hidrocarbonetos no seu poço mais profundo, no bloco BM-S-10 a 6,4 mil metros de profundidade, na Bacia de Santos. O poço RJ-S-61 fica na frente de Paraty, no Rio, divisa com São Paulo. A Petrobras é a principal detentora do bloco (65%), junto com a Partex (10%) e BG (25%).

Descoberta província de petróleo
Santos deverá se transformar na principal opção ao esgotamento da Bacia de Campos. As companhias notificaram a descoberta no dia 21 de agosto à Agência Nacional do Petróleo (ANP). "Se a gente descobre gás e óleo leve nesse horizonte, toda a área em volta fica com esse potencial", acrescenta Nepomuceno.

Confirmadas as expectativas de reservas gigantes de petróleo leve em águas ultraprofundas, Santos passa a ser a principal opção da estatal ao esgotamento dos atuais campos da Bacia de Campos. Mais perto do mercado consumidor, com óleo de excelente qualidade e gás, a região possui, até então, reservas da ordem de 2,5 bilhões de barris (com o gás do campo de Mexilhão (BS-400) e o óleo leve do BS-500).

Nova fronteira
Analistas especulavam, até então, a existência de uma bacia petrolífera debaixo da Bacia de Campos. Para Nepomucemo, é mais provável que em Santos - e não em Campos - exista uma nova fronteira com tamanho potencial. Na Bacia de Santos, uma camada de sal com metros e metros de espessura separa os reservatórios de petróleo e gás das rochas e do material orgânico que geram os hidrocarbonetos. A crosta de sal, situada a cerca de seis mil metros, "prendeu" o óleo e o impediu de subir, ao contrário do que aconteceu na área da Bacia de Campos.

Na Bacia de Campos, essa crosta de sal se rompeu durante a formação de montanhas como a Serra do Mar. A abertura da camada de sal em buracos chamados de janelas permitiu a constituição de importantes campos de petróleo como Marlim, Roncador, Marlim Sul, Albacora, localizados a dois mil metros de profundidade. Na Bacia de Santos, o petróleo e o gás ficaram presos a seis mil metros, suscetíveis a elevada temperatura e pressão.
A íntegra da reportagem está publicada, diga-se, no site do Ministério do Planejamento (clique aqui).

Voltei
Pode-se argumentar que a novidade de ontem, então, foi o dimensionamento da reserva, já que se sabia da existência do petróleo leve abaixo da tal camada de sal? Mais ou menos, não é? O que a Petrobras forneceu nesta quinta foi uma estimativa. Observem que se passaram mais de dois anos entre uma notícia e outra, e não se tem uma informação essencialmente diferente. De lá para cá, foram se fazendo testes. Isso dá uma idéia do tempo de maturação do projeto. É emblemático que o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, estivesse ontem ao lado da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Movia o tempo todo a cabeça, um tanto frenético para seu estilo mais comedido. A operação estava sendo muito bem-sucedida. Era orgulho.

Para se ter uma idéia: estima-se que a operação comercial do primeiro campo na região só comece em 2011 — e, ainda assim, para testar a sua viabilidade. Tudo dando certo, a exploração pra valer só ali por 2013, 2014. Daí que Lula vá se encontrar hoje com Evo Moraes para saber como pode investir mais na Bolívia. A Petrobras explora petróleo a, no máximo, 2.700 metros. O óleo que foi encontrado está numa profundidade entre 4.500 e 7.000 metros. A própria empresa informa que o desenvolvimento de um campo, mesmo em profundidades menores, que produz 150 mil/barris dia custa US$ 1,2 bilhão. Para extrair esse óleo mais profundo, gasta-se muito mais. Quanto? Ninguém sabe. No mínimo, o triplo, dizem alguns especialistas. Vai ser preciso ir atrás de muito investimento e de tecnologia.

É claro que há, por enquanto, incertezas demais para um mercado tão animado. A CVM deveria, quando menos, avaliar se estamos diante de um caso de euforia típica. Quem conhece a área afirma que não havia a menor razão para o estardalhaço de ontem. Não porque inexista o petróleo. Mas não se sabe agora muito mais do que se sabia em 2005. Há quem fale até em 20 bilhões de barris caso se expanda a área. Acontece que o governo jogou para sair do escanteio em que estava com a chamada crise do gás — que, notem bem, está no lugar onde estava. A Petrobras também buscou limpar a sua barra, um tanto tisnada pela questão.

É claro que eu quero que tenha muito petróleo lá, à diferença do que a petralhada anda dizendo por aqui. O que não aprovo, já disse, é a empulhação, a marquetagem. De resto, não estou tirando mérito nenhum do PT — a menos que o partido tenha comprado a Petrobras. Que eu saiba, ele só aparelha a empresa. Ademais, se o petróleo “tupi” começar a jorrar timidamente só em 2011 e, para valer, só a partir de 2013, a hipótese feliz é a de que Lula já esteja bem longe do Planalto.

Por Reinaldo Azevedo

Thursday, November 01, 2007

Caco Barcelos e os cacos do humanismo. Ou: "Ele quer presunto de primeira" - Blog do Reinaldo Azevedo - 01/11/07

Se um dia um esquerdista fosse desidratado, liofilizado, para, eventualmente, só ganhar corpo na hora do consumo, como essas sopas que se vendem em supermercado, ele ficaria com a cara e o jeito de Caco Barcelos, o repórter da TV Globo, também um tanto metido a orientador dos moços, com seus “jovens repórteres”. Ele concede uma entrevista à revista VIP que tem momentos verdadeiramente asquerosos. O bom-mocismo de Barcelos é só um biombo onde se esconde a mistificação — e, às vezes, a mentira descarada.

Mas ele não está sozinho. A entrevista, conduzida por Claúdia de Castro, está mais para uma ação entre amigos. Não importa o que o entrevistado diga, ela concede e, às vezes, reforça. No bate-papo entre ambos, as contradições são sempre alheias. Sim, é a fala de quem fez carreira demonizando a polícia. Noto ainda que Barcelos é convocado a falar num movimento bem maior: os “descolados”, sempre atentos ao que o “povo” deseja, decidiram, desta vez, que ele está errado. O vulgo acerta quando elege Lula, mas erra quando aprova Tropa de Elite. Vocês sabem: desde Stálin, o povo precisa é de um guia genial que lhe diga o que fazer. Seguem trechos da entrevista em vermelho, com intervenções minhas em azul.

VOCÊ ASSISTIU A TROPA DE ELITE?
Ainda não consegui ver inteiro. Mas vi uns pedaços e estou acompanhando a repercussão.E ESTÁ ACHANDO O QUÊ?
Acho interessante que as pessoas estejam falando sobre isso. Houve um tempo em que o país não discutia mais sobre segurança pública. Acho interessante que todo mundo tenha uma opinião a respeito disso. Mas a minha preocupação é no sentido de estarem enxergando o personagem central (Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura) como um herói. E também me preocupo com o fato de ninguém ter discutido ainda as mortes provocadas pelo Bope (Batalhão de Operações da Polícia Especial do Rio de Janeiro). Muito está se falando sobre os métodos de atuação da polícia, sobre as torturas, o que é gravíssimo. Mas ninguém fala o essencial, que é a matança provocada pela polícia nessa área pobre da cidade. Como é o Bope quando atua no Leblon, em Ipanema? Usam aquele saco plástico na cabeça de alguém? Você conhece algum rico que foi morto pelo Bope?NÃO, NUNCA OUVI FALAR.
Pois é. Em 30 anos de jornalismo, eu também nunca ouvi uma história assim. Nunca ouvi uma história sobre algum rico criminoso que tivesse sido morto por essa unidade especial da polícia. Se omitirmos esse dado, a discussão não é honesta. Veja que Tropa de Elite é um filme de ficção, o diretor tem toda a liberdade para tratar do que quiser na obra dele. Não quero que pareça que estou fazendo uma crítica ao filme. Mas é triste saber que a sociedade está escolhendo um matador para herói.
Trata-se de um juízo delinqüente, compartilhado docemente pelos dois jornalistas. Se o Bope também matasse ricos, supõe-se que a sua atuação estaria, então, marcada por certo equilíbrio, por certo senso de justiça. Observem que o norte moral, então, não está em matar ou não matar, mas na conta bancária do morto. É uma avaliação nojenta. Mais: a ação do Bope é especialmente voltada para o crime que se incrustou nas favelas. Na formulação de Barcelos e de sua entrevistadora, não existe diferença entre “pobre” e “traficante”.

E O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ESSA SOCIEDADE?
Isso é muito antigo. A verdade é que as autoridades nunca utilizaram no Brasil o que há de mais inteligente e democrático na política de segurança pública. Muito se criticam os direitos humanos, as ONGs, mas nunca nenhuma das idéias, das propostas das pessoas que querem que as pessoas sejam respeitadas independentemente de sua condição econômica foram aplicadas. Desde o Brasil colônia, a polícia está aí para defender os interesses dos mais endinheirados. Desde sempre a sociedade legitimou ações brutais contra aqueles desprovidos de poder, seja econômico, seja político, aqueles desprovidos de cidadania. Se a brutalidade fosse interessante, a Rota já teria transformado São Paulo em um paraíso.
Eis aí. É a tese de que a polícia só está a serviço do arranca-rabo de classes. Sempre que ela atua, é contra os pobres. São Paulo não é um paraíso, mas se mata no estado quase um terço do que se mata no resto do país, um quarto do que se mata no Rio, um quinto do que mata em Pernambuco. Os esquerdistas não vão reconhecer isso jamais, não é? Ah, sim: não “está a acontecer” nada de errado com esta sociedade, moça. Ela apenas se cansou da conivência entre o pensamento politicamente correto e os bandidos.

O QUE MUDOU ENTRE ROTA 66 E TROPA DE ELITE?
Muita coisa. A Rota fez escola, o Bope. Mas tem anos que a polícia de São Paulo mata muito menos. Eram 1 500 pessoas em 1992, quando lancei o livro. Esse número baixou para 300. Mas a criminalidade de São Paulo não se alterou. Na verdade, a única coisa que mudou foi a redução no número de homicídios. É óbvio que, quando a polícia mata menos, a sociedade fica menos violenta. Em São Paulo, mais de 10% dos crimes de homicídio são praticados pela polícia. No Rio, esse número é mais alto, mais de 20%. Bastaria uma ação pública eficaz para que houvesse a redução do crime mais grave, que é o crime de morte.
Trata-se de uma mentira deslavada. O número de homicídios em São Paulo caiu quase 70% em oito anos. E não porque a policia mate menos, mas porque há mais homicidas na cadeia. Por que Barcelos não reconhece? Lanço duas hipóteses que se combinam: a) porque não vai reconhecer méritos nos que considera seus inimigos: os policiais; b) porque precisa manter o mercado mental da violência para poder vender os seus produtos ideológicos.

EXISTE DIFERENÇA ENTRE AS POLÍCIAS MILITARES DE SÃO PAULO E DO RIO?Nenhuma. Por que, por exemplo, a Polícia Federal, que é bem treinada, bem remunerada e trabalha com inteligência, não precisa provocar sequer um arranhão em uma pessoa? Elas têm seus direitos respeitados. É o mesmo país, a mesma realidade e essa polícia é eficaz. A brutalidade é incoerente. Mas investigação dá trabalho...
Mistificação! Fraude intelectual! A Polícia Federal não sobe morro, não vai à periferia, onde se acoita o criminoso que atira, a esmo, para matar. Para que a comparação de Barcelos, aceita bovinamente pela interlocutora, fizesse algum sentido, seria preciso que ela passasse a atuar nas mesmas praças onde atuam as PMs e a polícias civis do Rio ou de São Paulo, por exemplo. Tenho uma outra questão para Barcelos e sua entrevistadora: das pessoas presas pela PF, quantas estão em cana? Ao afirmar que “investigar dá trabalho”, ele faz tábula rasa das polícias boa e má. A propósito: impedir a entrada de armas no país é tarefa da PF. E ela não cumpre. Bem como reprimir a entrada de drogas, já que o Brasil não produz cocaína. Como a PF, de que Barcelos tanto gosta, trabalha mal, sobra serviço para as outras polícias, que ele tanto detesta. Desafio-o a provar que estou errado.(...)

VOCÊ FREQÜENTOU DURANTE MUITO TEMPO AS FAVELAS DO RIO PARA ESCREVER ABUSADO. COMO A COMUNIDADE VÊ A POLÍCIA MILITAR?
De forma geral, a Polícia Militar do Rio de Janeiro representa o autoritarismo sem autoridade. As pessoas não têm seus direitos mínimos respeitados nas ações dos policiais nos morros. A violência está dos dois lados na favela, claro: na polícia e no tráfico. Essa história é uma loucura. Um tiro de fuzil é capaz de atravessar sete barracos de alvenaria. E atrás de traficante pode ter uma criança de 5 anos, uma senhora de 80. Mas para as autoridades quem mora no morro é bandido. E é evidente que não é assim, a maioria é formada por trabalhadores. E são todos bem informados. A sociedade não é partida como se diz. É partida só para os bacanas.
COMO ASSIM?
Quem é pobre e mora no morro tem duas vias. Ele desce para trabalhar. A gente que não sobe lá nunca para ver o que acontece, como deveríamos fazer. Conversei muito com os traficantes: quase todos têm a mãe empregada doméstica, o pai porteiro. Eles conhecem bem a vida na zona sul. No trabalho deles, dentro da casa dos bacanas, eles nunca viram a polícia agir da mesma forma. Um médico quando não emite nota fiscal numa consulta está roubando não só de uma pessoa, está roubando de todo mundo. É um crime gravíssimo. Por que o Bope não invade o consultório para ouvir uma confissão do médico que está sonegando? Fica esta pergunta: “Por que é legítimo agir com brutalidade em uma parteda cidade, não por coincidência onde estão os mais pobres, e não agir da mesma forma onde estão os ricos”?
Demagogia barata. Quem deve autuar o médico e atuar, então, para mandá-lo para a cadeia é a Receita Federal. Na formulação de Barcelos, jamais a Polícia subiria o morro enquanto houvesse um sonegador no asfalto. Por mais que pareça simpático comparar um sonegador a um traficante, são crimes que se combatem de forma diferente. Aqui, na Suécia ou em Cuba — quer dizer, em Cuba, não, porque, lá, o sonegador, o traficante e a polícia são todos uma homem só...(...)

A COMUNIDADE TEME MAIS A POLÍCIA DO QUE OS TRAFICANTES?
O que eles se queixam muito é da morte de inocentes, da criança de 9 anos, do jovem, gente potencialmente não envolvida com o tráfico. Digo potencialmente porque as ações não são feitas com pesquisa. É aleatório. “Eu acho que é aquele ali.” Agora, acreditar que uma criança de 5 anos está envolvida com isso? Eu prefiro não. Prefiro acreditar que as pessoassão inocentes até que se prove o contrário.
“Comunidade” é o escambau!!! Comunidade é linguagem de traficante adotada por jornalistas. Existem indivíduos nas favelas. A maioria formada de trabalhadores. Uma minoria, de traficantes. A pergunta também é truque. A essa altura da conversa, a resposta era óbvia. E quem é que defende que crianças de 5 anos sejam atingidas pela polícia? Barcelos é o Robert Fisk (pesquisar) dos pobres. De tanto “cobrir” o conflito, apaixonou-se pelos criminosos. Procure um miserável texto de Fisk em que os israelenses sejam vítimas. Nunca! Vítimas são apenas os terroristas palestinos, que lhe fornecem a versão dos fatos. Assim como Barcelos trabalha com a versão do tráfico. O Hamas e o Hazbollah usam crianças como escudo. Os traficantes brasileiros também.


QUAL SUA POSIÇÃO NA QUESTÃO DA LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS?
Não tenho opinião. Eu sou a favor de que as pessoas discutam isso. O quadro como está é muito ruim, e não discutir o problema é defendê-lo, é desejar a permanência dessa situação. Isso tem de ser discutido sem hipocrisia. Pessoas de todas as camadas sociais são usuárias de drogas, as ilegais e as legais. Há drogas legais que causam mais danos que as ilegais. É uma mudança complexa, que envolve questões bilaterais. Nossa discussão tinha de começar pela cachaça. É uma droga legal. E mata.
É a falácia de sempre. É claro que ele não quer criminalizar a cachaça, mas descriminar a droga.

UMA DAS CENAS DE TROPA DE ELITE MOSTRA O CAPITÃO NASCIMENTO ESFREGANDO O ROSTO DE UM RAPAZ NO CADÁVER QUE ELES HAVIAM ACABADO DE MATAR. E DIZENDO QUE O CULPADO POR AQUILO ERA O RAPAZ, O MACONHEIRO.?
O culpado pela morte é quem mata. Parece soldado americano falando no Iraque: “Te mato porque quero seu petróleo, você é culpado por sua morte”.
Em primeiro lugar, o culpado é o maconheiro. Já o juízo de Barcelos sobre a guerra do Iraque é só ignorância misturada com ideologia. Comecemos pelo fato óbvio de que a maioria dos iraquianos mortos é obra de... iraquianos, não de americanos. Mas aqui o homem é pego no pulo. Ele foi feito refém dos sandinistas na revolução da Nicarágua. Como foi posto pra suar pelos comunas, reparem na sua resposta quando trata do assunto.
(...)

VOCÊ JÁ FOI REFÉM DE SANDINISTAS, FOI DADO COMO DESAPARECIDO EM UMA SELVA BOLIVIANA, FOI AMEAÇADO DEPOIS DE ESCREVER LIVROS. EM ALGUMA SITUAÇÃO VOCÊ PENSOU REALMENTE: “AGORA DANOU-SE”?
Teve uma situação na Nicarágua, durante a guerra (Caco cobriu a vitória dos sandinistas em 1979). Eu estava sozinho, perto de franco-atiradores. Para eles, o alvo era qualquer um. O cara me localizou da torre de uma igreja. Foi um horror aquilo ali, eu me arrastando pelo chão, fugindo das balas. Não sabia nem de onde vinham os tiros. Era curioso. Eles atiram sem nenhum motivo, nem tinham idéia de quem eu era, se eu era um guerrilheiro, podia ser também um franco-atirador sandinista. Foi muito estúpido. Mas guerra é assim.
Viram só? Os americanos são dolosos. Já os sandinistas apenas se vergaram à lógica da guerra. Ele prefere não criticar.
(...)
AGORA VOCÊ TRABALHA COM UMA TURMA NOVA NO JORNALISMO. COMO É ESSA EXPERIÊNCIA?
É um pessoal que, embora em começo de carreira, está revelando uma paixão muito grande pela reportagem. Eu sempre achei que as histórias ficam muito mais atraentes quando seguem o caminho da reportagem. É legal oferecer para o telespectador as ações comoprovas de que as coisas que estamos falando são verdadeiras. A reportagem oferece a possibilidade de acompanhar as histórias, ouvir todos os lados.
Considero esse papo um pouco enjoado. Olhem aqui: fiz reportagens algumas raríssimas vezes. Não chega a ser assim tão difícil. Opinar é bem mais complicado — embora, claro, pese sobre quem vive disso a acusação de que não tira o traseiro da cadeira. Que eu saiba, nao se pensa com os pés ou com o traseiro. Há muita mistificação sobre a reportagem — obviamente essencial no jornalismo. A maior delas é a de que tem um compromisso essencial com a neutralidade, com a imparcialidade. Besteira! Expressa uma opinião, um ponto de vista, como qualquer outro texto. A rigor, pode ser até mais manipuladora. Afinal, de uma opinião, as pessoas se defendem com mais facilidade. E, claro, também pode ser exemplarmente honesta. Então Barcelos não venha com essa conversinha de “o” repórter que conta apenas aquilo que vê.

A sua entrevista evidencia que ele tem um jeito muito particular de ver o mundo, o que, é claro, vai parar no seu trabalho. Vocês não precisam acreditar em mim. Leiam a íntegra da entrevista aqui se quiserem. Observem que entrevistado e entrevistadora, em nenhum momento, voltam o dedo acusador para os bandidos e o narcotráfico. Estão unidos no combate a um inimigo: a polícia — e, secundariamente, é indisfarçável, o filme Tropa de Elite.

A entrevista é parte da ação encetada pelos reacionários. O morro mental no Brasil estava ocupado pelos traficantes de “direitos humanos”, ainda que isso significasse manter a população refém dos bandidos, pobres “vítimas” das perversidades do capital. Quem sabe a polícia leia Caco Barcelos e passe a dar uns pitocos em alguns ricaços... Aí se fará, então, justiça de classe ao menos, certo? O corolário de sua entrevista, não adianta negar, é óbvio: com alguns ricos mortos pela Polícia, haverá um pouco mais de justiça.

PS: A VIP publicava ensaios de algumas gostosas, não? Publica ainda? Faz muito tempo que não leio. Bem, sempre será melhor uma mulher pelada do que Caco Barcelos a nu.
Por Reinaldo Azevedo

A crise do gás, a estabilidade triste e a falta de imaginação - Blog do Reinaldo Azevedo - 01/11/07

“O Brasil enfrentará nos próximos anos, segundo o economista José Roberto Mendonça de Barros, um sério problema de energia. ‘Hoje, 100% dos analistas privados vêem novo problema de energia já em 2009.’ Segundo ele, há quatro anos não é iniciada no País nenhuma hidrelétrica de porte. A restrição de energia no horizonte leva os empresários a ter dúvidas na hora de investir. ‘Um apagão ou um forte aumento da energia é a mesma coisa. Eu não tenho dúvida de que o preço vai subir.’ Mendonça de Barros chama a atenção também para os crescentes investimentos de brasileiros no exterior, que, na sua avaliação, estão sendo estimulados pela sobrevalorização do real e por condições microeconômicas desfavoráveis no Brasil."

Acima, vai um post do dia 5 de novembro de 2006, que faz referência ao que falara ao Estadão o economista José Roberto Mendonça de Barros. E, daquele dia a esta data, já faz um ano, os especialistas são unânimes em afirmar, nada mudou. Vejam aí: o ritmo um pouco mais acelerado do crescimento econômico — e estamos falando de modestos 5% (modestos na comparação com os pares emergentes), não de 8% ou 9% — acenou com um risco, ainda que não iminente, de desabastecimento. A Petrobras foi obrigada a fazer uma escolha: cortou o gás dos consumidores para poder abastecer as termelétricas. Como sempre acontece nesse caso, a Justiça foi acionada, a empresa vai recorrer... Observem: a coisa já deixou o território da economia.

Acho que isso seria menos grave se tivéssemos um governo menos falastrão — e, sei, os petralhas virão em coro: “E o apagão de 2001?”. Sim, houve o apagão de 2001, e o governo FHC pagou por ele nas urnas, não é? O fato é que Lula tem uma conjuntura externa formidável, maioria folgada no Congresso, popularidade alta e uma estabilidade meio marreta, mas tem. O que impede o governo de fazer deslanchar os investimentos no setor de energia? A competência. Escrevi: “Seria menos grave se o governo fosse menos falastrão”. Por quê? Porque seria menos autoconfiante e ouviria um pouco mais.

Se vocês se lembram, o eixo do PAC — refiro-me aquele grandão, o PACão, pai, dos “paquitos” — era justamente o investimento em energia. Daquela data até agora, perguntem quantos passos foram dados: nenhum! Entre os especialistas, é consenso: no ritmo em que cresce a oferta de energia, o país estará proibido de continuar a crescer 5% — o que não dizer de um crescimento maior?... A Petrobras pode dar o nome que quiser ao que fez, e será sempre um apelido: está racionando gás, sim. E raciona porque as termelétricas vão socorrer as hidrelétricas em razão da pouca água nos reservatórios.

Estamos, de novo, como os macaquinhos imprudentes. A diferença é que eles torciam para não chover, já que não haviam feito suas casas. E nós vamos ter de torcer para chover. Numa reportagem na Folha de hoje, lê-se: “Problemas na Argentina, na Bolívia e um redimensionamento da capacidade de geração de energia em térmicas de gás natural no Brasil fizeram com que a oferta de energia firme -ou seja, com a qual se pode contar- prevista para 2008 fosse reduzida de 57 mil MW médios para 50,9 mil MW médios. ‘Devido a problemas no gás natural, num intervalo de dois anos [2005 a 2007] a oferta firme de geração do Brasil foi reduzida em 12%. Poucos países resistiriam a isso’”. A observação é de Cláudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, que representa investidores privados em energia.

A auto-suficiência prepotente do governo não é auto-suficência energética, não é? No dia 3 de dezembro do ano passado, informava uma reportagem de Renée Pereira, no Estadão:

Os planos do presidente Lula de elevar o crescimento do País para níveis superiores a 5% ao ano a partir de 2007 podem ir por água abaixo se ele não conseguir deslanchar os investimentos na área de energia. Coincidentemente, a iminência de uma nova crise elétrica ocorre no segundo mandato de Lula, a exemplo do que ocorreu em 2001, na administração de Fernando Henrique Cardoso.
Até agora, segundo especialistas, o que tem jogado a favor da oferta de energia no País é o tímido avanço da economia, abaixo de 3% ao ano. Se o País começar a crescer acima de 5% ao ano, o setor elétrico não deve suportar muito tempo. De acordo com dados da Gásenergy, os riscos de déficit estarão acima dos 5% tolerados a partir do ano que vem, em algumas regiões do País.
“Como consumidor, estou preocupado com a situação. Se crescermos 4% ou 5%, o apagão chega mais perto”, enfatiza Mario Cilento, presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), cujas associados representam 25% do PIB brasileiro.
Na avaliação de Gorete Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), além da falta de gás para abastecer as térmicas, há outras questões que aumentam o risco de déficit do País. Um deles é exatamente o argumento do governo de que as distribuidoras estão 100% contratadas até 2010.

Maiores esclarecimentos, com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), braço operativo do governo, especialista na área, ex-ministra do setor. Até agora, de suas ações, não saiu um miserável quilowatt a mais de energia. Mas ela já é considerada peça central da sucessão em 2010 em razão de suas virtudes visionárias.

Ah, sim: ainda bem que o governo Lula, embora se descuide do setor energético, toca todo o resto com competência e presteza: reforma tributária, reforma trabalhista, reforma do Judiciário... Observem: fora do equilíbrio macroeconômico, um conservadorismo meio tristinho, não há nada. Assim, não chega a ser surpreendente que o país apareça em 72º lugar num ranking de competitividade elaborado pelo Fórum Econômico Mundial que inclui 131 países. Caiu seis posições. Os motivos? Burocracia, ineficiência dos gastos públicos, carga tributária excessiva e juros elevados.

Há dados muito interessantes. Quando os 11 mil executivos que votaram foram convidados a avaliar a sofisticação empresarial, o Brasil ficou em 39º lugar. Nada formidável, mas no primeiro terço do grupo. Já quando opinaram sobre a eficiência dos gastos públicos, ficamos a quatro posições do último lugar: no 127º. E tem mais: conforme se lê na Folha de hoje, “a qualidade da educação primária está em 120º — há somente 11 países mais deficientes nesse quesito —, e o sistema legal complexo e ineficiente garantiu o 105º posto neste indicador.”

É isso aí. É preciso muito mais do que a “estabilidade” que aí está. Ela já chegou a significar alguma “ousadia” do PT. Hoje, é pura falta de imaginação. Entenda-se por “imaginação” não a feitiçaria econômica, mas o procura de caminhos políticos para fazer as reformas. Não! Elas não serão feitas. Porque, para fazê-las, é preciso, sim, ter um projeto.
Por Reinaldo Azevedo