É evidente que o governo deu um jeito ontem de trazer o futuro a valor presente, anunciando até mesmo o ingresso futuro do país no grupo dos exportadores de petróleo. Reitero: tomara que se encontre mesmo todo o petróleo e todo gás que se anunciam e que eles sejam queimados aqui, pelo crescimento da economia brasileira. Exportar petróleo, por si mesmo, não é grande vantagem. Os EUA, por exemplo, são importadores. Tudo confirmado, a notícia é boa?
O mais fantástico do que se viu ontem — uma operação gigantesca de publicidade, que agitou o mercado financeiro — é que a notícia é, pasmem! VELHA. O que não quer dizer que não seja boa. Leiam reportagem de Sabrina Lorenzi na Gazeta Mercantil de 6/09/2005 — há mais de dois anos. Volto em seguida:
*
O grande desafio da Petrobras agora é extrair o óleo a 6.000 metros de profundidade. A ousadia de ir mais fundo rendeu à Petrobras o que deverá se tornar a mais valiosa reserva de petróleo e gás já encontrada. A estatal encontrou óleo leve — de excelente qualidade — a 6.000 metros de profundidade, na Bacia de Santos, numa prévia da jazida gigante que avista.
O gerente- executivo de exploração e produção da estatal, Francisco Nepomucemo, revela a expectativa que a companhia vive após a descoberta. "É uma nova província petrolífera no Brasil. Não está concluído o poço; vamos perfurar mais para fazer o teste de produtividade (volume) do óleo e confirmar a existência de um reservatório", comemora com cautela. Ele prefere não falar em quantidade antes dos testes de confirmação, mas admite que pode ser volume suficiente para revolucionar os planos da estatal.
"Só digo que, confirmando a descoberta e a produtividade dessa área, aumenta muito o potencial petrolífero da Bacia de Santos. É o grande potencial do Brasil hoje", disse. Há uma semana, a Petrobras comunicou ao mercado a descoberta de indícios de hidrocarbonetos no seu poço mais profundo, no bloco BM-S-10 a 6,4 mil metros de profundidade, na Bacia de Santos. O poço RJ-S-61 fica na frente de Paraty, no Rio, divisa com São Paulo. A Petrobras é a principal detentora do bloco (65%), junto com a Partex (10%) e BG (25%).
Descoberta província de petróleo
Santos deverá se transformar na principal opção ao esgotamento da Bacia de Campos. As companhias notificaram a descoberta no dia 21 de agosto à Agência Nacional do Petróleo (ANP). "Se a gente descobre gás e óleo leve nesse horizonte, toda a área em volta fica com esse potencial", acrescenta Nepomuceno.
Confirmadas as expectativas de reservas gigantes de petróleo leve em águas ultraprofundas, Santos passa a ser a principal opção da estatal ao esgotamento dos atuais campos da Bacia de Campos. Mais perto do mercado consumidor, com óleo de excelente qualidade e gás, a região possui, até então, reservas da ordem de 2,5 bilhões de barris (com o gás do campo de Mexilhão (BS-400) e o óleo leve do BS-500).
Nova fronteira
Analistas especulavam, até então, a existência de uma bacia petrolífera debaixo da Bacia de Campos. Para Nepomucemo, é mais provável que em Santos - e não em Campos - exista uma nova fronteira com tamanho potencial. Na Bacia de Santos, uma camada de sal com metros e metros de espessura separa os reservatórios de petróleo e gás das rochas e do material orgânico que geram os hidrocarbonetos. A crosta de sal, situada a cerca de seis mil metros, "prendeu" o óleo e o impediu de subir, ao contrário do que aconteceu na área da Bacia de Campos.
Na Bacia de Campos, essa crosta de sal se rompeu durante a formação de montanhas como a Serra do Mar. A abertura da camada de sal em buracos chamados de janelas permitiu a constituição de importantes campos de petróleo como Marlim, Roncador, Marlim Sul, Albacora, localizados a dois mil metros de profundidade. Na Bacia de Santos, o petróleo e o gás ficaram presos a seis mil metros, suscetíveis a elevada temperatura e pressão.
A íntegra da reportagem está publicada, diga-se, no site do Ministério do Planejamento (clique aqui).
Voltei
Pode-se argumentar que a novidade de ontem, então, foi o dimensionamento da reserva, já que se sabia da existência do petróleo leve abaixo da tal camada de sal? Mais ou menos, não é? O que a Petrobras forneceu nesta quinta foi uma estimativa. Observem que se passaram mais de dois anos entre uma notícia e outra, e não se tem uma informação essencialmente diferente. De lá para cá, foram se fazendo testes. Isso dá uma idéia do tempo de maturação do projeto. É emblemático que o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, estivesse ontem ao lado da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Movia o tempo todo a cabeça, um tanto frenético para seu estilo mais comedido. A operação estava sendo muito bem-sucedida. Era orgulho.
Para se ter uma idéia: estima-se que a operação comercial do primeiro campo na região só comece em 2011 — e, ainda assim, para testar a sua viabilidade. Tudo dando certo, a exploração pra valer só ali por 2013, 2014. Daí que Lula vá se encontrar hoje com Evo Moraes para saber como pode investir mais na Bolívia. A Petrobras explora petróleo a, no máximo, 2.700 metros. O óleo que foi encontrado está numa profundidade entre 4.500 e 7.000 metros. A própria empresa informa que o desenvolvimento de um campo, mesmo em profundidades menores, que produz 150 mil/barris dia custa US$ 1,2 bilhão. Para extrair esse óleo mais profundo, gasta-se muito mais. Quanto? Ninguém sabe. No mínimo, o triplo, dizem alguns especialistas. Vai ser preciso ir atrás de muito investimento e de tecnologia.
É claro que há, por enquanto, incertezas demais para um mercado tão animado. A CVM deveria, quando menos, avaliar se estamos diante de um caso de euforia típica. Quem conhece a área afirma que não havia a menor razão para o estardalhaço de ontem. Não porque inexista o petróleo. Mas não se sabe agora muito mais do que se sabia em 2005. Há quem fale até em 20 bilhões de barris caso se expanda a área. Acontece que o governo jogou para sair do escanteio em que estava com a chamada crise do gás — que, notem bem, está no lugar onde estava. A Petrobras também buscou limpar a sua barra, um tanto tisnada pela questão.
É claro que eu quero que tenha muito petróleo lá, à diferença do que a petralhada anda dizendo por aqui. O que não aprovo, já disse, é a empulhação, a marquetagem. De resto, não estou tirando mérito nenhum do PT — a menos que o partido tenha comprado a Petrobras. Que eu saiba, ele só aparelha a empresa. Ademais, se o petróleo “tupi” começar a jorrar timidamente só em 2011 e, para valer, só a partir de 2013, a hipótese feliz é a de que Lula já esteja bem longe do Planalto.
Por Reinaldo Azevedo
Friday, November 09, 2007
Thursday, November 01, 2007
Caco Barcelos e os cacos do humanismo. Ou: "Ele quer presunto de primeira" - Blog do Reinaldo Azevedo - 01/11/07
Se um dia um esquerdista fosse desidratado, liofilizado, para, eventualmente, só ganhar corpo na hora do consumo, como essas sopas que se vendem em supermercado, ele ficaria com a cara e o jeito de Caco Barcelos, o repórter da TV Globo, também um tanto metido a orientador dos moços, com seus “jovens repórteres”. Ele concede uma entrevista à revista VIP que tem momentos verdadeiramente asquerosos. O bom-mocismo de Barcelos é só um biombo onde se esconde a mistificação — e, às vezes, a mentira descarada.
Mas ele não está sozinho. A entrevista, conduzida por Claúdia de Castro, está mais para uma ação entre amigos. Não importa o que o entrevistado diga, ela concede e, às vezes, reforça. No bate-papo entre ambos, as contradições são sempre alheias. Sim, é a fala de quem fez carreira demonizando a polícia. Noto ainda que Barcelos é convocado a falar num movimento bem maior: os “descolados”, sempre atentos ao que o “povo” deseja, decidiram, desta vez, que ele está errado. O vulgo acerta quando elege Lula, mas erra quando aprova Tropa de Elite. Vocês sabem: desde Stálin, o povo precisa é de um guia genial que lhe diga o que fazer. Seguem trechos da entrevista em vermelho, com intervenções minhas em azul.
VOCÊ ASSISTIU A TROPA DE ELITE?
Ainda não consegui ver inteiro. Mas vi uns pedaços e estou acompanhando a repercussão.E ESTÁ ACHANDO O QUÊ?
Acho interessante que as pessoas estejam falando sobre isso. Houve um tempo em que o país não discutia mais sobre segurança pública. Acho interessante que todo mundo tenha uma opinião a respeito disso. Mas a minha preocupação é no sentido de estarem enxergando o personagem central (Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura) como um herói. E também me preocupo com o fato de ninguém ter discutido ainda as mortes provocadas pelo Bope (Batalhão de Operações da Polícia Especial do Rio de Janeiro). Muito está se falando sobre os métodos de atuação da polícia, sobre as torturas, o que é gravíssimo. Mas ninguém fala o essencial, que é a matança provocada pela polícia nessa área pobre da cidade. Como é o Bope quando atua no Leblon, em Ipanema? Usam aquele saco plástico na cabeça de alguém? Você conhece algum rico que foi morto pelo Bope?NÃO, NUNCA OUVI FALAR.
Pois é. Em 30 anos de jornalismo, eu também nunca ouvi uma história assim. Nunca ouvi uma história sobre algum rico criminoso que tivesse sido morto por essa unidade especial da polícia. Se omitirmos esse dado, a discussão não é honesta. Veja que Tropa de Elite é um filme de ficção, o diretor tem toda a liberdade para tratar do que quiser na obra dele. Não quero que pareça que estou fazendo uma crítica ao filme. Mas é triste saber que a sociedade está escolhendo um matador para herói.
Trata-se de um juízo delinqüente, compartilhado docemente pelos dois jornalistas. Se o Bope também matasse ricos, supõe-se que a sua atuação estaria, então, marcada por certo equilíbrio, por certo senso de justiça. Observem que o norte moral, então, não está em matar ou não matar, mas na conta bancária do morto. É uma avaliação nojenta. Mais: a ação do Bope é especialmente voltada para o crime que se incrustou nas favelas. Na formulação de Barcelos e de sua entrevistadora, não existe diferença entre “pobre” e “traficante”.
E O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ESSA SOCIEDADE?
Isso é muito antigo. A verdade é que as autoridades nunca utilizaram no Brasil o que há de mais inteligente e democrático na política de segurança pública. Muito se criticam os direitos humanos, as ONGs, mas nunca nenhuma das idéias, das propostas das pessoas que querem que as pessoas sejam respeitadas independentemente de sua condição econômica foram aplicadas. Desde o Brasil colônia, a polícia está aí para defender os interesses dos mais endinheirados. Desde sempre a sociedade legitimou ações brutais contra aqueles desprovidos de poder, seja econômico, seja político, aqueles desprovidos de cidadania. Se a brutalidade fosse interessante, a Rota já teria transformado São Paulo em um paraíso.
Eis aí. É a tese de que a polícia só está a serviço do arranca-rabo de classes. Sempre que ela atua, é contra os pobres. São Paulo não é um paraíso, mas se mata no estado quase um terço do que se mata no resto do país, um quarto do que se mata no Rio, um quinto do que mata em Pernambuco. Os esquerdistas não vão reconhecer isso jamais, não é? Ah, sim: não “está a acontecer” nada de errado com esta sociedade, moça. Ela apenas se cansou da conivência entre o pensamento politicamente correto e os bandidos.
O QUE MUDOU ENTRE ROTA 66 E TROPA DE ELITE?
Muita coisa. A Rota fez escola, o Bope. Mas tem anos que a polícia de São Paulo mata muito menos. Eram 1 500 pessoas em 1992, quando lancei o livro. Esse número baixou para 300. Mas a criminalidade de São Paulo não se alterou. Na verdade, a única coisa que mudou foi a redução no número de homicídios. É óbvio que, quando a polícia mata menos, a sociedade fica menos violenta. Em São Paulo, mais de 10% dos crimes de homicídio são praticados pela polícia. No Rio, esse número é mais alto, mais de 20%. Bastaria uma ação pública eficaz para que houvesse a redução do crime mais grave, que é o crime de morte.
Trata-se de uma mentira deslavada. O número de homicídios em São Paulo caiu quase 70% em oito anos. E não porque a policia mate menos, mas porque há mais homicidas na cadeia. Por que Barcelos não reconhece? Lanço duas hipóteses que se combinam: a) porque não vai reconhecer méritos nos que considera seus inimigos: os policiais; b) porque precisa manter o mercado mental da violência para poder vender os seus produtos ideológicos.
EXISTE DIFERENÇA ENTRE AS POLÍCIAS MILITARES DE SÃO PAULO E DO RIO?Nenhuma. Por que, por exemplo, a Polícia Federal, que é bem treinada, bem remunerada e trabalha com inteligência, não precisa provocar sequer um arranhão em uma pessoa? Elas têm seus direitos respeitados. É o mesmo país, a mesma realidade e essa polícia é eficaz. A brutalidade é incoerente. Mas investigação dá trabalho...
Mistificação! Fraude intelectual! A Polícia Federal não sobe morro, não vai à periferia, onde se acoita o criminoso que atira, a esmo, para matar. Para que a comparação de Barcelos, aceita bovinamente pela interlocutora, fizesse algum sentido, seria preciso que ela passasse a atuar nas mesmas praças onde atuam as PMs e a polícias civis do Rio ou de São Paulo, por exemplo. Tenho uma outra questão para Barcelos e sua entrevistadora: das pessoas presas pela PF, quantas estão em cana? Ao afirmar que “investigar dá trabalho”, ele faz tábula rasa das polícias boa e má. A propósito: impedir a entrada de armas no país é tarefa da PF. E ela não cumpre. Bem como reprimir a entrada de drogas, já que o Brasil não produz cocaína. Como a PF, de que Barcelos tanto gosta, trabalha mal, sobra serviço para as outras polícias, que ele tanto detesta. Desafio-o a provar que estou errado.(...)
VOCÊ FREQÜENTOU DURANTE MUITO TEMPO AS FAVELAS DO RIO PARA ESCREVER ABUSADO. COMO A COMUNIDADE VÊ A POLÍCIA MILITAR?
De forma geral, a Polícia Militar do Rio de Janeiro representa o autoritarismo sem autoridade. As pessoas não têm seus direitos mínimos respeitados nas ações dos policiais nos morros. A violência está dos dois lados na favela, claro: na polícia e no tráfico. Essa história é uma loucura. Um tiro de fuzil é capaz de atravessar sete barracos de alvenaria. E atrás de traficante pode ter uma criança de 5 anos, uma senhora de 80. Mas para as autoridades quem mora no morro é bandido. E é evidente que não é assim, a maioria é formada por trabalhadores. E são todos bem informados. A sociedade não é partida como se diz. É partida só para os bacanas.
COMO ASSIM?
Quem é pobre e mora no morro tem duas vias. Ele desce para trabalhar. A gente que não sobe lá nunca para ver o que acontece, como deveríamos fazer. Conversei muito com os traficantes: quase todos têm a mãe empregada doméstica, o pai porteiro. Eles conhecem bem a vida na zona sul. No trabalho deles, dentro da casa dos bacanas, eles nunca viram a polícia agir da mesma forma. Um médico quando não emite nota fiscal numa consulta está roubando não só de uma pessoa, está roubando de todo mundo. É um crime gravíssimo. Por que o Bope não invade o consultório para ouvir uma confissão do médico que está sonegando? Fica esta pergunta: “Por que é legítimo agir com brutalidade em uma parteda cidade, não por coincidência onde estão os mais pobres, e não agir da mesma forma onde estão os ricos”?
Demagogia barata. Quem deve autuar o médico e atuar, então, para mandá-lo para a cadeia é a Receita Federal. Na formulação de Barcelos, jamais a Polícia subiria o morro enquanto houvesse um sonegador no asfalto. Por mais que pareça simpático comparar um sonegador a um traficante, são crimes que se combatem de forma diferente. Aqui, na Suécia ou em Cuba — quer dizer, em Cuba, não, porque, lá, o sonegador, o traficante e a polícia são todos uma homem só...(...)
A COMUNIDADE TEME MAIS A POLÍCIA DO QUE OS TRAFICANTES?
O que eles se queixam muito é da morte de inocentes, da criança de 9 anos, do jovem, gente potencialmente não envolvida com o tráfico. Digo potencialmente porque as ações não são feitas com pesquisa. É aleatório. “Eu acho que é aquele ali.” Agora, acreditar que uma criança de 5 anos está envolvida com isso? Eu prefiro não. Prefiro acreditar que as pessoassão inocentes até que se prove o contrário.
“Comunidade” é o escambau!!! Comunidade é linguagem de traficante adotada por jornalistas. Existem indivíduos nas favelas. A maioria formada de trabalhadores. Uma minoria, de traficantes. A pergunta também é truque. A essa altura da conversa, a resposta era óbvia. E quem é que defende que crianças de 5 anos sejam atingidas pela polícia? Barcelos é o Robert Fisk (pesquisar) dos pobres. De tanto “cobrir” o conflito, apaixonou-se pelos criminosos. Procure um miserável texto de Fisk em que os israelenses sejam vítimas. Nunca! Vítimas são apenas os terroristas palestinos, que lhe fornecem a versão dos fatos. Assim como Barcelos trabalha com a versão do tráfico. O Hamas e o Hazbollah usam crianças como escudo. Os traficantes brasileiros também.
QUAL SUA POSIÇÃO NA QUESTÃO DA LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS?
Não tenho opinião. Eu sou a favor de que as pessoas discutam isso. O quadro como está é muito ruim, e não discutir o problema é defendê-lo, é desejar a permanência dessa situação. Isso tem de ser discutido sem hipocrisia. Pessoas de todas as camadas sociais são usuárias de drogas, as ilegais e as legais. Há drogas legais que causam mais danos que as ilegais. É uma mudança complexa, que envolve questões bilaterais. Nossa discussão tinha de começar pela cachaça. É uma droga legal. E mata.
É a falácia de sempre. É claro que ele não quer criminalizar a cachaça, mas descriminar a droga.
UMA DAS CENAS DE TROPA DE ELITE MOSTRA O CAPITÃO NASCIMENTO ESFREGANDO O ROSTO DE UM RAPAZ NO CADÁVER QUE ELES HAVIAM ACABADO DE MATAR. E DIZENDO QUE O CULPADO POR AQUILO ERA O RAPAZ, O MACONHEIRO.?
O culpado pela morte é quem mata. Parece soldado americano falando no Iraque: “Te mato porque quero seu petróleo, você é culpado por sua morte”.
Em primeiro lugar, o culpado é o maconheiro. Já o juízo de Barcelos sobre a guerra do Iraque é só ignorância misturada com ideologia. Comecemos pelo fato óbvio de que a maioria dos iraquianos mortos é obra de... iraquianos, não de americanos. Mas aqui o homem é pego no pulo. Ele foi feito refém dos sandinistas na revolução da Nicarágua. Como foi posto pra suar pelos comunas, reparem na sua resposta quando trata do assunto.
(...)
VOCÊ JÁ FOI REFÉM DE SANDINISTAS, FOI DADO COMO DESAPARECIDO EM UMA SELVA BOLIVIANA, FOI AMEAÇADO DEPOIS DE ESCREVER LIVROS. EM ALGUMA SITUAÇÃO VOCÊ PENSOU REALMENTE: “AGORA DANOU-SE”?
Teve uma situação na Nicarágua, durante a guerra (Caco cobriu a vitória dos sandinistas em 1979). Eu estava sozinho, perto de franco-atiradores. Para eles, o alvo era qualquer um. O cara me localizou da torre de uma igreja. Foi um horror aquilo ali, eu me arrastando pelo chão, fugindo das balas. Não sabia nem de onde vinham os tiros. Era curioso. Eles atiram sem nenhum motivo, nem tinham idéia de quem eu era, se eu era um guerrilheiro, podia ser também um franco-atirador sandinista. Foi muito estúpido. Mas guerra é assim.
Viram só? Os americanos são dolosos. Já os sandinistas apenas se vergaram à lógica da guerra. Ele prefere não criticar.
(...)
AGORA VOCÊ TRABALHA COM UMA TURMA NOVA NO JORNALISMO. COMO É ESSA EXPERIÊNCIA?
É um pessoal que, embora em começo de carreira, está revelando uma paixão muito grande pela reportagem. Eu sempre achei que as histórias ficam muito mais atraentes quando seguem o caminho da reportagem. É legal oferecer para o telespectador as ações comoprovas de que as coisas que estamos falando são verdadeiras. A reportagem oferece a possibilidade de acompanhar as histórias, ouvir todos os lados.
Considero esse papo um pouco enjoado. Olhem aqui: fiz reportagens algumas raríssimas vezes. Não chega a ser assim tão difícil. Opinar é bem mais complicado — embora, claro, pese sobre quem vive disso a acusação de que não tira o traseiro da cadeira. Que eu saiba, nao se pensa com os pés ou com o traseiro. Há muita mistificação sobre a reportagem — obviamente essencial no jornalismo. A maior delas é a de que tem um compromisso essencial com a neutralidade, com a imparcialidade. Besteira! Expressa uma opinião, um ponto de vista, como qualquer outro texto. A rigor, pode ser até mais manipuladora. Afinal, de uma opinião, as pessoas se defendem com mais facilidade. E, claro, também pode ser exemplarmente honesta. Então Barcelos não venha com essa conversinha de “o” repórter que conta apenas aquilo que vê.
A sua entrevista evidencia que ele tem um jeito muito particular de ver o mundo, o que, é claro, vai parar no seu trabalho. Vocês não precisam acreditar em mim. Leiam a íntegra da entrevista aqui se quiserem. Observem que entrevistado e entrevistadora, em nenhum momento, voltam o dedo acusador para os bandidos e o narcotráfico. Estão unidos no combate a um inimigo: a polícia — e, secundariamente, é indisfarçável, o filme Tropa de Elite.
A entrevista é parte da ação encetada pelos reacionários. O morro mental no Brasil estava ocupado pelos traficantes de “direitos humanos”, ainda que isso significasse manter a população refém dos bandidos, pobres “vítimas” das perversidades do capital. Quem sabe a polícia leia Caco Barcelos e passe a dar uns pitocos em alguns ricaços... Aí se fará, então, justiça de classe ao menos, certo? O corolário de sua entrevista, não adianta negar, é óbvio: com alguns ricos mortos pela Polícia, haverá um pouco mais de justiça.
PS: A VIP publicava ensaios de algumas gostosas, não? Publica ainda? Faz muito tempo que não leio. Bem, sempre será melhor uma mulher pelada do que Caco Barcelos a nu.
Por Reinaldo Azevedo
Mas ele não está sozinho. A entrevista, conduzida por Claúdia de Castro, está mais para uma ação entre amigos. Não importa o que o entrevistado diga, ela concede e, às vezes, reforça. No bate-papo entre ambos, as contradições são sempre alheias. Sim, é a fala de quem fez carreira demonizando a polícia. Noto ainda que Barcelos é convocado a falar num movimento bem maior: os “descolados”, sempre atentos ao que o “povo” deseja, decidiram, desta vez, que ele está errado. O vulgo acerta quando elege Lula, mas erra quando aprova Tropa de Elite. Vocês sabem: desde Stálin, o povo precisa é de um guia genial que lhe diga o que fazer. Seguem trechos da entrevista em vermelho, com intervenções minhas em azul.
VOCÊ ASSISTIU A TROPA DE ELITE?
Ainda não consegui ver inteiro. Mas vi uns pedaços e estou acompanhando a repercussão.E ESTÁ ACHANDO O QUÊ?
Acho interessante que as pessoas estejam falando sobre isso. Houve um tempo em que o país não discutia mais sobre segurança pública. Acho interessante que todo mundo tenha uma opinião a respeito disso. Mas a minha preocupação é no sentido de estarem enxergando o personagem central (Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura) como um herói. E também me preocupo com o fato de ninguém ter discutido ainda as mortes provocadas pelo Bope (Batalhão de Operações da Polícia Especial do Rio de Janeiro). Muito está se falando sobre os métodos de atuação da polícia, sobre as torturas, o que é gravíssimo. Mas ninguém fala o essencial, que é a matança provocada pela polícia nessa área pobre da cidade. Como é o Bope quando atua no Leblon, em Ipanema? Usam aquele saco plástico na cabeça de alguém? Você conhece algum rico que foi morto pelo Bope?NÃO, NUNCA OUVI FALAR.
Pois é. Em 30 anos de jornalismo, eu também nunca ouvi uma história assim. Nunca ouvi uma história sobre algum rico criminoso que tivesse sido morto por essa unidade especial da polícia. Se omitirmos esse dado, a discussão não é honesta. Veja que Tropa de Elite é um filme de ficção, o diretor tem toda a liberdade para tratar do que quiser na obra dele. Não quero que pareça que estou fazendo uma crítica ao filme. Mas é triste saber que a sociedade está escolhendo um matador para herói.
Trata-se de um juízo delinqüente, compartilhado docemente pelos dois jornalistas. Se o Bope também matasse ricos, supõe-se que a sua atuação estaria, então, marcada por certo equilíbrio, por certo senso de justiça. Observem que o norte moral, então, não está em matar ou não matar, mas na conta bancária do morto. É uma avaliação nojenta. Mais: a ação do Bope é especialmente voltada para o crime que se incrustou nas favelas. Na formulação de Barcelos e de sua entrevistadora, não existe diferença entre “pobre” e “traficante”.
E O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM ESSA SOCIEDADE?
Isso é muito antigo. A verdade é que as autoridades nunca utilizaram no Brasil o que há de mais inteligente e democrático na política de segurança pública. Muito se criticam os direitos humanos, as ONGs, mas nunca nenhuma das idéias, das propostas das pessoas que querem que as pessoas sejam respeitadas independentemente de sua condição econômica foram aplicadas. Desde o Brasil colônia, a polícia está aí para defender os interesses dos mais endinheirados. Desde sempre a sociedade legitimou ações brutais contra aqueles desprovidos de poder, seja econômico, seja político, aqueles desprovidos de cidadania. Se a brutalidade fosse interessante, a Rota já teria transformado São Paulo em um paraíso.
Eis aí. É a tese de que a polícia só está a serviço do arranca-rabo de classes. Sempre que ela atua, é contra os pobres. São Paulo não é um paraíso, mas se mata no estado quase um terço do que se mata no resto do país, um quarto do que se mata no Rio, um quinto do que mata em Pernambuco. Os esquerdistas não vão reconhecer isso jamais, não é? Ah, sim: não “está a acontecer” nada de errado com esta sociedade, moça. Ela apenas se cansou da conivência entre o pensamento politicamente correto e os bandidos.
O QUE MUDOU ENTRE ROTA 66 E TROPA DE ELITE?
Muita coisa. A Rota fez escola, o Bope. Mas tem anos que a polícia de São Paulo mata muito menos. Eram 1 500 pessoas em 1992, quando lancei o livro. Esse número baixou para 300. Mas a criminalidade de São Paulo não se alterou. Na verdade, a única coisa que mudou foi a redução no número de homicídios. É óbvio que, quando a polícia mata menos, a sociedade fica menos violenta. Em São Paulo, mais de 10% dos crimes de homicídio são praticados pela polícia. No Rio, esse número é mais alto, mais de 20%. Bastaria uma ação pública eficaz para que houvesse a redução do crime mais grave, que é o crime de morte.
Trata-se de uma mentira deslavada. O número de homicídios em São Paulo caiu quase 70% em oito anos. E não porque a policia mate menos, mas porque há mais homicidas na cadeia. Por que Barcelos não reconhece? Lanço duas hipóteses que se combinam: a) porque não vai reconhecer méritos nos que considera seus inimigos: os policiais; b) porque precisa manter o mercado mental da violência para poder vender os seus produtos ideológicos.
EXISTE DIFERENÇA ENTRE AS POLÍCIAS MILITARES DE SÃO PAULO E DO RIO?Nenhuma. Por que, por exemplo, a Polícia Federal, que é bem treinada, bem remunerada e trabalha com inteligência, não precisa provocar sequer um arranhão em uma pessoa? Elas têm seus direitos respeitados. É o mesmo país, a mesma realidade e essa polícia é eficaz. A brutalidade é incoerente. Mas investigação dá trabalho...
Mistificação! Fraude intelectual! A Polícia Federal não sobe morro, não vai à periferia, onde se acoita o criminoso que atira, a esmo, para matar. Para que a comparação de Barcelos, aceita bovinamente pela interlocutora, fizesse algum sentido, seria preciso que ela passasse a atuar nas mesmas praças onde atuam as PMs e a polícias civis do Rio ou de São Paulo, por exemplo. Tenho uma outra questão para Barcelos e sua entrevistadora: das pessoas presas pela PF, quantas estão em cana? Ao afirmar que “investigar dá trabalho”, ele faz tábula rasa das polícias boa e má. A propósito: impedir a entrada de armas no país é tarefa da PF. E ela não cumpre. Bem como reprimir a entrada de drogas, já que o Brasil não produz cocaína. Como a PF, de que Barcelos tanto gosta, trabalha mal, sobra serviço para as outras polícias, que ele tanto detesta. Desafio-o a provar que estou errado.(...)
VOCÊ FREQÜENTOU DURANTE MUITO TEMPO AS FAVELAS DO RIO PARA ESCREVER ABUSADO. COMO A COMUNIDADE VÊ A POLÍCIA MILITAR?
De forma geral, a Polícia Militar do Rio de Janeiro representa o autoritarismo sem autoridade. As pessoas não têm seus direitos mínimos respeitados nas ações dos policiais nos morros. A violência está dos dois lados na favela, claro: na polícia e no tráfico. Essa história é uma loucura. Um tiro de fuzil é capaz de atravessar sete barracos de alvenaria. E atrás de traficante pode ter uma criança de 5 anos, uma senhora de 80. Mas para as autoridades quem mora no morro é bandido. E é evidente que não é assim, a maioria é formada por trabalhadores. E são todos bem informados. A sociedade não é partida como se diz. É partida só para os bacanas.
COMO ASSIM?
Quem é pobre e mora no morro tem duas vias. Ele desce para trabalhar. A gente que não sobe lá nunca para ver o que acontece, como deveríamos fazer. Conversei muito com os traficantes: quase todos têm a mãe empregada doméstica, o pai porteiro. Eles conhecem bem a vida na zona sul. No trabalho deles, dentro da casa dos bacanas, eles nunca viram a polícia agir da mesma forma. Um médico quando não emite nota fiscal numa consulta está roubando não só de uma pessoa, está roubando de todo mundo. É um crime gravíssimo. Por que o Bope não invade o consultório para ouvir uma confissão do médico que está sonegando? Fica esta pergunta: “Por que é legítimo agir com brutalidade em uma parteda cidade, não por coincidência onde estão os mais pobres, e não agir da mesma forma onde estão os ricos”?
Demagogia barata. Quem deve autuar o médico e atuar, então, para mandá-lo para a cadeia é a Receita Federal. Na formulação de Barcelos, jamais a Polícia subiria o morro enquanto houvesse um sonegador no asfalto. Por mais que pareça simpático comparar um sonegador a um traficante, são crimes que se combatem de forma diferente. Aqui, na Suécia ou em Cuba — quer dizer, em Cuba, não, porque, lá, o sonegador, o traficante e a polícia são todos uma homem só...(...)
A COMUNIDADE TEME MAIS A POLÍCIA DO QUE OS TRAFICANTES?
O que eles se queixam muito é da morte de inocentes, da criança de 9 anos, do jovem, gente potencialmente não envolvida com o tráfico. Digo potencialmente porque as ações não são feitas com pesquisa. É aleatório. “Eu acho que é aquele ali.” Agora, acreditar que uma criança de 5 anos está envolvida com isso? Eu prefiro não. Prefiro acreditar que as pessoassão inocentes até que se prove o contrário.
“Comunidade” é o escambau!!! Comunidade é linguagem de traficante adotada por jornalistas. Existem indivíduos nas favelas. A maioria formada de trabalhadores. Uma minoria, de traficantes. A pergunta também é truque. A essa altura da conversa, a resposta era óbvia. E quem é que defende que crianças de 5 anos sejam atingidas pela polícia? Barcelos é o Robert Fisk (pesquisar) dos pobres. De tanto “cobrir” o conflito, apaixonou-se pelos criminosos. Procure um miserável texto de Fisk em que os israelenses sejam vítimas. Nunca! Vítimas são apenas os terroristas palestinos, que lhe fornecem a versão dos fatos. Assim como Barcelos trabalha com a versão do tráfico. O Hamas e o Hazbollah usam crianças como escudo. Os traficantes brasileiros também.
QUAL SUA POSIÇÃO NA QUESTÃO DA LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS?
Não tenho opinião. Eu sou a favor de que as pessoas discutam isso. O quadro como está é muito ruim, e não discutir o problema é defendê-lo, é desejar a permanência dessa situação. Isso tem de ser discutido sem hipocrisia. Pessoas de todas as camadas sociais são usuárias de drogas, as ilegais e as legais. Há drogas legais que causam mais danos que as ilegais. É uma mudança complexa, que envolve questões bilaterais. Nossa discussão tinha de começar pela cachaça. É uma droga legal. E mata.
É a falácia de sempre. É claro que ele não quer criminalizar a cachaça, mas descriminar a droga.
UMA DAS CENAS DE TROPA DE ELITE MOSTRA O CAPITÃO NASCIMENTO ESFREGANDO O ROSTO DE UM RAPAZ NO CADÁVER QUE ELES HAVIAM ACABADO DE MATAR. E DIZENDO QUE O CULPADO POR AQUILO ERA O RAPAZ, O MACONHEIRO.?
O culpado pela morte é quem mata. Parece soldado americano falando no Iraque: “Te mato porque quero seu petróleo, você é culpado por sua morte”.
Em primeiro lugar, o culpado é o maconheiro. Já o juízo de Barcelos sobre a guerra do Iraque é só ignorância misturada com ideologia. Comecemos pelo fato óbvio de que a maioria dos iraquianos mortos é obra de... iraquianos, não de americanos. Mas aqui o homem é pego no pulo. Ele foi feito refém dos sandinistas na revolução da Nicarágua. Como foi posto pra suar pelos comunas, reparem na sua resposta quando trata do assunto.
(...)
VOCÊ JÁ FOI REFÉM DE SANDINISTAS, FOI DADO COMO DESAPARECIDO EM UMA SELVA BOLIVIANA, FOI AMEAÇADO DEPOIS DE ESCREVER LIVROS. EM ALGUMA SITUAÇÃO VOCÊ PENSOU REALMENTE: “AGORA DANOU-SE”?
Teve uma situação na Nicarágua, durante a guerra (Caco cobriu a vitória dos sandinistas em 1979). Eu estava sozinho, perto de franco-atiradores. Para eles, o alvo era qualquer um. O cara me localizou da torre de uma igreja. Foi um horror aquilo ali, eu me arrastando pelo chão, fugindo das balas. Não sabia nem de onde vinham os tiros. Era curioso. Eles atiram sem nenhum motivo, nem tinham idéia de quem eu era, se eu era um guerrilheiro, podia ser também um franco-atirador sandinista. Foi muito estúpido. Mas guerra é assim.
Viram só? Os americanos são dolosos. Já os sandinistas apenas se vergaram à lógica da guerra. Ele prefere não criticar.
(...)
AGORA VOCÊ TRABALHA COM UMA TURMA NOVA NO JORNALISMO. COMO É ESSA EXPERIÊNCIA?
É um pessoal que, embora em começo de carreira, está revelando uma paixão muito grande pela reportagem. Eu sempre achei que as histórias ficam muito mais atraentes quando seguem o caminho da reportagem. É legal oferecer para o telespectador as ações comoprovas de que as coisas que estamos falando são verdadeiras. A reportagem oferece a possibilidade de acompanhar as histórias, ouvir todos os lados.
Considero esse papo um pouco enjoado. Olhem aqui: fiz reportagens algumas raríssimas vezes. Não chega a ser assim tão difícil. Opinar é bem mais complicado — embora, claro, pese sobre quem vive disso a acusação de que não tira o traseiro da cadeira. Que eu saiba, nao se pensa com os pés ou com o traseiro. Há muita mistificação sobre a reportagem — obviamente essencial no jornalismo. A maior delas é a de que tem um compromisso essencial com a neutralidade, com a imparcialidade. Besteira! Expressa uma opinião, um ponto de vista, como qualquer outro texto. A rigor, pode ser até mais manipuladora. Afinal, de uma opinião, as pessoas se defendem com mais facilidade. E, claro, também pode ser exemplarmente honesta. Então Barcelos não venha com essa conversinha de “o” repórter que conta apenas aquilo que vê.
A sua entrevista evidencia que ele tem um jeito muito particular de ver o mundo, o que, é claro, vai parar no seu trabalho. Vocês não precisam acreditar em mim. Leiam a íntegra da entrevista aqui se quiserem. Observem que entrevistado e entrevistadora, em nenhum momento, voltam o dedo acusador para os bandidos e o narcotráfico. Estão unidos no combate a um inimigo: a polícia — e, secundariamente, é indisfarçável, o filme Tropa de Elite.
A entrevista é parte da ação encetada pelos reacionários. O morro mental no Brasil estava ocupado pelos traficantes de “direitos humanos”, ainda que isso significasse manter a população refém dos bandidos, pobres “vítimas” das perversidades do capital. Quem sabe a polícia leia Caco Barcelos e passe a dar uns pitocos em alguns ricaços... Aí se fará, então, justiça de classe ao menos, certo? O corolário de sua entrevista, não adianta negar, é óbvio: com alguns ricos mortos pela Polícia, haverá um pouco mais de justiça.
PS: A VIP publicava ensaios de algumas gostosas, não? Publica ainda? Faz muito tempo que não leio. Bem, sempre será melhor uma mulher pelada do que Caco Barcelos a nu.
Por Reinaldo Azevedo
A crise do gás, a estabilidade triste e a falta de imaginação - Blog do Reinaldo Azevedo - 01/11/07
“O Brasil enfrentará nos próximos anos, segundo o economista José Roberto Mendonça de Barros, um sério problema de energia. ‘Hoje, 100% dos analistas privados vêem novo problema de energia já em 2009.’ Segundo ele, há quatro anos não é iniciada no País nenhuma hidrelétrica de porte. A restrição de energia no horizonte leva os empresários a ter dúvidas na hora de investir. ‘Um apagão ou um forte aumento da energia é a mesma coisa. Eu não tenho dúvida de que o preço vai subir.’ Mendonça de Barros chama a atenção também para os crescentes investimentos de brasileiros no exterior, que, na sua avaliação, estão sendo estimulados pela sobrevalorização do real e por condições microeconômicas desfavoráveis no Brasil."
Acima, vai um post do dia 5 de novembro de 2006, que faz referência ao que falara ao Estadão o economista José Roberto Mendonça de Barros. E, daquele dia a esta data, já faz um ano, os especialistas são unânimes em afirmar, nada mudou. Vejam aí: o ritmo um pouco mais acelerado do crescimento econômico — e estamos falando de modestos 5% (modestos na comparação com os pares emergentes), não de 8% ou 9% — acenou com um risco, ainda que não iminente, de desabastecimento. A Petrobras foi obrigada a fazer uma escolha: cortou o gás dos consumidores para poder abastecer as termelétricas. Como sempre acontece nesse caso, a Justiça foi acionada, a empresa vai recorrer... Observem: a coisa já deixou o território da economia.
Acho que isso seria menos grave se tivéssemos um governo menos falastrão — e, sei, os petralhas virão em coro: “E o apagão de 2001?”. Sim, houve o apagão de 2001, e o governo FHC pagou por ele nas urnas, não é? O fato é que Lula tem uma conjuntura externa formidável, maioria folgada no Congresso, popularidade alta e uma estabilidade meio marreta, mas tem. O que impede o governo de fazer deslanchar os investimentos no setor de energia? A competência. Escrevi: “Seria menos grave se o governo fosse menos falastrão”. Por quê? Porque seria menos autoconfiante e ouviria um pouco mais.
Se vocês se lembram, o eixo do PAC — refiro-me aquele grandão, o PACão, pai, dos “paquitos” — era justamente o investimento em energia. Daquela data até agora, perguntem quantos passos foram dados: nenhum! Entre os especialistas, é consenso: no ritmo em que cresce a oferta de energia, o país estará proibido de continuar a crescer 5% — o que não dizer de um crescimento maior?... A Petrobras pode dar o nome que quiser ao que fez, e será sempre um apelido: está racionando gás, sim. E raciona porque as termelétricas vão socorrer as hidrelétricas em razão da pouca água nos reservatórios.
Estamos, de novo, como os macaquinhos imprudentes. A diferença é que eles torciam para não chover, já que não haviam feito suas casas. E nós vamos ter de torcer para chover. Numa reportagem na Folha de hoje, lê-se: “Problemas na Argentina, na Bolívia e um redimensionamento da capacidade de geração de energia em térmicas de gás natural no Brasil fizeram com que a oferta de energia firme -ou seja, com a qual se pode contar- prevista para 2008 fosse reduzida de 57 mil MW médios para 50,9 mil MW médios. ‘Devido a problemas no gás natural, num intervalo de dois anos [2005 a 2007] a oferta firme de geração do Brasil foi reduzida em 12%. Poucos países resistiriam a isso’”. A observação é de Cláudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, que representa investidores privados em energia.
A auto-suficiência prepotente do governo não é auto-suficência energética, não é? No dia 3 de dezembro do ano passado, informava uma reportagem de Renée Pereira, no Estadão:
Os planos do presidente Lula de elevar o crescimento do País para níveis superiores a 5% ao ano a partir de 2007 podem ir por água abaixo se ele não conseguir deslanchar os investimentos na área de energia. Coincidentemente, a iminência de uma nova crise elétrica ocorre no segundo mandato de Lula, a exemplo do que ocorreu em 2001, na administração de Fernando Henrique Cardoso.
Até agora, segundo especialistas, o que tem jogado a favor da oferta de energia no País é o tímido avanço da economia, abaixo de 3% ao ano. Se o País começar a crescer acima de 5% ao ano, o setor elétrico não deve suportar muito tempo. De acordo com dados da Gásenergy, os riscos de déficit estarão acima dos 5% tolerados a partir do ano que vem, em algumas regiões do País.
“Como consumidor, estou preocupado com a situação. Se crescermos 4% ou 5%, o apagão chega mais perto”, enfatiza Mario Cilento, presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), cujas associados representam 25% do PIB brasileiro.
Na avaliação de Gorete Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), além da falta de gás para abastecer as térmicas, há outras questões que aumentam o risco de déficit do País. Um deles é exatamente o argumento do governo de que as distribuidoras estão 100% contratadas até 2010.
Maiores esclarecimentos, com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), braço operativo do governo, especialista na área, ex-ministra do setor. Até agora, de suas ações, não saiu um miserável quilowatt a mais de energia. Mas ela já é considerada peça central da sucessão em 2010 em razão de suas virtudes visionárias.
Ah, sim: ainda bem que o governo Lula, embora se descuide do setor energético, toca todo o resto com competência e presteza: reforma tributária, reforma trabalhista, reforma do Judiciário... Observem: fora do equilíbrio macroeconômico, um conservadorismo meio tristinho, não há nada. Assim, não chega a ser surpreendente que o país apareça em 72º lugar num ranking de competitividade elaborado pelo Fórum Econômico Mundial que inclui 131 países. Caiu seis posições. Os motivos? Burocracia, ineficiência dos gastos públicos, carga tributária excessiva e juros elevados.
Há dados muito interessantes. Quando os 11 mil executivos que votaram foram convidados a avaliar a sofisticação empresarial, o Brasil ficou em 39º lugar. Nada formidável, mas no primeiro terço do grupo. Já quando opinaram sobre a eficiência dos gastos públicos, ficamos a quatro posições do último lugar: no 127º. E tem mais: conforme se lê na Folha de hoje, “a qualidade da educação primária está em 120º — há somente 11 países mais deficientes nesse quesito —, e o sistema legal complexo e ineficiente garantiu o 105º posto neste indicador.”
É isso aí. É preciso muito mais do que a “estabilidade” que aí está. Ela já chegou a significar alguma “ousadia” do PT. Hoje, é pura falta de imaginação. Entenda-se por “imaginação” não a feitiçaria econômica, mas o procura de caminhos políticos para fazer as reformas. Não! Elas não serão feitas. Porque, para fazê-las, é preciso, sim, ter um projeto.
Por Reinaldo Azevedo
Acima, vai um post do dia 5 de novembro de 2006, que faz referência ao que falara ao Estadão o economista José Roberto Mendonça de Barros. E, daquele dia a esta data, já faz um ano, os especialistas são unânimes em afirmar, nada mudou. Vejam aí: o ritmo um pouco mais acelerado do crescimento econômico — e estamos falando de modestos 5% (modestos na comparação com os pares emergentes), não de 8% ou 9% — acenou com um risco, ainda que não iminente, de desabastecimento. A Petrobras foi obrigada a fazer uma escolha: cortou o gás dos consumidores para poder abastecer as termelétricas. Como sempre acontece nesse caso, a Justiça foi acionada, a empresa vai recorrer... Observem: a coisa já deixou o território da economia.
Acho que isso seria menos grave se tivéssemos um governo menos falastrão — e, sei, os petralhas virão em coro: “E o apagão de 2001?”. Sim, houve o apagão de 2001, e o governo FHC pagou por ele nas urnas, não é? O fato é que Lula tem uma conjuntura externa formidável, maioria folgada no Congresso, popularidade alta e uma estabilidade meio marreta, mas tem. O que impede o governo de fazer deslanchar os investimentos no setor de energia? A competência. Escrevi: “Seria menos grave se o governo fosse menos falastrão”. Por quê? Porque seria menos autoconfiante e ouviria um pouco mais.
Se vocês se lembram, o eixo do PAC — refiro-me aquele grandão, o PACão, pai, dos “paquitos” — era justamente o investimento em energia. Daquela data até agora, perguntem quantos passos foram dados: nenhum! Entre os especialistas, é consenso: no ritmo em que cresce a oferta de energia, o país estará proibido de continuar a crescer 5% — o que não dizer de um crescimento maior?... A Petrobras pode dar o nome que quiser ao que fez, e será sempre um apelido: está racionando gás, sim. E raciona porque as termelétricas vão socorrer as hidrelétricas em razão da pouca água nos reservatórios.
Estamos, de novo, como os macaquinhos imprudentes. A diferença é que eles torciam para não chover, já que não haviam feito suas casas. E nós vamos ter de torcer para chover. Numa reportagem na Folha de hoje, lê-se: “Problemas na Argentina, na Bolívia e um redimensionamento da capacidade de geração de energia em térmicas de gás natural no Brasil fizeram com que a oferta de energia firme -ou seja, com a qual se pode contar- prevista para 2008 fosse reduzida de 57 mil MW médios para 50,9 mil MW médios. ‘Devido a problemas no gás natural, num intervalo de dois anos [2005 a 2007] a oferta firme de geração do Brasil foi reduzida em 12%. Poucos países resistiriam a isso’”. A observação é de Cláudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, que representa investidores privados em energia.
A auto-suficiência prepotente do governo não é auto-suficência energética, não é? No dia 3 de dezembro do ano passado, informava uma reportagem de Renée Pereira, no Estadão:
Os planos do presidente Lula de elevar o crescimento do País para níveis superiores a 5% ao ano a partir de 2007 podem ir por água abaixo se ele não conseguir deslanchar os investimentos na área de energia. Coincidentemente, a iminência de uma nova crise elétrica ocorre no segundo mandato de Lula, a exemplo do que ocorreu em 2001, na administração de Fernando Henrique Cardoso.
Até agora, segundo especialistas, o que tem jogado a favor da oferta de energia no País é o tímido avanço da economia, abaixo de 3% ao ano. Se o País começar a crescer acima de 5% ao ano, o setor elétrico não deve suportar muito tempo. De acordo com dados da Gásenergy, os riscos de déficit estarão acima dos 5% tolerados a partir do ano que vem, em algumas regiões do País.
“Como consumidor, estou preocupado com a situação. Se crescermos 4% ou 5%, o apagão chega mais perto”, enfatiza Mario Cilento, presidente da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia (Abrace), cujas associados representam 25% do PIB brasileiro.
Na avaliação de Gorete Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), além da falta de gás para abastecer as térmicas, há outras questões que aumentam o risco de déficit do País. Um deles é exatamente o argumento do governo de que as distribuidoras estão 100% contratadas até 2010.
Maiores esclarecimentos, com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), braço operativo do governo, especialista na área, ex-ministra do setor. Até agora, de suas ações, não saiu um miserável quilowatt a mais de energia. Mas ela já é considerada peça central da sucessão em 2010 em razão de suas virtudes visionárias.
Ah, sim: ainda bem que o governo Lula, embora se descuide do setor energético, toca todo o resto com competência e presteza: reforma tributária, reforma trabalhista, reforma do Judiciário... Observem: fora do equilíbrio macroeconômico, um conservadorismo meio tristinho, não há nada. Assim, não chega a ser surpreendente que o país apareça em 72º lugar num ranking de competitividade elaborado pelo Fórum Econômico Mundial que inclui 131 países. Caiu seis posições. Os motivos? Burocracia, ineficiência dos gastos públicos, carga tributária excessiva e juros elevados.
Há dados muito interessantes. Quando os 11 mil executivos que votaram foram convidados a avaliar a sofisticação empresarial, o Brasil ficou em 39º lugar. Nada formidável, mas no primeiro terço do grupo. Já quando opinaram sobre a eficiência dos gastos públicos, ficamos a quatro posições do último lugar: no 127º. E tem mais: conforme se lê na Folha de hoje, “a qualidade da educação primária está em 120º — há somente 11 países mais deficientes nesse quesito —, e o sistema legal complexo e ineficiente garantiu o 105º posto neste indicador.”
É isso aí. É preciso muito mais do que a “estabilidade” que aí está. Ela já chegou a significar alguma “ousadia” do PT. Hoje, é pura falta de imaginação. Entenda-se por “imaginação” não a feitiçaria econômica, mas o procura de caminhos políticos para fazer as reformas. Não! Elas não serão feitas. Porque, para fazê-las, é preciso, sim, ter um projeto.
Por Reinaldo Azevedo
Sunday, October 28, 2007
Privataria! - Carlos Alberto Sardemberg - OESP 15/10/07
Quer dizer que o governo Lula entrega o patrimônio nacional para empresas estrangeiras e não cobra nem um centavo por isso? De graça, as companhias espanholas vão ficar 25 anos cobrando pedágio e ganhando dinheiro com estradas construídas com imposto pago pelo contribuinte brasileiro!Quer dizer que o governo Lula monta um modelo de privatização que favorece o capital estrangeiro? Só multinacionais, que trazem capital de fora, mais barato, conseguem assumir pedágios tão baixos. Mais ainda: o dólar tão barato, outra proeza de Lula, favorece os estrangeiros, pois a tarifa em dólar fica maior e as companhias gastarão menos reais para enviar seus polpudos lucros aos acionistas lá fora.Nunca na história deste país um governo foi tão servil às empreiteiras multinacionais. Uma privataria!Essa turma que pede a reestatização da Vale, por ter sido vendida a “preço de banana”, não vai pedir uma “CPI da doação das estradas”? Aliás, deveria ser uma CPI ampliada, pois a Vale, entregue por FHC, acaba de ganhar de Lula um trecho enorme da Ferrovia Norte-Sul.Isso aí, pessoal. Quem quiser pode usar os motes acima, sem pagar direitos autorais. Tão de graça quanto as rodovias.Agora, está mesmo muito engraçado observar Lula, seus ministros e os formadores da opinião de esquerda defenderem seu modelo de privatização de rodovias.Muitos começam por apresentar a ressalva: não é privatização, é concessão. Tudo bem: concessão de uma via pública, construída pelo Estado, para uma empresa privada explorá-la por 25 anos, conforme regras, mas sempre sob a “ótica do lucro”.Depois, segue o argumento, ao contrário da privatização tucana, com seus pedágios caros e “elitistas”, a privatização, perdão, a concessão petista é popular-democrática, pois cobra pedágios bem baratinhos.Assim é, temos agora uma privatização tucana e outra petista. E - quer saber? - ficou melhor para o País. Resta uma discussão de método, os dois lados concordando que a empresa privada, nacional ou estrangeira, é mais competente para operar e oferecer ao usuário uma estrada de qualidade e eficiente para negócios e turismo.Isso posto, eis algumas observações razoáveis sobre o tema:Modelo de concessão - o governo, poder concedente, “dono” da estrada, pode ou não cobrar pela outorga da concessão. No primeiro caso, seria como cobrar um aluguel. As duas modalidades têm justificativas. Quando cobra, o governo faz caixa para, por exemplo, investir em estradas menos rentáveis (modelo adotado em São Paulo). Quando há cobrança, ganha o leilão a empresa que oferecer o pagamento mais alto, dentro de um padrão para os pedágios. Obviamente, o custo da operação é maior, de onde sai um pedágio mais caro. Já no caso dos últimos leilões federais, o governo Lula decidiu não cobrar a outorga. Ganhou a empresa que ofereceu pedágio mais barato. É um critério mais simples, melhor para o usuário, pior para o governo. De todo modo, o governo Lula pode se dar ao luxo de perder essa receita, pois está arrecadando como nunca na história deste país.Exigências impostas à concessionária - mais ou menos investimentos no início do contrato, maior ou menor qualidade do piso, quando se inicia a cobrança do pedágio. No caso do último leilão das sete rodovias federais, técnicos dizem que há exigências menores para o piso, por exemplo. A cobrança do pedágio é imediata, enquanto no caso das privatizações feitas em São Paulo (no governo Mário Covas), essa cobrança se fazia depois de feita parte das obras. Com isso o fluxo de caixa é menor, o custo da operação é maior.O ambiente macroeconômico - em momento de instabilidade, inflação e desarranjo das contas públicas, as empresas privadas só fazem negócio com o governo se tiverem garantias de que a rentabilidade não será reduzida. Preços começam mais elevados para prevenir choques futuros, como inflação ou desvalorização da moeda local. Por exemplo: a empresa estrangeira topa um pedágio de R$ 1,80, o equivalente a US$ 1. De repente, o real se desvaloriza e a cotação vai a R$ 3,60, fazendo com que a tarifa caia a US$ 0,5. E é evidente que o ambiente macroeconômico hoje é muito superior ao do momento em que foram feitas as concessões mais antigas. Há razoável convicção de que não haverá inflação, que os juros vão cair e que o dólar não vai disparar.Capacidade das empresas privadas - concessão de rodovias (e outros serviços) é um negócio relativamente novo. Só agora existem muitas companhias internacionais, entre as quais as espanholas, que desenvolveram enorme capacidade no setor. O Aeroporto de Heathrow, em Londres, é de propriedade de uma empreiteira espanhola. Por isso, no último leilão brasileiro, apareceram tantas empresas competindo. Isso é outro fator que derruba os preços.E mais: pedágio barato não é garantia de sucesso da operação. Em alguns países, como no México, o fracasso de concessões de rodovias teve como causa justamente o preço baixo do pedágio e os prazos menores de concessão (abaixo dos 20 anos). Com isso, as concessionárias, a um determinado momento, perceberam que não obteriam o retorno do capital e pararam de investir. O barato saiu caro.Por isso cuidado com as comparações entre os preços da última licitação e os das anteriores.O que sabemos é que as atuais estradas privatizadas vão muito bem, obrigado. São as melhores do País, têm o menor número de acidentes. O modelo funcionou.O novo modelo, dos pedágios baratos, ainda não foi testado - e só vai ser testado mesmo sabem quando? No próximo governo, no mesmo período, 2010/2011, em que se saberá se o novo modelo lulista deu conta do fornecimento de energia.É preciso admitir: na política e na mídia, o cara é craque. *Carlos Alberto Sardenberg é jornalista.
Tuesday, October 16, 2007
Uma breve história política da dengue. Ou: quero Cruvinel e Franklin matando mosquito - Blog Reinaldo Azevedo - 16/10/07
Leram esta matéria sobre a dengue no Estadao On line? Vejam. Volto em seguida. Por Eduardo Kattah:O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, reconheceu que o Brasil passa por uma epidemia de dengue e classificou como “injustificável” e “inadmissível” o número de 121 mortes em decorrência da doença no Brasil este ano. Temporão participou do lançamento da campanha nacional de mobilização contra a doença, em Belo Horizonte. Ele afirmou que o índice de óbitos significa deficiência no atendimento da dengue hemorrágica. Conforme dados do Ministério da Saúde, nos nove primeiros meses deste ano, o País registrou 480 mil casos da doença, o que representa um aumento de cerca de 50% em relação ao ano passado.O tema da campanha deste ano é “Combater a dengue é um dever meu, seu e de todos. A dengue pode matar”. A campanha será veiculada de forma regionalizada. Na capital mineira, o ministro informou também que está sendo finalizado o projeto de lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas rodovias federais.Temporão defendeu que, nas discussões sobre novos marcos regulatórios para as concessões de TVs, as emissoras sejam obrigadas a “abrir espaço” em horário nobre para a divulgação de informações que o governo “considere relevantes do ponto de vista da saúde pública” e de outras áreas. “E acabar com essa história de que na verdade eles estão fazendo um favor ao governo. É uma obrigação”, disse. Na capital mineira, ele também se reuniu com o governador Aécio Neves (PSDB), no Palácio das Mangabeiras. Temporão fez uma veemente defesa da prorrogação da CPMF, engrossando a ofensiva do Planalto.VolteiHaverá o dia em que os brasileiros ligarão o homem à obra? Não sei.No dia 25 de fevereiro de 2002, Bernardo Kucinski, um petista que fez parte da equipe de comunicação do primeiro governo Lula, escreveu no site Observatório da Imprensa (por que não?) uma nota chamada “O fantasma da dengue persegue Serra”. Eis o texto: “No Rio, ninguém pode ser convencido de que Serra foi um bom ministro da saúde. As mortes e a dimensão da epidemia falam mais forte. O Globo de domingo tem um caderno especial sobre a dengue, mostrando como a epidemia penetrou em todos os espaços do cotidiano carioca. As manchetes de ontem e de hoje são sobre o perigo de os planos de saúde subirem seus preços por causa da dengue. Um em cada dez cariocas está faltando ao trabalho por causa da dengue. Todos se sentem ameaçados e entidades da sociedade civil começam a agir frente à inépcia das autoridades. Deputados do Rio, informa o JB de hoje, vão pedir uma CPI da dengue.”Reportagem da Folha em 20/09/2002: “O candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), criticou duramente a administração de José serra no Ministério da Saúde durante discurso na quadra da escola de samba Mangueira, no Rio de Janeiro. Sem citar Serra nominalmente, Lula atacou a política de combate à dengue adotada pelo governo federal nos últimos anos e disse que o uso de medicamentos genéricos no país ainda é muito pequeno. Lula fez as declarações ao lançar seu programa de governo para a área da Saúde. "Sabem por que estamos lançando esse programa aqui no Rio? Aqui foi o exemplo do desleixo maior do governo federal no combate à dengue", disse o candidato”.No debate na TV Record, LuLa não teve dúvida: fez uma pergunta sobre a dengue a Anthony Garotinho, que aproveitou para bater no tucano, numa ação coordenada entre ambos.Muito bem. Acima, listei três casos. Se vocês forem ao Google, encontrarão outras centenas. Os casos de dengue não haviam chegado nem perto das ocorrências de hoje. Mais: saibam que 50% dos casos estão no Mato Grosso do Sul. E o feito se deu durante a gestão de Zeca do PT — cuja competência já vai no sobrenome. Seu governo foi um verdadeiro criadouro de mosquito. Sob o olhar cúmplice do Ministério da Saúde. Na gestão Serra, a acusação de que a doença havia fugido do controle era só uma farsa política. Agora é fato.Eis aí. E agora? Lula é o culpado pela dengue? Ora, claro que não! E Temporão ou o ex-ministro Humberto Costa? Seriam eles? É evidente que não. Responsáveis são sempre os outros. A julgar pelas palavras de Temporão, a mídia é um deles. Leiam lá suas palavras. Sabe-se lá por quê, o homem está bravo. Quer uma lei. O Jornal Nacional fez uma série de reportagens a respeito.Mas, se o problema é esse, o ministro da Saúde pode ficar tranqüilo. Em breve, teremos a Lula News. Espero que Franklin Martins e Tereza Cruvinel sejam úteis na tarefa de matar mosquito.
Por Reinaldo Azevedo
Por Reinaldo Azevedo
Saturday, October 13, 2007
O poder das (des)interpretações estatísticas
Ana Lobato, do site www.e-agora.org.br de 17/07/07
A construção, administração e disseminação de estatísticas constitui uma questão central no gerenciamento das sociedades modernas, no planejamento de seu futuro e mesmo na dimensão democrática de um país. A necessidade de instituições independentes do poder político de turno nas tarefas vinculadas à construção das bases de dados parece ser a alternativa mais adequada para reduzir as tentativas quase naturais de todo governo de manipular a construção das bases de dados para se perpetuar e ampliar o poder. No Brasil está, nesse aspecto, no meio caminho entre um Estado totalitário (no qual as estatísticas são assumidas como uma das múltiplas ferramentas de controle social) e um país com maior densidade democrática (no qual a produção de estatísticas é gerada por intuições públicas independentes). Enquanto o IBGE goza de alguma independência e constrói séries com credibilidade a maioria das grandes bases de dados (em geral, registros administrativos) estão administrados por esferas do Governo Federal totalmente vinculadas às instâncias políticas. Em geral, os argumentos que sintetizamos no parágrafo anterior são consensuais. Contudo, um fenômeno de maior sutileza vem se manifestando nos últimos meses e consiste na interpretação das estatísticas. Este tipo de leitura manipulada atingiu tal grau de sofisticação que mesmo nossos quadros técnicos mais qualificados da oposição aderem a este tipo de leitura, tornando menos nítidos os campos nos quais alternativas políticas podem ser desenvolvidas e, involuntariamente, ajudando ao Governo nos seus objetivos de publicidade. Um exemplo dessa leitura está dado pela Nota de Conjuntura que a Assessoria em Finanças Públicas do PSDB/ITV N 062/2007 (do 16/07 a 20/07) e sua análise dos dados do CAGED (emprego formal). A nota afirma que o saldo do emprego no primeiro semestre foi 18,6% superior ao obtido em igual período do ano anterior. Ou seja, comparam-se saldos absolutos e identifica-se uma elevação pouco usual, mesmo em uma conjuntura extremamente dinâmica. Faltou muito pouco para, por meio dessa nota, aderirmos explicitamente ao jargão presidencial: “nunca antes na história deste país” foi gerado tanto emprego com carteira. Este tipo de “análise” é comum nos comunicados com nítido viés demagógico distribuídos para a imprensa pelo Ministério do Trabalho e que mesmo jornais independentes e sérios assumem sem nenhum espírito crítico. A Folha, em recente manchete (21/06/2007) sustentou: ”o emprego formal cresce 19%”. Percentuais de variação de 19% só são críveis em contextos de catástrofe natural, guerra, etc. Nenhum milagre (nem miragem) é capaz de provocar aumentos no emprego de 19%. Qual é a manipulação na interpretação das estatísticas? É simples e mesmo primitiva. Imaginemos que uma economia esteja em um equilíbrio de longo prazo, com crescimento no nível de emprego de 10% por período. Neste caso, partindo de uma base 100, no final do primeiro período terá um emprego de 110, no final do segundo período de 121, no final do terceiro período de 133, etc. Essa hipotética economia está em um equilíbrio de crescimento de 10%. Qual a outra interpretação? Simples, comparar os dados absolutos. O governo vai divulgar que, no primeiro mês foram gerados 10 novos empregos e no segundo mês 11. Ou seja, a economia “estaria” melhor no segundo período uma vez que foram gerados mais empregos. No terceiro período foram gerados 12 novos empregos (133-121) e o desempenho do mercado de trabalho ainda melhorou (“bateu um novo recorde”). Logicamente, as assessorias de comunicação dos Ministérios vão divulgar que “nunca antes neste país” foram gerados tantos empregos. Se a economia continua em um “steady state” de crescimento de 10%, no quarto período o estoque de assalariados será de 146 e a geração de empregos de 13 e, miragem, “nunca antes neste país” foram gerados tantos empregos. Ou seja, no quarto período seriam gerados 30% mais empregos que no primeiro. A economia estaria em uma dinâmica de crescimento rumo ao infinito, o céu é o limite (talvez nem isso). Toda a questão está em que o crescimento das magnitudes econômicas é exponencial e esse fato invalida a comparação de saldos absolutos. Ninguém compara o desempenho do PIB em termos do aumento absoluto senão do relativo e o mesmo teria que ser feito no caso do mercado de trabalho. Que o governo manipule a interpretação das estatísticas dessa forma seria uma coisa esperada. Fato, aliás, vale relembrar, que tem sido feito desde o seu primeiro momento, com as comparações de séries do CAGED que têm metodologias diferentes e que muito combatemos. Que a imprensa e nossos quadros qualificados acompanhem o poder político nessa empreitada explicita de forma inequívoca a densidade do debate no Brasil de hoje. Eles pautam o debate, não questionamentos, apenas repetimos.
A construção, administração e disseminação de estatísticas constitui uma questão central no gerenciamento das sociedades modernas, no planejamento de seu futuro e mesmo na dimensão democrática de um país. A necessidade de instituições independentes do poder político de turno nas tarefas vinculadas à construção das bases de dados parece ser a alternativa mais adequada para reduzir as tentativas quase naturais de todo governo de manipular a construção das bases de dados para se perpetuar e ampliar o poder. No Brasil está, nesse aspecto, no meio caminho entre um Estado totalitário (no qual as estatísticas são assumidas como uma das múltiplas ferramentas de controle social) e um país com maior densidade democrática (no qual a produção de estatísticas é gerada por intuições públicas independentes). Enquanto o IBGE goza de alguma independência e constrói séries com credibilidade a maioria das grandes bases de dados (em geral, registros administrativos) estão administrados por esferas do Governo Federal totalmente vinculadas às instâncias políticas. Em geral, os argumentos que sintetizamos no parágrafo anterior são consensuais. Contudo, um fenômeno de maior sutileza vem se manifestando nos últimos meses e consiste na interpretação das estatísticas. Este tipo de leitura manipulada atingiu tal grau de sofisticação que mesmo nossos quadros técnicos mais qualificados da oposição aderem a este tipo de leitura, tornando menos nítidos os campos nos quais alternativas políticas podem ser desenvolvidas e, involuntariamente, ajudando ao Governo nos seus objetivos de publicidade. Um exemplo dessa leitura está dado pela Nota de Conjuntura que a Assessoria em Finanças Públicas do PSDB/ITV N 062/2007 (do 16/07 a 20/07) e sua análise dos dados do CAGED (emprego formal). A nota afirma que o saldo do emprego no primeiro semestre foi 18,6% superior ao obtido em igual período do ano anterior. Ou seja, comparam-se saldos absolutos e identifica-se uma elevação pouco usual, mesmo em uma conjuntura extremamente dinâmica. Faltou muito pouco para, por meio dessa nota, aderirmos explicitamente ao jargão presidencial: “nunca antes na história deste país” foi gerado tanto emprego com carteira. Este tipo de “análise” é comum nos comunicados com nítido viés demagógico distribuídos para a imprensa pelo Ministério do Trabalho e que mesmo jornais independentes e sérios assumem sem nenhum espírito crítico. A Folha, em recente manchete (21/06/2007) sustentou: ”o emprego formal cresce 19%”. Percentuais de variação de 19% só são críveis em contextos de catástrofe natural, guerra, etc. Nenhum milagre (nem miragem) é capaz de provocar aumentos no emprego de 19%. Qual é a manipulação na interpretação das estatísticas? É simples e mesmo primitiva. Imaginemos que uma economia esteja em um equilíbrio de longo prazo, com crescimento no nível de emprego de 10% por período. Neste caso, partindo de uma base 100, no final do primeiro período terá um emprego de 110, no final do segundo período de 121, no final do terceiro período de 133, etc. Essa hipotética economia está em um equilíbrio de crescimento de 10%. Qual a outra interpretação? Simples, comparar os dados absolutos. O governo vai divulgar que, no primeiro mês foram gerados 10 novos empregos e no segundo mês 11. Ou seja, a economia “estaria” melhor no segundo período uma vez que foram gerados mais empregos. No terceiro período foram gerados 12 novos empregos (133-121) e o desempenho do mercado de trabalho ainda melhorou (“bateu um novo recorde”). Logicamente, as assessorias de comunicação dos Ministérios vão divulgar que “nunca antes neste país” foram gerados tantos empregos. Se a economia continua em um “steady state” de crescimento de 10%, no quarto período o estoque de assalariados será de 146 e a geração de empregos de 13 e, miragem, “nunca antes neste país” foram gerados tantos empregos. Ou seja, no quarto período seriam gerados 30% mais empregos que no primeiro. A economia estaria em uma dinâmica de crescimento rumo ao infinito, o céu é o limite (talvez nem isso). Toda a questão está em que o crescimento das magnitudes econômicas é exponencial e esse fato invalida a comparação de saldos absolutos. Ninguém compara o desempenho do PIB em termos do aumento absoluto senão do relativo e o mesmo teria que ser feito no caso do mercado de trabalho. Que o governo manipule a interpretação das estatísticas dessa forma seria uma coisa esperada. Fato, aliás, vale relembrar, que tem sido feito desde o seu primeiro momento, com as comparações de séries do CAGED que têm metodologias diferentes e que muito combatemos. Que a imprensa e nossos quadros qualificados acompanhem o poder político nessa empreitada explicita de forma inequívoca a densidade do debate no Brasil de hoje. Eles pautam o debate, não questionamentos, apenas repetimos.
No rumo certo - O Estado de São Paulo - 11/10/07
Foi um sucesso o leilão de 2.600 quilômetros de rodovias federais para administração pelo setor privado. Todos os trechos foram arrematados e, além disso, as empresas vencedoras ofereceram pedágios bem abaixo do teto fixado pelo governo. O deságio variou de 39,35% a 65,43%. Trinta consórcios participaram, comprovando a disposição do setor privado de investir na infra-estrutura, se as condições de contrato forem razoáveis e houver o mínimo indispensável de segurança.
Como era previsível, o evento forneceu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva mais uma oportunidade para o auto-elogio e para a comparação triunfal com seu antecessor. Foi, segundo ele, um resultado “espetacular”. O Brasil, disse ele, “deixou de ser um país de faz-de-conta”, agora “com direção” e com “um projeto”. Os fatos, como sempre, não são exatamente aqueles descritos no palavrório presidencial. Se alguma direção e algum projeto estão dando certo, são aqueles definidos pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Quem fez campanha eleitoral falando contra a privatização foi o líder petista, não o seu antecessor.
A grande reorientação da estratégia governamental ocorreu nos anos 90. A desestatização foi motivada por duas considerações. Em primeiro lugar, o poder público já não tinha condições de investir em áreas essenciais. O capital privado podia cuidar dessa tarefa. Em segundo lugar, a privatização permitiria ao governo concentrar-se em funções típicas de Estado. Era oportuno, também por isso, desestatizar várias atividades administradas na maior parte do mundo capitalista pelo setor privado.
O êxito dessa iniciativa é indiscutível para qualquer cidadão informado e de boa-fé. A maior parte das empresas privatizadas cresceu, modernizou-se, conquistou espaços no mercado internacional e passou a pagar enorme volume de impostos. As siderúrgicas, a Vale do Rio Doce e a Embraer são exemplos inegáveis de sucesso.
A novidade importante do leilão de rodovias é a mudança de critérios. As concessões foram negociadas não pelo maior preço, mas pela menor tarifa. Essa é uma evolução positiva, mas a idéia já estava em discussão antes de começar o governo petista. O critério das primeiras privatizações não era o ideal, mas há explicação para isso.
A desestatização coincidiu, na fase inicial, com o primeiro esforço de recuperação das finanças públicas, arrasadas por uma longa fase de baderna fiscal, de má administração de estatais e de irresponsabilidade monetária. Parte considerável da esquerda brasileira, incluídas correntes importantes do Partido dos Trabalhadores, freqüentemente se mostra saudosas desses tempos. Não se contentam com as possibilidades ainda existentes de empreguismo, de aparelhamento e de uso político das empresas e autarquias do Estado.
A mudança de critério, embora positiva, poderá criar problemas. Os novos pedágios serão bem mais baixos que aqueles cobrados nas rodovias já privatizadas. Essa diferença poderá servir de pretexto para protestos, pressões políticas e ações judiciais para equalização de tarifas.
Os novos contratos são muito diferentes dos velhos, porque os últimos leilões não envolveram pagamento pelas concessões. Os cálculos de amortização de investimentos e de rentabilidade são, portanto, muito diversos, mas nem todos estarão dispostos a levar em conta esse dado - e nem todos estarão preparados para entender a distinção.
As circunstâncias diferem também quanto a outro aspecto muito importante. Os anos 90 foram a fase inicial de reconstrução da economia brasileira. Os analistas podiam reconhecer o acerto das novas políticas, mas o setor público brasileiro tinha uma longa história de irresponsabilidade e de instabilidade. Foram necessários muitos anos para o Brasil conquistar o status de país confiável.
Essa conquista só foi possível graças ao esforço de ajuste das finanças públicas dos primeiros anos do real. Além disso, as condições dos mercados globais eram muito menos favoráveis. O governo petista nada teria feito sem essa herança bendita. E fez menos do que poderia ter feito, se não tivesse desperdiçado - com o atraso das licitações, por exemplo - boa parte das oportunidades oferecidas por um ambiente global extraordinariamente propício.
Como era previsível, o evento forneceu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva mais uma oportunidade para o auto-elogio e para a comparação triunfal com seu antecessor. Foi, segundo ele, um resultado “espetacular”. O Brasil, disse ele, “deixou de ser um país de faz-de-conta”, agora “com direção” e com “um projeto”. Os fatos, como sempre, não são exatamente aqueles descritos no palavrório presidencial. Se alguma direção e algum projeto estão dando certo, são aqueles definidos pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Quem fez campanha eleitoral falando contra a privatização foi o líder petista, não o seu antecessor.
A grande reorientação da estratégia governamental ocorreu nos anos 90. A desestatização foi motivada por duas considerações. Em primeiro lugar, o poder público já não tinha condições de investir em áreas essenciais. O capital privado podia cuidar dessa tarefa. Em segundo lugar, a privatização permitiria ao governo concentrar-se em funções típicas de Estado. Era oportuno, também por isso, desestatizar várias atividades administradas na maior parte do mundo capitalista pelo setor privado.
O êxito dessa iniciativa é indiscutível para qualquer cidadão informado e de boa-fé. A maior parte das empresas privatizadas cresceu, modernizou-se, conquistou espaços no mercado internacional e passou a pagar enorme volume de impostos. As siderúrgicas, a Vale do Rio Doce e a Embraer são exemplos inegáveis de sucesso.
A novidade importante do leilão de rodovias é a mudança de critérios. As concessões foram negociadas não pelo maior preço, mas pela menor tarifa. Essa é uma evolução positiva, mas a idéia já estava em discussão antes de começar o governo petista. O critério das primeiras privatizações não era o ideal, mas há explicação para isso.
A desestatização coincidiu, na fase inicial, com o primeiro esforço de recuperação das finanças públicas, arrasadas por uma longa fase de baderna fiscal, de má administração de estatais e de irresponsabilidade monetária. Parte considerável da esquerda brasileira, incluídas correntes importantes do Partido dos Trabalhadores, freqüentemente se mostra saudosas desses tempos. Não se contentam com as possibilidades ainda existentes de empreguismo, de aparelhamento e de uso político das empresas e autarquias do Estado.
A mudança de critério, embora positiva, poderá criar problemas. Os novos pedágios serão bem mais baixos que aqueles cobrados nas rodovias já privatizadas. Essa diferença poderá servir de pretexto para protestos, pressões políticas e ações judiciais para equalização de tarifas.
Os novos contratos são muito diferentes dos velhos, porque os últimos leilões não envolveram pagamento pelas concessões. Os cálculos de amortização de investimentos e de rentabilidade são, portanto, muito diversos, mas nem todos estarão dispostos a levar em conta esse dado - e nem todos estarão preparados para entender a distinção.
As circunstâncias diferem também quanto a outro aspecto muito importante. Os anos 90 foram a fase inicial de reconstrução da economia brasileira. Os analistas podiam reconhecer o acerto das novas políticas, mas o setor público brasileiro tinha uma longa história de irresponsabilidade e de instabilidade. Foram necessários muitos anos para o Brasil conquistar o status de país confiável.
Essa conquista só foi possível graças ao esforço de ajuste das finanças públicas dos primeiros anos do real. Além disso, as condições dos mercados globais eram muito menos favoráveis. O governo petista nada teria feito sem essa herança bendita. E fez menos do que poderia ter feito, se não tivesse desperdiçado - com o atraso das licitações, por exemplo - boa parte das oportunidades oferecidas por um ambiente global extraordinariamente propício.
Saturday, September 29, 2007
Monday, September 24, 2007
Por que um certo Mano Brown é superior a Cristo - Blog Reinaldo Azevedo - 24/09/07
No dia 9 de fevereiro, antes ainda de Mano Brown atrasar 90 minutos o início de seu “show” na virada cultural e, assim, colaborar para o confronto entre os seus crentes e a polícia — que certo jornalismo vendeu, claro, como exagero das “forças de repressão” —, publiquei o post que segue abaixo. Republico para que vocês, caso vejam o Roda Viva de hoje, tenham mais elementos:
*
Falemos um pouco sobre a glorificação da violência e da chamada cultura da periferia. É claro que eu nunca ouvi um troço chamado Racionais MCs. Nem vou ouvir. Ah, pai autoritário que sou, também não permitiria que minhas filhas ouvissem em casa. Podem ouvir fora? Não tenho como controlar. Com o meu assentimento, não. Já me basta o que volta e meia sai na mídia sobre esses pensadores. A Ilustrada, da Folha, traz hoje uma reportagem sobre o lançamento de um DVD do grupo. Um deles, o rapper Ice Blue, afirma: “A gente se vê como um movimento de guerrilha, e é isso o que queremos preservar". O Manual da Folha, às vezes, informa mais do que a reportagem. Está lá: o cara tem 36 anos. Eis uma coisa que eu nunca tinha imaginado: um rapper coroa. A última vez que fiquei com um pouco de vergonha vendo o que os outros fazem foi um flash de Mick Jagger rebolando no Rio. Parecia uma “cobra mar matada”, como se dizia no sítio de Dois Córregos em que passei parte da infância, onde lia Robinson Crusoé, como naquele poema de Drummond. Um lance de pura sorte.
Bão, bão... Há uma crítica sobre o DVD intitulada “Cenas indicam a força de Mano Brown”. Deve ser o líder do grupo. Lê-se o que vai em vermelho. Comento em azul.
Se não fizerem mais nada de novo nos próximos anos, os Racionais já terão entrado para a história por dar uma voz e um rosto à periferia. Graças a eles, jovens de todas as "quebradas" do país têm orgulho de dizer de onde vêm e de mostrar sua moda, gíria e jeito de falar -até na TV Globo.
Vejam que os rapazes nem mesmo entraram para a história da música. É a história mesmo. Como Júlio César ou Churchill.
O registro desse fenômeno é o maior mérito do DVD, que dá uma idéia de quem são os Racionais e de seu poder de mobilização. Isso fica claro quando uma multidão de meninos e meninas acompanha Mano Brown, recitando o poema que abre a música "Vida Loka [Parte 1]".
Eu não sabia o que era isso e fui procurar na Internet. Achei. É uma letra imensa. Lê-se lá:
"- e ai brown é os espião irmão!
- to com os mao ai, eu vo, to indo ali na zona leste ai, tipo umas 11 horas eu já to voltando já moro?
- ta firmao ai brown ai mano eu vo disliga, mais tu manda um salve pros mano da quebrada ai moro? o giu moro mano? o batatao moro? pro pacheco, pro porquinho pro xande pro dé moro meu? ai no dia do jogo os mano
do exauta samba vao vim manda um salve pro binha la moro? fica com Deus Irmão. Falou"
É o mesmo “salve” do PCC ou é outro? Poema? Como o de Drummond?
Assistir a Brown em ação é uma experiência que todos deveriam ter.
Obrigado, moça! Vejam só: jamais sairia num jornal de grande circulação algo como: “Crer no poder redentor do sangue de Cristo é uma experiência que todos deveriam ter”. Cheiraria a coisa carola, cafona, a imposição religiosa. Logo, você conclui que Mano Brown, na escala dos ungidos ou dos profetas, é superior a Cristo.
No palco, ele assume personagens. É o poeta que chora, o ladrão que tenta mudar de vida, o "cachorro" com várias meninas.
Gostei do “ladrão que tenta mudar de vida”. Não conheço a letra. Mas aposto Nederland (“países baixos”, em neerlandês) que o coitadinho tentou mudar de vida, mas a sociedade não deixou. A sociedade é má.
Nos bastidores, no entanto, cercado pelos filhos, rindo com os amigos ou falando sobre diferenças sociais, cai a imagem de durão e entra o pensador. Um dos maiores que temos no mundo musical.
Pensador? Como Platão, Schopenhauer, Kierkegaard, Kant? Ah, não. É “pensador do/no mundo musical”. Então tá. Mais um pouco de Vida Loka, a crítica da razão pura:
e ai bandi do mal como que é meu parceiro?
- como que é brown firmão truta?
- firmeza total mano... e a quebrada ali?
- ta a pampa, aí fiquei sabendo do seu pai irmão, lamentável, um sentimento mesmo irmão!
- vai vendo brother, meu pai morreu e num deixaram eu ir nem no interro do meu coroa não irmão
- isso é loco, vc tava aonde na hora?
- tava batendo uma bola meu, fiquei mo na neurose irmão.
- ai vieram ti avisar?
- é vieram me avisar, mais ta firmao brother, eu to firmão, logo mais to ai na quebrada com vcs ai
- é quente, na rua tbm num ta facil nao moro truta? ums juntado inimigo, outros juntando dinheiro, sempre tem um pra testa sua fé mais cta ligado sempre tem ums corre pra nois faze, ai mano liga, liga nois ai qual quer coisa lado a lado nois até o fim moro mano?
-to ligado!
Por Reinaldo Azevedo 14:09
*
Falemos um pouco sobre a glorificação da violência e da chamada cultura da periferia. É claro que eu nunca ouvi um troço chamado Racionais MCs. Nem vou ouvir. Ah, pai autoritário que sou, também não permitiria que minhas filhas ouvissem em casa. Podem ouvir fora? Não tenho como controlar. Com o meu assentimento, não. Já me basta o que volta e meia sai na mídia sobre esses pensadores. A Ilustrada, da Folha, traz hoje uma reportagem sobre o lançamento de um DVD do grupo. Um deles, o rapper Ice Blue, afirma: “A gente se vê como um movimento de guerrilha, e é isso o que queremos preservar". O Manual da Folha, às vezes, informa mais do que a reportagem. Está lá: o cara tem 36 anos. Eis uma coisa que eu nunca tinha imaginado: um rapper coroa. A última vez que fiquei com um pouco de vergonha vendo o que os outros fazem foi um flash de Mick Jagger rebolando no Rio. Parecia uma “cobra mar matada”, como se dizia no sítio de Dois Córregos em que passei parte da infância, onde lia Robinson Crusoé, como naquele poema de Drummond. Um lance de pura sorte.
Bão, bão... Há uma crítica sobre o DVD intitulada “Cenas indicam a força de Mano Brown”. Deve ser o líder do grupo. Lê-se o que vai em vermelho. Comento em azul.
Se não fizerem mais nada de novo nos próximos anos, os Racionais já terão entrado para a história por dar uma voz e um rosto à periferia. Graças a eles, jovens de todas as "quebradas" do país têm orgulho de dizer de onde vêm e de mostrar sua moda, gíria e jeito de falar -até na TV Globo.
Vejam que os rapazes nem mesmo entraram para a história da música. É a história mesmo. Como Júlio César ou Churchill.
O registro desse fenômeno é o maior mérito do DVD, que dá uma idéia de quem são os Racionais e de seu poder de mobilização. Isso fica claro quando uma multidão de meninos e meninas acompanha Mano Brown, recitando o poema que abre a música "Vida Loka [Parte 1]".
Eu não sabia o que era isso e fui procurar na Internet. Achei. É uma letra imensa. Lê-se lá:
"- e ai brown é os espião irmão!
- to com os mao ai, eu vo, to indo ali na zona leste ai, tipo umas 11 horas eu já to voltando já moro?
- ta firmao ai brown ai mano eu vo disliga, mais tu manda um salve pros mano da quebrada ai moro? o giu moro mano? o batatao moro? pro pacheco, pro porquinho pro xande pro dé moro meu? ai no dia do jogo os mano
do exauta samba vao vim manda um salve pro binha la moro? fica com Deus Irmão. Falou"
É o mesmo “salve” do PCC ou é outro? Poema? Como o de Drummond?
Assistir a Brown em ação é uma experiência que todos deveriam ter.
Obrigado, moça! Vejam só: jamais sairia num jornal de grande circulação algo como: “Crer no poder redentor do sangue de Cristo é uma experiência que todos deveriam ter”. Cheiraria a coisa carola, cafona, a imposição religiosa. Logo, você conclui que Mano Brown, na escala dos ungidos ou dos profetas, é superior a Cristo.
No palco, ele assume personagens. É o poeta que chora, o ladrão que tenta mudar de vida, o "cachorro" com várias meninas.
Gostei do “ladrão que tenta mudar de vida”. Não conheço a letra. Mas aposto Nederland (“países baixos”, em neerlandês) que o coitadinho tentou mudar de vida, mas a sociedade não deixou. A sociedade é má.
Nos bastidores, no entanto, cercado pelos filhos, rindo com os amigos ou falando sobre diferenças sociais, cai a imagem de durão e entra o pensador. Um dos maiores que temos no mundo musical.
Pensador? Como Platão, Schopenhauer, Kierkegaard, Kant? Ah, não. É “pensador do/no mundo musical”. Então tá. Mais um pouco de Vida Loka, a crítica da razão pura:
e ai bandi do mal como que é meu parceiro?
- como que é brown firmão truta?
- firmeza total mano... e a quebrada ali?
- ta a pampa, aí fiquei sabendo do seu pai irmão, lamentável, um sentimento mesmo irmão!
- vai vendo brother, meu pai morreu e num deixaram eu ir nem no interro do meu coroa não irmão
- isso é loco, vc tava aonde na hora?
- tava batendo uma bola meu, fiquei mo na neurose irmão.
- ai vieram ti avisar?
- é vieram me avisar, mais ta firmao brother, eu to firmão, logo mais to ai na quebrada com vcs ai
- é quente, na rua tbm num ta facil nao moro truta? ums juntado inimigo, outros juntando dinheiro, sempre tem um pra testa sua fé mais cta ligado sempre tem ums corre pra nois faze, ai mano liga, liga nois ai qual quer coisa lado a lado nois até o fim moro mano?
-to ligado!
Por Reinaldo Azevedo 14:09
Tuesday, September 18, 2007
Nossas crianças estão entregues à sanha esquerdopata - Blog Reinaldo Azevedo 18/09/07
Artigo do jornalista Ali Kamel, no Globo de hoje, está gerando o merecido barulho. Leia-o quem ainda não leu. Voltarei ao tema nos posts seguintes:
O que ensinam às nossas crianças
Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo. O psicanalista Francisco Daudt me fez chegar às mãos o livro didático "Nova História Crítica, 8ª série" distribuído gratuitamente pelo MEC a 750 mil alunos da rede pública. O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Impossível contar tudo o que há no livro. Por isso, cito apenas alguns trechos.
Sobre o que é hoje o capitalismo: "Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários.
"Sobre o ideal marxista: "Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores." Sobre Mao Tse-tung: "Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.
"Sobre a Revolução Cultural Chinesa: "Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (...) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (...) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (...) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes "politicamente esclerosados". (...) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: "Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo." As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo.
"Sobre a Revolução Cubana e o paredão: "A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular." Sobre as primeiras medidas de Fidel: "O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%." Essas medidas eram justificadas assim: "Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde."
Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: "Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA. (...) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?"
Sobre os motivos da derrocada da URSS: "É claro que a população soviética não estava passando fome. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (...) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas... Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinham (sic) inveja da classe média dos países desenvolvidos (...) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (...) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (...) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?"
Esses são apenas alguns poucos exemplos. Há muito mais. De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas apenas um pesadelo?
Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Se não for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém.
Por Reinaldo Azevedo 17:56
O que ensinam às nossas crianças
Não vou importunar o leitor com teorias sobre Gramsci, hegemonia, nada disso. Ao fim da leitura, tenho certeza de que todos vão entender o que se está fazendo com as nossas crianças e com que objetivo. O psicanalista Francisco Daudt me fez chegar às mãos o livro didático "Nova História Crítica, 8ª série" distribuído gratuitamente pelo MEC a 750 mil alunos da rede pública. O que ele leu ali é de dar medo. Apenas uma tentativa de fazer nossas crianças acreditarem que o capitalismo é mau e que a solução de todos os problemas é o socialismo, que só fracassou até aqui por culpa de burocratas autoritários. Impossível contar tudo o que há no livro. Por isso, cito apenas alguns trechos.
Sobre o que é hoje o capitalismo: "Terras, minas e empresas são propriedade privada. As decisões econômicas são tomadas pela burguesia, que busca o lucro pessoal. Para ampliar as vendas no mercado consumidor, há um esforço em fazer produtos modernos. Grandes diferenças sociais: a burguesia recebe muito mais do que o proletariado. O capitalismo funciona tanto com liberdades como em regimes autoritários.
"Sobre o ideal marxista: "Terras, minas e empresas pertencem à coletividade. As decisões econômicas são tomadas democraticamente pelo povo trabalhador, visando o (sic) bem-estar social. Os produtores são os próprios consumidores, por isso tudo é feito com honestidade para agradar à (sic) toda a população. Não há mais ricos, e as diferenças sociais são pequenas. Amplas liberdades democráticas para os trabalhadores." Sobre Mao Tse-tung: "Foi um grande estadista e comandante militar. Escreveu livros sobre política, filosofia e economia. Praticou esportes até a velhice. Amou inúmeras mulheres e por elas foi correspondido. Para muitos chineses, Mao é ainda um grande herói. Mas para os chineses anticomunistas, não passou de um ditador.
"Sobre a Revolução Cultural Chinesa: "Foi uma experiência socialista muito original. As novas propostas eram discutidas animadamente. Grandes cartazes murais, os dazibaos, abriam espaço para o povo manifestar seus pensamentos e suas críticas. Velhos administradores foram substituídos por rapazes cheios de idéias novas. Em todos os cantos, se falava da luta contra os quatro velhos: velhos hábitos, velhas culturas, velhas idéias, velhos costumes. (...) No início, o presidente Mao Tse-tung foi o grande incentivador da mobilização da juventude a favor da Revolução Cultural. (...) Milhões de jovens formavam a Guarda Vermelha, militantes totalmente dedicados à luta pelas mudanças. (...) Seus militantes invadiam fábricas, prefeituras e sedes do PC para prender dirigentes "politicamente esclerosados". (...) A Guarda Vermelha obrigou os burocratas a desfilar pelas ruas das cidades com cartazes pregados nas costas com dizeres do tipo: "Fui um burocrata mais preocupado com o meu cargo do que com o bem-estar do povo." As pessoas riam, jogavam objetos e até cuspiam. A Revolução Cultural entusiasmava e assustava ao mesmo tempo.
"Sobre a Revolução Cubana e o paredão: "A reforma agrária, o confisco dos bens de empresas norte-americanas e o fuzilamento de torturadores do exército de Fulgêncio Batista tiveram inegável apoio popular." Sobre as primeiras medidas de Fidel: "O governo decretou que os aluguéis deveriam ser reduzidos em 50%, os livros escolares e os remédios, em 25%." Essas medidas eram justificadas assim: "Ninguém possui o direito de enriquecer com as necessidades vitais do povo de ter moradia, educação e saúde."
Sobre o futuro de Cuba, após as dificuldades enfrentadas, segundo o livro, pela oposição implacável dos EUA e o fim da ajuda da URSS: "Uma parte significativa da população cubana guarda a esperança de que se Fidel Castro sair do governo e o país voltar a ser capitalista, haverá muitos investimentos dos EUA. (...) Mas existe (sic) também as possibilidades de Cuba voltar a ter favelas e crianças abandonadas, como no tempo de Fulgêncio Batista. Quem pode saber?"
Sobre os motivos da derrocada da URSS: "É claro que a população soviética não estava passando fome. O desenvolvimento econômico e a boa distribuição de renda garantiam o lar e o jantar para cada cidadão. Não existia inflação nem desemprego. Todo ensino era gratuito e muitos filhos de operários e camponeses conseguiam cursar as melhores faculdades. (...) Medicina gratuita, aluguel que custava o preço de três maços de cigarro, grandes cidades sem crianças abandonadas nem favelas... Para nós, do Terceiro Mundo, quase um sonho não é verdade? Acontecia que o povo da segunda potência mundial não queria só melhores bens de consumo. Principalmente a intelligentsia (os profissionais com curso superior) tinham (sic) inveja da classe média dos países desenvolvidos (...) Queriam ter dois ou três carros importados na garagem de um casarão, freqüentar bons restaurantes, comprar aparelhagens eletrônicas sofisticadas, roupas de marcas famosas, jóias. (...) Karl Marx não pensava que o socialismo pudesse se desenvolver num único país, menos ainda numa nação atrasada e pobre como a Rússia tzarista. (...) Fica então uma velha pergunta: e se a revolução tivesse estourado num país desenvolvido como os EUA e a Alemanha? Teria fracassado também?"
Esses são apenas alguns poucos exemplos. Há muito mais. De que forma nossas crianças poderão saber que Mao foi um assassino frio de multidões? Que a Revolução Cultural foi uma das maiores insanidades que o mundo presenciou, levando à morte de milhões? Que Cuba é responsável pelos seus fracassos e que o paredão levou à morte, em julgamentos sumários, não torturadores, mas milhares de oponentes do novo regime? E que a URSS não desabou por sentimentos de inveja, mas porque o socialismo real, uma ditadura que esmaga o indivíduo, provou-se não um sonho, mas apenas um pesadelo?
Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Se não for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém.
Por Reinaldo Azevedo 17:56
Monday, September 17, 2007
Vale do Rio Doce: a verdade é a kriptonita do PT - Blog Reinaldo Azevedo 17/09/07
Tire cópia.
Guarde na carteira.
Use como uma arma da inteligência contra a empulhação.
Estou me referindo ao artigo que Eduardo Graeff escreve hoje na Folha (“Lula e seus militantes amestrados”) sobre essa conversa mole da privatização da Vale do Rio Doce (íntegra no post abaixo). Sempre que um petista, com a fala perturbada e o olhar esgazeado pela ideologia bananeira, babar números inconseqüentes, vocês devem fulminá-lo com a verdade. A verdade é a kriptonita do petista.
A gestão da Vale foi, felizmente, privatizada, sim. E, por conta disso:
1 – Em seis anos, ela recebeu US$ 44,6 bilhões em investimentos: nos 54 anos de estatismo, foram US$ 24 bilhões;
2 – Em 1997, inteiramente estatal, empregava 11 mil pessoas; hoje, 56 mil;
3 – Como estatal, produzia 35 milhões de toneladas de ferro; hoje, são 300 milhões;
4 – Em 1997, exportou US$ 3 bilhões; em 2006, US$ 10 bilhões (mais de um quarto do saldo positivo da balança comercial);
5 – Se a empresa realmente vale hoje US$ 50 bilhões, TRATA-SE DA VALE INTEIRA; em 1997, venderam-se se por US$ 3 bilhões APENAS 42% das ações ordinárias;
6 – Quem continua a ser o verdadeiro “dono” da Vale? O fundo de pensão do Banco do Brasil e o BNDES: eles detêm dois terços do capital da empresa;
7- O outro terço se distribui entre Bradesco, a japonesa Mitsui e mais de 500 mil brasileiros que aplicaram parte do FGTS em ações da companhia.
Isso que vai acima é a verdade. Não a cascata que está sendo contada nas igrejas por padres que entendem de economia o que tendem dos Evangelhos: NADA!!! Eis a verdade, não o que os bispos brasileiros permitem que se fale nos púlpitos. Se quer entrar nesse mérito mundano, que nada tem a ver com Deus, dom Odilo Scherer deveria levar a boa-nova a seus fiéis, em vez conspurcar o altar com a urna da mistificação.
A mentira é coisa do demônio, bispo!
A verdade sobre a Vale também é a verdade sobre as outras empresas privatizadas, especialmente no setor de telefonia. Ou daquela que é hoje um caso de sucesso global: a Embraer, que foi da falência certa a um caso formidável de sucesso.
Vocês conhecem a capacidade da esquerda de contar mentiras. Mais do que isso: ela acha que a mentira é moral se for para garantir o que entende ser o bem da humanidade. Ela não tem qualquer receio de fraudar, de trapacear, de enganar se for para ver triunfar a sua verdade particular. Também é capaz de matar. Em proporções industriais. Não! Em proporções que faria Homero corar.
Lembram-se do post sobre a entrevista de Marxilena Oiapoque à revista argentina Debate? Ela admite que o PT meteu a mão na sujeira, mas diz que seu maior patrimônio é a “ética na política”. E isso significa que ela não distingue a fronteira entre a verdade e a mentira.
Não permita que a baba hidrófoba se espalhe por aí. Contra ela, use apenas a verdade.
Por Reinaldo Azevedo 15:10
Guarde na carteira.
Use como uma arma da inteligência contra a empulhação.
Estou me referindo ao artigo que Eduardo Graeff escreve hoje na Folha (“Lula e seus militantes amestrados”) sobre essa conversa mole da privatização da Vale do Rio Doce (íntegra no post abaixo). Sempre que um petista, com a fala perturbada e o olhar esgazeado pela ideologia bananeira, babar números inconseqüentes, vocês devem fulminá-lo com a verdade. A verdade é a kriptonita do petista.
A gestão da Vale foi, felizmente, privatizada, sim. E, por conta disso:
1 – Em seis anos, ela recebeu US$ 44,6 bilhões em investimentos: nos 54 anos de estatismo, foram US$ 24 bilhões;
2 – Em 1997, inteiramente estatal, empregava 11 mil pessoas; hoje, 56 mil;
3 – Como estatal, produzia 35 milhões de toneladas de ferro; hoje, são 300 milhões;
4 – Em 1997, exportou US$ 3 bilhões; em 2006, US$ 10 bilhões (mais de um quarto do saldo positivo da balança comercial);
5 – Se a empresa realmente vale hoje US$ 50 bilhões, TRATA-SE DA VALE INTEIRA; em 1997, venderam-se se por US$ 3 bilhões APENAS 42% das ações ordinárias;
6 – Quem continua a ser o verdadeiro “dono” da Vale? O fundo de pensão do Banco do Brasil e o BNDES: eles detêm dois terços do capital da empresa;
7- O outro terço se distribui entre Bradesco, a japonesa Mitsui e mais de 500 mil brasileiros que aplicaram parte do FGTS em ações da companhia.
Isso que vai acima é a verdade. Não a cascata que está sendo contada nas igrejas por padres que entendem de economia o que tendem dos Evangelhos: NADA!!! Eis a verdade, não o que os bispos brasileiros permitem que se fale nos púlpitos. Se quer entrar nesse mérito mundano, que nada tem a ver com Deus, dom Odilo Scherer deveria levar a boa-nova a seus fiéis, em vez conspurcar o altar com a urna da mistificação.
A mentira é coisa do demônio, bispo!
A verdade sobre a Vale também é a verdade sobre as outras empresas privatizadas, especialmente no setor de telefonia. Ou daquela que é hoje um caso de sucesso global: a Embraer, que foi da falência certa a um caso formidável de sucesso.
Vocês conhecem a capacidade da esquerda de contar mentiras. Mais do que isso: ela acha que a mentira é moral se for para garantir o que entende ser o bem da humanidade. Ela não tem qualquer receio de fraudar, de trapacear, de enganar se for para ver triunfar a sua verdade particular. Também é capaz de matar. Em proporções industriais. Não! Em proporções que faria Homero corar.
Lembram-se do post sobre a entrevista de Marxilena Oiapoque à revista argentina Debate? Ela admite que o PT meteu a mão na sujeira, mas diz que seu maior patrimônio é a “ética na política”. E isso significa que ela não distingue a fronteira entre a verdade e a mentira.
Não permita que a baba hidrófoba se espalhe por aí. Contra ela, use apenas a verdade.
Por Reinaldo Azevedo 15:10
Lula e seus militantes amestrados - Eduardo Graeff, Folha de S. Paulo (17/09/07)
O PLEBISCITO sobre a privatização da Companhia Vale do Rio Doce não foi para valer, Lula esclareceu na coletiva de rádio dias depois de o PT anunciar sua adesão à iniciativa do MST e outros. A rigor, o "não tenho nada com isso" dele também não é para valer.
Às vésperas do plebiscito, enquanto o presidente da República negava que a reestatização da Vale estivesse ou pudesse vir a estar na agenda de seu governo, militantes de camiseta vermelha recolhiam assinaturas para o plebiscito comodamente instalados na portaria do Ministério do Planejamento ao som do hino da Internacional Comunista. O que vale mais: a palavra do presidente ou as centenas de milhões de reais com que ele irriga o MST, a CUT, a UNE etc.?
Uma coisa pela outra, eu diria. Falsa como uma nota de três reais é a razão formal que ele alegou para se dissociar da onda reestatizante: houve um "ato jurídico" que o governo deve respeitar. Se tivesse sombra de dúvida que o ato foi fraudulento, como gritam os "excluídos" chapa-branca, teria por obrigação mandar apurar e desfazer o malfeito. Não fará nada, como não fez até hoje, porque não quer assustar o mercado nem ter que passar um atestado de idoneidade ao processo de privatização. Bom mesmo é deixar suspeitas no ar e faturar eleitoralmente, como fez com o boato de privatização do Banco do Brasil em 2006.
Melhor ainda juntar o proveito político do reflexo condicionado antiprivatização com o proveito econômico da Vale privatizada. Recorde de investimento: US$ 44,6 bilhões nos últimos seis anos contra US$ 24 bilhões nos 54 anos anteriores. Recorde de produção: 300 milhões de toneladas de minério neste ano contra média anual de 35 milhões da Vale estatal. Recorde de emprego: 56 mil empregos diretos hoje contra 11 mil há dez anos. Recorde de exportações: quase US$ 10 bilhões em 2006 contra US$ 3 bilhões em 1997, garantindo mais de um quarto do saldo da balança comercial "deste país".
A Vale não é exceção. Da Embraer à telefonia, passando pela siderurgia e petroquímica, o desempenho de quase todas as empresas privatizadas é uma história de sucesso em benefício de seus compradores e empregados e do país.A isso o estatista contrapõe números que são, eles sim, fraude grosseira: a comparação dos US$ 3 bilhões pelos quais a União vendeu 42% de suas ações ordinárias da Vale em 1997 com os US$ 50 bilhões que a Vale inteira valeria hoje, depois de toda a expansão possibilitada pela privatização.
E quem foram os beneficiários desse "ato de lesa-pátria"? A quem pertence a Vale privatizada? Aos funcionários e aposentados do Banco do Brasil, principalmente, por intermédio de seu fundo de pensão. Com o BNDES, eles detêm dois terços do capital da Vale. O restante se distribui entre o Bradesco, a "trading" japonesa Mitsui e mais de 500 mil brasileiros que aplicaram parte do FGTS em ações da companhia. O padrão de gestão da Vale é privado. A propriedade, como se vê, nem tanto. Depois de privatizada, a empresa recolheu aos cofres da União, em impostos e dividendos, algumas vezes mais do que fez ao longo de toda a sua existência como estatal.
Os obreiros do plebiscito e até, forçando a barra, os padres que ecoam essa gritaria inconseqüente dentro das igrejas podem pretextar ignorância. Lula e os dirigentes do PT, não. Esses usam deliberadamente o fantasma da privatização como uma distração para a sua militância -um osso de mentira que se dá a um cachorrinho para ele não roer a mobília.
Um placebo ideológico aqui, uma verbinha acolá, empregos a rodo, barriga cheia, lá vai a militância petista fazer seu número. Pula! Late! E Lula pisca o olho para as visitas: "É brincadeira, gente! Senta que o Lulu é manso".Os empresários sorriem de volta, fingem que acreditam, mas pensam dez vezes antes de botar a mão no bolso. Para eles, pior do que a encenação dos militantes é a falta de vontade e/ ou capacidade do governo de estabelecer regras claras e um ambiente político confiável para os investimentos privados em infra-estrutura.
A conta das ambigüidades virá aí por 2010, prevêem os especialistas, quando o fantasma do racionamento de energia elétrica deve voltar a rondar, dessa vez não por falta de chuva, mas de investimento. Ou quem sabe em 2011. Já pensaram na ironia? Um novo governo às voltas com o apagão, a militância petista a todo vapor de volta à oposição e Lula na Guarapiranga, pescando suas tilápias...
EDUARDO GRAEFF, 57, é cientista político. Foi secretário-geral da Presidência da República no governo FHC
Às vésperas do plebiscito, enquanto o presidente da República negava que a reestatização da Vale estivesse ou pudesse vir a estar na agenda de seu governo, militantes de camiseta vermelha recolhiam assinaturas para o plebiscito comodamente instalados na portaria do Ministério do Planejamento ao som do hino da Internacional Comunista. O que vale mais: a palavra do presidente ou as centenas de milhões de reais com que ele irriga o MST, a CUT, a UNE etc.?
Uma coisa pela outra, eu diria. Falsa como uma nota de três reais é a razão formal que ele alegou para se dissociar da onda reestatizante: houve um "ato jurídico" que o governo deve respeitar. Se tivesse sombra de dúvida que o ato foi fraudulento, como gritam os "excluídos" chapa-branca, teria por obrigação mandar apurar e desfazer o malfeito. Não fará nada, como não fez até hoje, porque não quer assustar o mercado nem ter que passar um atestado de idoneidade ao processo de privatização. Bom mesmo é deixar suspeitas no ar e faturar eleitoralmente, como fez com o boato de privatização do Banco do Brasil em 2006.
Melhor ainda juntar o proveito político do reflexo condicionado antiprivatização com o proveito econômico da Vale privatizada. Recorde de investimento: US$ 44,6 bilhões nos últimos seis anos contra US$ 24 bilhões nos 54 anos anteriores. Recorde de produção: 300 milhões de toneladas de minério neste ano contra média anual de 35 milhões da Vale estatal. Recorde de emprego: 56 mil empregos diretos hoje contra 11 mil há dez anos. Recorde de exportações: quase US$ 10 bilhões em 2006 contra US$ 3 bilhões em 1997, garantindo mais de um quarto do saldo da balança comercial "deste país".
A Vale não é exceção. Da Embraer à telefonia, passando pela siderurgia e petroquímica, o desempenho de quase todas as empresas privatizadas é uma história de sucesso em benefício de seus compradores e empregados e do país.A isso o estatista contrapõe números que são, eles sim, fraude grosseira: a comparação dos US$ 3 bilhões pelos quais a União vendeu 42% de suas ações ordinárias da Vale em 1997 com os US$ 50 bilhões que a Vale inteira valeria hoje, depois de toda a expansão possibilitada pela privatização.
E quem foram os beneficiários desse "ato de lesa-pátria"? A quem pertence a Vale privatizada? Aos funcionários e aposentados do Banco do Brasil, principalmente, por intermédio de seu fundo de pensão. Com o BNDES, eles detêm dois terços do capital da Vale. O restante se distribui entre o Bradesco, a "trading" japonesa Mitsui e mais de 500 mil brasileiros que aplicaram parte do FGTS em ações da companhia. O padrão de gestão da Vale é privado. A propriedade, como se vê, nem tanto. Depois de privatizada, a empresa recolheu aos cofres da União, em impostos e dividendos, algumas vezes mais do que fez ao longo de toda a sua existência como estatal.
Os obreiros do plebiscito e até, forçando a barra, os padres que ecoam essa gritaria inconseqüente dentro das igrejas podem pretextar ignorância. Lula e os dirigentes do PT, não. Esses usam deliberadamente o fantasma da privatização como uma distração para a sua militância -um osso de mentira que se dá a um cachorrinho para ele não roer a mobília.
Um placebo ideológico aqui, uma verbinha acolá, empregos a rodo, barriga cheia, lá vai a militância petista fazer seu número. Pula! Late! E Lula pisca o olho para as visitas: "É brincadeira, gente! Senta que o Lulu é manso".Os empresários sorriem de volta, fingem que acreditam, mas pensam dez vezes antes de botar a mão no bolso. Para eles, pior do que a encenação dos militantes é a falta de vontade e/ ou capacidade do governo de estabelecer regras claras e um ambiente político confiável para os investimentos privados em infra-estrutura.
A conta das ambigüidades virá aí por 2010, prevêem os especialistas, quando o fantasma do racionamento de energia elétrica deve voltar a rondar, dessa vez não por falta de chuva, mas de investimento. Ou quem sabe em 2011. Já pensaram na ironia? Um novo governo às voltas com o apagão, a militância petista a todo vapor de volta à oposição e Lula na Guarapiranga, pescando suas tilápias...
EDUARDO GRAEFF, 57, é cientista político. Foi secretário-geral da Presidência da República no governo FHC
A nova classe social no poder: agora em números - Blog Reinaldo Azevedo 17/09/07
Por Fernando Barros de Mello, na Folha desta segunda. Volto em seguida:
Os cargos de confiança mais altos no governo de Luiz Inácio Lula da Silva são ocupados por sindicalizados e filiados ao PT, de acordo com dados da pesquisa "Governo Lula: contornos sociais e políticos da elite do poder", coordenada por Maria Celina D'Araújo, do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV. "Você tem ainda uma superposição: parte dos petistas é também sindicalizada. É uma malha associativa muito forte", diz a pesquisadora. A amostra da pesquisa levou em conta os cargos DAS 5, DAS 6 (Direção e Assessoramento Superior) e NE (Natureza Especial), que são os mais altos no serviço público. "A população brasileira tem em torno de 14% de sindicalizados. Na nossa amostra, a gente tem 45%. É muito diferente da realidade brasileira", diz. "Nós pegamos os níveis 5 e 6, que são cargos de direção. Acho que, se olhar mais para baixo, a tendência é até ter mais militantes e sindicalizados. A nossa amostra é uma elite que requer especialização técnica", complementa.
Segundo a pesquisa, cerca de 25% tinham filiação partidária: 19,90% eram filiados ao PT, e 5%, a outros partidos. O estudo mostra que a maior parte dos filiados vem do serviço público estadual e municipal. Informações do próprio PT dão conta de que, ao todo, são 5.000 filiados que ocupam cargos comissionados no governo Lula."Os filiados são, em sua maior parte, "outsiders" da esfera pública", diz o texto da pesquisa, segundo o qual os indicadores de "associativismo" também impressionam. "Um total de 46% declaram ter pertencido a algum movimento social, 31,8% declaram ter pertencido a conselhos gestores e 23,8%, a experiência de gestão local. Apenas 5% pertenceram a associação patronais." Outro ponto que chamou a atenção foi o fato de a área econômica ter o maior número de servidores com experiência anterior (27%). Na área da saúde, o número fica em 14,55%, na social, em 19,12%, e na de educação, em 13,93%. "O que a gente observa é que a área econômica é a mais profissionalizada".
Voltei
Eis aí. Vocês sabem que chamo a nova classe social que chegou ao poder com Lula de “burguesia do capital alheio”. A reportagem publicada na Folha não poderia ser mais eloqüente. Este é o poder real do petismo. E notem que se está falando de cargos comissionados, os de confiança. Aposto que, nos escalões inferiores, à medida que se rebaixam as exigências técnica para o exercício da função, os sindicalizados estão em ainda maior número. A base material do novo poder no Brasil é a Central Única dos Trabalhadores, de onde saiu boa parte dos quadros que estão no comando. Por meio da central, o partido controla também os fundos de pensão e as estatais.
Lembram-se da entrevista de Expedito Velloso, aquele que era diretor do Banco do Brasil e que integrou o grupo dos aloprados impunes do dossiê? Qual é a sua origem? CUT. É o caso ainda de Osvaldo Bargas, Jorge Lorenzetti e Ricardo Berzoini, presidente do PT — todos eles diretamente ligados à tramóia. Se o partido perder a eleição em 2010, os titulares dos cargos de confiança serão substituídos. Mas isso não quer dizer grande coisa. A infiltração sindical-petista nos quadros do estado se dá nos Três Poderes e no Ministério Público. Chama a atenção, ainda, o maior número de “companheiros” em áreas como saúde e educação — não por acaso, as que têm desempenho mais sofrível, a despeito da propaganda oficial. A economia, vê-se, está mais protegida da sanha.
A pesquisa expõe a real natureza do governo Lula. Imaginem o comando da Saúde com apenas 14,55% das pessoas com a chamada “experiência anterior” na área. Estão lá, então, por quê? Por, literalmente, “companheirismo”. E a gente ainda estranha que não se consiga fazer o remédio chegar aos indiozinhos. A constatação de fundo e que interessa é esta: o estado está sendo ocupado pelo sindicalismo petista. O esforço, já escrevi aqui, é para tornar a alternância de poder no país uma coisa irrelevante. Ainda que um outro partido possa vir a ser eleito, o PT não pretende abrir mão do domínio da máquina do estado.
Por Reinaldo Azevedo 06:01
Os cargos de confiança mais altos no governo de Luiz Inácio Lula da Silva são ocupados por sindicalizados e filiados ao PT, de acordo com dados da pesquisa "Governo Lula: contornos sociais e políticos da elite do poder", coordenada por Maria Celina D'Araújo, do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil) da FGV. "Você tem ainda uma superposição: parte dos petistas é também sindicalizada. É uma malha associativa muito forte", diz a pesquisadora. A amostra da pesquisa levou em conta os cargos DAS 5, DAS 6 (Direção e Assessoramento Superior) e NE (Natureza Especial), que são os mais altos no serviço público. "A população brasileira tem em torno de 14% de sindicalizados. Na nossa amostra, a gente tem 45%. É muito diferente da realidade brasileira", diz. "Nós pegamos os níveis 5 e 6, que são cargos de direção. Acho que, se olhar mais para baixo, a tendência é até ter mais militantes e sindicalizados. A nossa amostra é uma elite que requer especialização técnica", complementa.
Segundo a pesquisa, cerca de 25% tinham filiação partidária: 19,90% eram filiados ao PT, e 5%, a outros partidos. O estudo mostra que a maior parte dos filiados vem do serviço público estadual e municipal. Informações do próprio PT dão conta de que, ao todo, são 5.000 filiados que ocupam cargos comissionados no governo Lula."Os filiados são, em sua maior parte, "outsiders" da esfera pública", diz o texto da pesquisa, segundo o qual os indicadores de "associativismo" também impressionam. "Um total de 46% declaram ter pertencido a algum movimento social, 31,8% declaram ter pertencido a conselhos gestores e 23,8%, a experiência de gestão local. Apenas 5% pertenceram a associação patronais." Outro ponto que chamou a atenção foi o fato de a área econômica ter o maior número de servidores com experiência anterior (27%). Na área da saúde, o número fica em 14,55%, na social, em 19,12%, e na de educação, em 13,93%. "O que a gente observa é que a área econômica é a mais profissionalizada".
Voltei
Eis aí. Vocês sabem que chamo a nova classe social que chegou ao poder com Lula de “burguesia do capital alheio”. A reportagem publicada na Folha não poderia ser mais eloqüente. Este é o poder real do petismo. E notem que se está falando de cargos comissionados, os de confiança. Aposto que, nos escalões inferiores, à medida que se rebaixam as exigências técnica para o exercício da função, os sindicalizados estão em ainda maior número. A base material do novo poder no Brasil é a Central Única dos Trabalhadores, de onde saiu boa parte dos quadros que estão no comando. Por meio da central, o partido controla também os fundos de pensão e as estatais.
Lembram-se da entrevista de Expedito Velloso, aquele que era diretor do Banco do Brasil e que integrou o grupo dos aloprados impunes do dossiê? Qual é a sua origem? CUT. É o caso ainda de Osvaldo Bargas, Jorge Lorenzetti e Ricardo Berzoini, presidente do PT — todos eles diretamente ligados à tramóia. Se o partido perder a eleição em 2010, os titulares dos cargos de confiança serão substituídos. Mas isso não quer dizer grande coisa. A infiltração sindical-petista nos quadros do estado se dá nos Três Poderes e no Ministério Público. Chama a atenção, ainda, o maior número de “companheiros” em áreas como saúde e educação — não por acaso, as que têm desempenho mais sofrível, a despeito da propaganda oficial. A economia, vê-se, está mais protegida da sanha.
A pesquisa expõe a real natureza do governo Lula. Imaginem o comando da Saúde com apenas 14,55% das pessoas com a chamada “experiência anterior” na área. Estão lá, então, por quê? Por, literalmente, “companheirismo”. E a gente ainda estranha que não se consiga fazer o remédio chegar aos indiozinhos. A constatação de fundo e que interessa é esta: o estado está sendo ocupado pelo sindicalismo petista. O esforço, já escrevi aqui, é para tornar a alternância de poder no país uma coisa irrelevante. Ainda que um outro partido possa vir a ser eleito, o PT não pretende abrir mão do domínio da máquina do estado.
Por Reinaldo Azevedo 06:01
Pesquisa 1 – O governo corrupto do Bolsa Família roubou até a estabilidade - Blog Reinaldo Azevedo - 16/09/07
Leiam trechos do texto de Carlos Marchi que está no Estadão deste domingo. Volto depois:O governo Lula fez três coisas boas - o programa Bolsa-Família, a estabilidade econômica e a ajuda aos pobres; e três coisas ruins - a corrupção, o apagão aéreo e a pouca atenção à saúde. Esta é a percepção do eleitorado brasileiro, colhida pela pesquisa Estado/Ipsos. O Bolsa-Família foi apontado por 43% dos eleitores; a estabilidade econômica foi citada por 20% e a ajuda aos pobres foi mencionada por 10%. Só 8% dos eleitores responderam que a maior obra do governo Lula é 'nada'. Na outra ponta, o eleitorado brasileiro aponta como as piores coisas do governo Lula a corrupção, citada por 23%, o apagão aéreo, mencionado por 11%, e a pouca atenção à saúde, lembrada por 10%.
(...)
Para 67% dos brasileiros, o atual presidente é o maior responsável [pela estabilidade]; o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo governo implantou o Plano Real e sustentou os primeiros oito anos estáveis, foi mencionado como responsável pela estabilidade por apenas 7%. (...)
O atual presidente deu mais apoio aos pobres para 80% dos brasileiros; o antecessor ganhou o aval de apenas 9%. Para 73%, Lula favoreceu um melhor poder de compra do brasileiro; só para 16% Fernando Henrique foi melhor nesse quesito. Lula reduziu mais o custo da cesta básica para 73%; o ex-presidente, só para 15%. Lula controlou melhor a inflação para 66%; Fernando Henrique, só para 19%.
(...)
Os mais pobres dizem com mais ênfase que Lula deu apoio aos despossuídos. Na faixa que junta os analfabetos e os que têm até a 4ª série do ensino fundamental, 82% acham que Lula foi melhor que Fernando Henrique na ajuda aos pobres. Entre os que têm curso superior o número não é muito diferente - 79% acham que, no tópico, Lula foi melhor. Os eleitores que têm curso superior atribuíram a estabilidade mais a Lula (55%) do que a Fernando Henrique (15%).(...)
Para os brasileiros, o melhor ministro do governo Lula não é um político, não é do PT nem do PMDB - é o ministro da Cultura, Gilberto Gil, um filiado do PV, que nem da base aliada é. Ele foi citado por 4% dos brasileiros e ficou à frente dos petistas Tarso Genro, das Relações Institucionais, e Guido Mantega, da Fazenda, ambos com 3%.
Voltei
Quanta coisa sai dessa pesquisa, não?
A primeira importante: o governo FHC foi um desastre em comunicação, tanto quanto o petismo é um sucesso. Constantemente vemos petistas metidos em assalto aos cofres públicos, mas o maior roubo que praticaram foi este: a estabilidade econômica. Quem pôs fim ao ciclo histórico da inflação brasileira foi o governo FHC. Poderia ser chocante o fato de também os universitários, camada supostamente mais bem-informada, atribuírem ao petista o que não lhe pertence. Mas não choca, não. O petismo mais radical, mais ideológico, está justamente entre os que têm formação superior. De resto, tal condição precisa ser pensada em suas novas características: o Brasil passa por uma fase de “supletivização” do ensino de terceiro grau. Nunca a ignorância foi tão diplomada.
A segunda questão importante guarda relação com um texto que escrevi ontem, comentando os números do IBGE. O Bolsa Família continuará a assombrar o Brasil por muito tempo. E o mais dramático é que não se forma massa crítica para combater essa barbaridade nem nos setores que estariam especialmente aptos a fazê-lo: a imprensa, por exemplo. Continuaremos amarrados por muito tempo a este programa que torna operativa a pobreza brasileira. A pesquisa Ipsos/Estadão evidencia o óbvio: no Nordeste, Lula é mais popular do que no Sul e no Sudeste.
A terceira questão importante tem a ver com o óbvio: a corrupção se transformou numa das marcas do partido que tem como lema, diz Marxilena Oiapoque, a “ética na política”. A avaliação positiva que se faz do governo Lula, no entanto, indica que esse quesito pesa menos na balança do que a tal inflexão social. Numa esfera puramente moral, temos um “rouba, mas faz caridade”. Governos ladrões ou provocam a repulsa popular ou vão deixando o próprio povo mais sem-vergonha.
A quarta questão importante, acreditem, tem como símbolo Gilberto Gil. Ele é considerado o melhor ministro do governo Lula — e isso prova que inexiste um governo; só existe Lula. O cantor aparece pouco na mídia. Sua atuação é discretíssima. Se consegue, ainda assim, ser o mais lembrado, isso dá conta do que acontece com os demais. O PT é uma máquina gigantesca, infiltrada em todas as esferas do estado e da sociedade — conta até com as práticas clandestinas típicas do velho comunismo (ver posts abaixo) —, mas, eleitoralmente, é extremamente dependente de seu líder carismático: Lula. À sua sombra, até agora, nada cresceu a ponto de vir a ser uma alternativa. E isso tem reflexos eleitorais, conforme se vê abaixo.
Por Reinaldo Azevedo 06:52
(...)
Para 67% dos brasileiros, o atual presidente é o maior responsável [pela estabilidade]; o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo governo implantou o Plano Real e sustentou os primeiros oito anos estáveis, foi mencionado como responsável pela estabilidade por apenas 7%. (...)
O atual presidente deu mais apoio aos pobres para 80% dos brasileiros; o antecessor ganhou o aval de apenas 9%. Para 73%, Lula favoreceu um melhor poder de compra do brasileiro; só para 16% Fernando Henrique foi melhor nesse quesito. Lula reduziu mais o custo da cesta básica para 73%; o ex-presidente, só para 15%. Lula controlou melhor a inflação para 66%; Fernando Henrique, só para 19%.
(...)
Os mais pobres dizem com mais ênfase que Lula deu apoio aos despossuídos. Na faixa que junta os analfabetos e os que têm até a 4ª série do ensino fundamental, 82% acham que Lula foi melhor que Fernando Henrique na ajuda aos pobres. Entre os que têm curso superior o número não é muito diferente - 79% acham que, no tópico, Lula foi melhor. Os eleitores que têm curso superior atribuíram a estabilidade mais a Lula (55%) do que a Fernando Henrique (15%).(...)
Para os brasileiros, o melhor ministro do governo Lula não é um político, não é do PT nem do PMDB - é o ministro da Cultura, Gilberto Gil, um filiado do PV, que nem da base aliada é. Ele foi citado por 4% dos brasileiros e ficou à frente dos petistas Tarso Genro, das Relações Institucionais, e Guido Mantega, da Fazenda, ambos com 3%.
Voltei
Quanta coisa sai dessa pesquisa, não?
A primeira importante: o governo FHC foi um desastre em comunicação, tanto quanto o petismo é um sucesso. Constantemente vemos petistas metidos em assalto aos cofres públicos, mas o maior roubo que praticaram foi este: a estabilidade econômica. Quem pôs fim ao ciclo histórico da inflação brasileira foi o governo FHC. Poderia ser chocante o fato de também os universitários, camada supostamente mais bem-informada, atribuírem ao petista o que não lhe pertence. Mas não choca, não. O petismo mais radical, mais ideológico, está justamente entre os que têm formação superior. De resto, tal condição precisa ser pensada em suas novas características: o Brasil passa por uma fase de “supletivização” do ensino de terceiro grau. Nunca a ignorância foi tão diplomada.
A segunda questão importante guarda relação com um texto que escrevi ontem, comentando os números do IBGE. O Bolsa Família continuará a assombrar o Brasil por muito tempo. E o mais dramático é que não se forma massa crítica para combater essa barbaridade nem nos setores que estariam especialmente aptos a fazê-lo: a imprensa, por exemplo. Continuaremos amarrados por muito tempo a este programa que torna operativa a pobreza brasileira. A pesquisa Ipsos/Estadão evidencia o óbvio: no Nordeste, Lula é mais popular do que no Sul e no Sudeste.
A terceira questão importante tem a ver com o óbvio: a corrupção se transformou numa das marcas do partido que tem como lema, diz Marxilena Oiapoque, a “ética na política”. A avaliação positiva que se faz do governo Lula, no entanto, indica que esse quesito pesa menos na balança do que a tal inflexão social. Numa esfera puramente moral, temos um “rouba, mas faz caridade”. Governos ladrões ou provocam a repulsa popular ou vão deixando o próprio povo mais sem-vergonha.
A quarta questão importante, acreditem, tem como símbolo Gilberto Gil. Ele é considerado o melhor ministro do governo Lula — e isso prova que inexiste um governo; só existe Lula. O cantor aparece pouco na mídia. Sua atuação é discretíssima. Se consegue, ainda assim, ser o mais lembrado, isso dá conta do que acontece com os demais. O PT é uma máquina gigantesca, infiltrada em todas as esferas do estado e da sociedade — conta até com as práticas clandestinas típicas do velho comunismo (ver posts abaixo) —, mas, eleitoralmente, é extremamente dependente de seu líder carismático: Lula. À sua sombra, até agora, nada cresceu a ponto de vir a ser uma alternativa. E isso tem reflexos eleitorais, conforme se vê abaixo.
Por Reinaldo Azevedo 06:52
Wednesday, September 12, 2007
Sobre os últimos dias
Há tempos não me habilito a escrever no "meu blog". Tem sido mais um banco de posts de outros blogs. Assuntos não me faltam. Falta a habilidade com as palavras. A capacidade de colocar nas palavras toda a indignação, toda a ira, toda a vergonha que me tem sido provocada desde 01/01/03. E que infelizmente se somarão até 2010, pelo menos.
Tópicos:
Aulas e pós graduação de Lula pós mandato
"dureza" da pena de Renan
Estatização CVRD
Discurso de Lula no 3º congresso pt
STF aceita denúncia 40 ladrões
Lula: não aceitaremos ônus pela bolha imobiliária dos EUA
Igreja e "movimentos sociais"
Tópicos:
Aulas e pós graduação de Lula pós mandato
"dureza" da pena de Renan
Estatização CVRD
Discurso de Lula no 3º congresso pt
STF aceita denúncia 40 ladrões
Lula: não aceitaremos ônus pela bolha imobiliária dos EUA
Igreja e "movimentos sociais"
Thursday, August 23, 2007
Marcha Sobre Brasília e tomada do estado - Blog Reinaldo Azevedo de 23/08/07
Brasília assistiu ontem à Marcha das Margaridas, uma manifestação de 15 mil “trabalhadoras rurais” financiada com recursos da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), do governo federal e de três estatais: Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste e Petrobrás. Lula discursou no evento, em tom de campanha eleitoral — faltou o Banco do Brasil com sua propaganda do “Dois mais Um”... — e voltou a falar mal das elites. Apesar do uso evidente do dinheiro público, Carmem Foro, coordenadora da marcha, deu o seu recado: “Tivemos que fazer muita ação entre mulheres, vender bolo, bordar chapéus, vender cabrito, fazer vaquinhas para chegar aqui”. É só a folclorização do pobrismo militante que marca estepaiz. “Nós que apoiamos o presidente Lula não cansamos de lutar”, emendou Carmen. Segundo a Contag, o custo total do ato passou de R$ 10 milhões — cerca de R$ 1 milhão viria desse apoio oficial. Na verdade, todo o dinheiro saiu dos cofres públicos. A Contag não gera receita. Ela vem dos programas oficiais de incentivo à agricultura familiar. Eu e você ajudamos a pagar a manifestação de apoio ao Babalorixá de Banânia.
Vasculhei os jornais. Não há e não haverá uma miserável crítica ao uso de dinheiro público numa mobilização de caráter obviamente político. Vê-se que a tal Carmem está dando uma resposta ao Cansei, a mais demonizada manifestação havida no Brasil em período democrático. Nunca tantos protestaram contra um protesto como nesse caso. Até onde sei, os organizadores usaram seus próprios recursos. O mesmo se dá com os que perseguem Lula com vaias. Compram eles mesmos o seu nariz de palhaço. Se a CEF, o Banco do Nordeste e a Petrobras podem patrocinar uma manifestação a favor do governo, dêem-me um só motivo para que não financie uma contra. As estatais não pertencem a Lula ou ao PT, mas ao estado brasileiro, que não tem partido. No caso da Petrobras, tanto pior: é uma empresa de capital aberto. Os investidores estão ajudando a financiar o proselitismo oficial.
Vejam um vídeo que postei às 19h02 de ontem. Trata-se do material de convocação e divulgação do 3º Congresso do PT, que acontece no fim do mês. O partido retoma a sua retórica socialista, declara seu vínculo com o famigerado Foro de São Paulo e não economiza palavras: “Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político de estado a seu serviço”. E mais adiante: “Não basta chegar ao governo para mudar a sociedade. É preciso mudar a sociedade para chegar ao governo.”Leiam o trecho que está em vermelho à luz, agora, da Marcha das Margaridas. Trata-se, obviamente, de uma confissão: o partido está colocando O ESTADO A SERVIÇO não exatamente de uma classe, mas de seus próprios interesses. Cadê os anões do jornalismo para acusar o cinismo dos manifestantes? Li ontem o texto de um senhor, no Estadão, que esculhambava, uma vez mais, o Cansei. Segundo ele, um dos participantes pagou uma pequena propina para conseguir sei lá que benefício. Impressionante como essa gente convive com pessoas dadas a canalhices. Eu não convivo. Se meus amigos fazem safadezas, têm ao menos o bom gosto de não me contar. E sabem por quê: não acharei nem meritório nem engraçado. Sabe cada um os amigos que lhe ficam bem.Rigor e laxismoVejo a imprensa, na média, cobrir com rigor o mensalão (de volta com o julgamento no STF) e o imbróglio Renan Calheiros, para citar dois casos. É uma pena que não seja rigorosa também na cobertura do que eu chamaria “questões institucionais”. Ora, um jornalismo que se cala diante de um fato como o de ontem — uma manifestação pró-Lula financiada com dinheiro público — perdeu os parâmetros e as medidas do regime democrático. Vejam lá a confissão no vídeo do PT. Parece-me evidente que o esforço para “mudar a sociedade” está sendo bem-sucedido. Já não se distingue com clareza o legal do ilegal.Resulta que somos, como imprensa, rigorosos, sim, com o crime, mas laxistas com suas supostas motivações nobres. Afinal, desdenhar da “direita cínica” que vai à rua dizer que “cansou” corresponde a bater nos vilões de sempre — as tais “elites” brasileiras. Já ousar indagar a legalidade do apoio oficial a uma marcha de apoio ao Estimado Líder parece coisa imprópria. Afinal, aquelas senhoras que lá estavam eram “agricultoras”... Errado! Eram parte de um projeto de poder. Projeto que não inventei e cujas intenções estão claramente reveladas no tal vídeo. Lula, diga-se, nele aparece em meio a líderes como Hugo Chávez, Evo Morales e Fidel Castro.Marcha das Margaridas? Eu a chamaria de “Marcha Sobre Brasília”, pisoteando a legalidade. Mais uma peça do meticuloso trabalho de tomada do Estado que está em curso. E anunciado em vídeo.
Por Reinaldo Azevedo
Vasculhei os jornais. Não há e não haverá uma miserável crítica ao uso de dinheiro público numa mobilização de caráter obviamente político. Vê-se que a tal Carmem está dando uma resposta ao Cansei, a mais demonizada manifestação havida no Brasil em período democrático. Nunca tantos protestaram contra um protesto como nesse caso. Até onde sei, os organizadores usaram seus próprios recursos. O mesmo se dá com os que perseguem Lula com vaias. Compram eles mesmos o seu nariz de palhaço. Se a CEF, o Banco do Nordeste e a Petrobras podem patrocinar uma manifestação a favor do governo, dêem-me um só motivo para que não financie uma contra. As estatais não pertencem a Lula ou ao PT, mas ao estado brasileiro, que não tem partido. No caso da Petrobras, tanto pior: é uma empresa de capital aberto. Os investidores estão ajudando a financiar o proselitismo oficial.
Vejam um vídeo que postei às 19h02 de ontem. Trata-se do material de convocação e divulgação do 3º Congresso do PT, que acontece no fim do mês. O partido retoma a sua retórica socialista, declara seu vínculo com o famigerado Foro de São Paulo e não economiza palavras: “Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político de estado a seu serviço”. E mais adiante: “Não basta chegar ao governo para mudar a sociedade. É preciso mudar a sociedade para chegar ao governo.”Leiam o trecho que está em vermelho à luz, agora, da Marcha das Margaridas. Trata-se, obviamente, de uma confissão: o partido está colocando O ESTADO A SERVIÇO não exatamente de uma classe, mas de seus próprios interesses. Cadê os anões do jornalismo para acusar o cinismo dos manifestantes? Li ontem o texto de um senhor, no Estadão, que esculhambava, uma vez mais, o Cansei. Segundo ele, um dos participantes pagou uma pequena propina para conseguir sei lá que benefício. Impressionante como essa gente convive com pessoas dadas a canalhices. Eu não convivo. Se meus amigos fazem safadezas, têm ao menos o bom gosto de não me contar. E sabem por quê: não acharei nem meritório nem engraçado. Sabe cada um os amigos que lhe ficam bem.Rigor e laxismoVejo a imprensa, na média, cobrir com rigor o mensalão (de volta com o julgamento no STF) e o imbróglio Renan Calheiros, para citar dois casos. É uma pena que não seja rigorosa também na cobertura do que eu chamaria “questões institucionais”. Ora, um jornalismo que se cala diante de um fato como o de ontem — uma manifestação pró-Lula financiada com dinheiro público — perdeu os parâmetros e as medidas do regime democrático. Vejam lá a confissão no vídeo do PT. Parece-me evidente que o esforço para “mudar a sociedade” está sendo bem-sucedido. Já não se distingue com clareza o legal do ilegal.Resulta que somos, como imprensa, rigorosos, sim, com o crime, mas laxistas com suas supostas motivações nobres. Afinal, desdenhar da “direita cínica” que vai à rua dizer que “cansou” corresponde a bater nos vilões de sempre — as tais “elites” brasileiras. Já ousar indagar a legalidade do apoio oficial a uma marcha de apoio ao Estimado Líder parece coisa imprópria. Afinal, aquelas senhoras que lá estavam eram “agricultoras”... Errado! Eram parte de um projeto de poder. Projeto que não inventei e cujas intenções estão claramente reveladas no tal vídeo. Lula, diga-se, nele aparece em meio a líderes como Hugo Chávez, Evo Morales e Fidel Castro.Marcha das Margaridas? Eu a chamaria de “Marcha Sobre Brasília”, pisoteando a legalidade. Mais uma peça do meticuloso trabalho de tomada do Estado que está em curso. E anunciado em vídeo.
Por Reinaldo Azevedo
PT confessa em vídeo: quer o estado a seu serviço. E reafirma seus vínculos com o Foro de São Paulo - Blog do Reinaldo Azevedo - 23/08/07
Muito cuidado nesta hora.
O PT realiza, entre os dias 31 deste mês e 2 de setembro, no Centro de Convenções Imigrantes, em São Paulo, o seu 3º Congresso Nacional. No Youtube, há um vídeo, dividido em partes, em que se apresenta o evento e se trata dos assuntos que serão debatidos. Na retórica ao menos, é inequívoco, há um visível retorno ao “socialismo”. Outro assunto que a grande imprensa faz questão de esconder, não sei por quê, é abordado pelo partido com orgulho: “O Foro de São Paulo”. Mais: o partido revela a sua inclinação gramsciana — e, pois, totalitária —, ainda que fale em “democracia”.
Vamos ver. Clicando na imagem acima (se não conseguir, clique aqui), você assiste à terceira parte do material de divulgação e convocação do Congresso. Ele trata especificamente da “construção do socialismo”. De qual socialismo? Isso o PT não diz há 27 anos. A apresentadora deixa claro que a formulação sobre a luta socialista definida no 5º Encontro Nacional, de 1987, continua a valer em 2007. E ela diz literalmente:
"Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político de estado a seu serviço”. E mais adiante: “Não basta chegar ao governo para mudar a sociedade. É preciso mudar a sociedade para chegar ao governo”. Quem nunca ouviu falar do teórico italiano Antonio Gramsci ou nunca leu a sua obra não dará o devido peso ao que vai acima. Quem conhece as suas formulações viu a fuça do totalitarismo. Ora, quem representa “os trabalhadores” segundo o PT? Se o partido é investido de tal caráter, tudo o que fizer — e isso inclui seus crimes — está a serviço dessa construção histórica. Tanto é assim, que cumpre observar: mensaleiros e aloprados continuam no partido. Ninguém foi ou será punido.
A afirmação de que não há exemplo de classe que tenha mudado a história sem pôr o estado a seu serviço não passa de delinqüência intelectual submarxista. Mas é, de novo, uma confissão. Para eles, quem encarna o poder “dos trabalhadores”? O PT. E como se põe o estado a serviço dos trabalhadores? Ora, pondo-o a serviço do PT. Gramsci, que queria “o partido” como o Moderno Príncipe, dizia que ele deveria ser o “imperativo categórico” da sociedade e que tudo deveria existir e ser feito em função de suas necessidades. Até mesmo a crítica deveria ser autorizada por ele e tê-lo como referência. Em certos setores da imprensa, já experimentamos algo parecido. Só se aceita que petistas contestem petistas.
Num outro momento do vídeo, diz a mocinha: “Não há democracia sem socialismo, e não há socialismo sem democracia”. Trata-se de uma dupla impostura.
Peguemos a primeira oração:
“Não há democracia sem socialismo”
A verdade: nunca houve uma democracia socialista.
Peguemos a segunda:
“Não há socialismo sem democracia”
A verdade: nunca houve socialismo democrático
Da dupla impostura, resta uma verdade inequívoca demonstrada pela história: socialismo e democracia nunca foram vistos num mesmo corpo social.
Foro de São Paulo
E chegamos, finalmente, ao caso. Eu não sei por quê, mas presumo, a chamada grande imprensa faz questão de ignorar um fato que o partido assume com todas as letras: o PT é fundador do chamado Foro de São Paulo, um órgão que continua ativo e que reúne as esquerdas da América Latina, incluindo as narcoguerrilheiras Farc. No vídeo, trata-se do assunto aos 5min20s e aos 7min18s. Delírio do Olavo de Carvalho e do Reinaldo Azevedo? Não. Fato admitido de forma clara, explícita, orgulhosa. Tanto é assim que, ao se referir aos "democratas antiimperialistas" da América Latina, o filme exibe as imagens, entre outros, de Hugo Chávez, Evo Morales e, acreditem!, Fidel Castro. O alinhamento do partido — e do governo — com ditaduras está mais do que demonstrado.
Eu acredito que Lula implantará o socialismo, ainda que aquela pantomima bolivariana, no Brasil? Não. Eu não acredito. Não porque ele não queira, mas porque ele não pode. Mas acredito, sim, que o Brasil, entregue ao PT e às suas teses, será menos democrático. Porque a legenda não tem respeito, e isso fica evidenciado neste material de divulgação, pelo estado de direito. Quem diz que uma classe tem de pôr o estado a seu serviço quer é uma ditadura, ainda que mitigada e fantasiada de democracia popular.
Agora entendo por que José Dirceu acha tão absurdo ser julgado pelo STF. Ele só estava construindo a hegemonia da classe trabalhadora — ou seja: pondo o estado a seu serviço. E ainda há quem reclame...
PS: O PT está quase implorando à chamada grande imprensa que fale do Foro de São Paulo. Será que, desta vez, ela acorda? Não seria interessante rever a expropriação da Petrobras na Bolívia à luz de um concerto ideológico do Foro? Será que o PT não é ainda mais caro do que parece?
Por Reinaldo Azevedo
Monday, August 06, 2007
Simbolismo e liderança
Fernando Henrique Cardoso, O Estado de S. Paulo (05/08/07)
www.estado.com.br/editorias/2007/08/05/opi-1.93.29.20070805.1.1.xml?
A despeito das oscilações recentes do mercado financeiro, que ninguém sabe se serão soluços passageiros ou sinais de desarranjos mais profundos na economia mundial, é inquestionável que a prosperidade gerada pelo fim dos ajustes financeiros dos turbulentos anos 90 e, principalmente, pelo ingresso da China no mercado mundial favoreceu enormemente as economias emergentes.
Os países em desenvolvimento que já dispunham de alguma base industrial e foram capazes de ativar mecanismos públicos e privados de decisão estão se transformando, no embalo da economia mundial, a um ritmo impressionante. Nessa onda favorável, também o Brasil avança. Nossa economia só não começou a mostrar há mais tempo os resultados dos esforços que vinha fazendo desde o Plano Real e da mudança cambial de 1999 porque a crise energética de 2001 e os temores desencadeados pela perspectiva de uma guinada brusca com a eleição do governo petista comprometeram os resultados econômicos de 2002 e de 2003, os quais só apareceram com força depois de 2005.
Vivemos, portanto, um momento extremamente favorável para consolidar as reformas modernizadoras do governo, da sociedade e dos mercados iniciadas anteriormente. Um momento que requer visão de grandeza: abrem-se possibilidades para o Brasil se afirmar como uma grande nação. Isto é, como um país democrático, com uma economia tecnologicamente moderna e competitiva, respeitador das instituições e dos contratos, que ofereça condições universais de acesso à educação, à saúde, à terra e ao trabalho para que seu povo desfrute uma vida digna. Portanto, um país que não se conforme com manter uma parcela ponderável de seus habitantes sem emprego decente, requerendo assistencialismo governamental.
O esforço de arrancada na direção do futuro exige objetivos claros e persistência no caminho escolhido, requer coragem nas decisões e eficiência para implementá-las. Não deixa de ser preocupante que o PT tenha chegado ao poder no momento que mais exige tais qualidades. Por mais que o atual governo tenha dado continuidade às políticas macroeconômicas que herdou, das quais sempre foi crítico e - pasmem! - continua sendo, não soube fazer a revisão programática que lhe permitiria levar adiante um projeto verdadeiramente nacional. Um projeto que abrangesse todas as correntes da sociedade e transcendesse os interesses meramente partidários, corporativos e pessoais. Um projeto que avançasse nas reformas institucionais e permitisse uma colaboração verdadeira entre o Estado regulamentador e a iniciativa privada disposta a empreender, especialmente no campo da infra-estrutura. Um projeto verdadeiramente democrático, ao abrigo de recaídas populistas.
O presidente Lula só faz autocrítica indiretamente, sem assumir responsabilidade pelas decisões que toma. Apenas lamenta "a quantidade de coisas que eu falei e falava porque era moda falar, mas que não tinha substância para sustentar na hora em que você pega no concreto". No exercício do governo, sempre que pode, refugia-se nas frases vagas, na cobrança genérica de responsabilidades, no jogar toda culpa no passado e se contenta com elogios fáceis a si mesmo, do tipo "nunca neste país&"... Em parte a retórica presidencial é certa: nunca houve tantos escândalos e, o que é pior, nunca qualquer outro presidente passou tanto a mão na cabeça dos envolvidos ("não se comprovou nada, são aloprados, e não criminosos, errar é humano").
De conseqüências ainda mais funestas do que a atitude leniente talvez seja a falta de compreensão histórica do governo e de seu líder. No afã de aumentar a popularidade e de iludir quem não tem acesso a melhor informação, governo e presidente assumem como próprio o que herdaram. Pouco importa, se for para o Brasil continuar avançando. Mas importa, sim, e muito, que estejam desperdiçando uma oportunidade histórica excepcional para que o Brasil dê um salto de qualidade, assegurando-o em benefício desta e das gerações futuras. Aqui, sim, cabe a frase: nunca neste país houve maior apagão ideológico e maior desídia diante do interesse público. O que vemos é um quadro de paralisia governamental, de desconexão, de imprevidência e de incompetência, recheada com uma retórica irresponsável.
Digo com lástima, sinceridade e franqueza: jamais imaginei que chegássemos a tal ponto de degradação. Fui testemunha da ação inovadora de Lula no sindicato e corajosa na política, quando ainda não era o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nunca o considerei, nem naquela época, um líder excepcional, pois lhe faltava firmeza para se contrapor à opinião da maioria ocasional, mas o tinha por um símbolo: migrante nordestino, corajoso e lutador que superou barreiras sociais. Tinha-o, e ainda o tenho, como um homem de boa índole, que em termos gerais deseja o bem do povo. Mas me decepciona vê-lo desperdiçar a oportunidade que tem nas mãos. Opus-me aos que, em 2005, cogitaram de propor o impeachment, não porque faltassem argumentos jurídicos nem porque quisesse vê-lo sangrar aos poucos, mas porque acreditava, como continuo acreditando, que o conteúdo simbólico de sua liderança é um patrimônio do País que não deve ser destruído. Lamento vê-lo agora destruir por suas próprias palavras e atos o capital de credibilidade que conquistou.
Presidente: em nome da sua e da História de nosso país, não se rebaixe à vulgaridade em nome da popularidade, resguarde-se de dizer tantos impropérios que machucam o bom senso, a solidariedade e a democracia. Por favor, tenha um pouco mais de grandeza, de que tanto necessitamos!
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República
www.estado.com.br/editorias/2007/08/05/opi-1.93.29.20070805.1.1.xml?
A despeito das oscilações recentes do mercado financeiro, que ninguém sabe se serão soluços passageiros ou sinais de desarranjos mais profundos na economia mundial, é inquestionável que a prosperidade gerada pelo fim dos ajustes financeiros dos turbulentos anos 90 e, principalmente, pelo ingresso da China no mercado mundial favoreceu enormemente as economias emergentes.
Os países em desenvolvimento que já dispunham de alguma base industrial e foram capazes de ativar mecanismos públicos e privados de decisão estão se transformando, no embalo da economia mundial, a um ritmo impressionante. Nessa onda favorável, também o Brasil avança. Nossa economia só não começou a mostrar há mais tempo os resultados dos esforços que vinha fazendo desde o Plano Real e da mudança cambial de 1999 porque a crise energética de 2001 e os temores desencadeados pela perspectiva de uma guinada brusca com a eleição do governo petista comprometeram os resultados econômicos de 2002 e de 2003, os quais só apareceram com força depois de 2005.
Vivemos, portanto, um momento extremamente favorável para consolidar as reformas modernizadoras do governo, da sociedade e dos mercados iniciadas anteriormente. Um momento que requer visão de grandeza: abrem-se possibilidades para o Brasil se afirmar como uma grande nação. Isto é, como um país democrático, com uma economia tecnologicamente moderna e competitiva, respeitador das instituições e dos contratos, que ofereça condições universais de acesso à educação, à saúde, à terra e ao trabalho para que seu povo desfrute uma vida digna. Portanto, um país que não se conforme com manter uma parcela ponderável de seus habitantes sem emprego decente, requerendo assistencialismo governamental.
O esforço de arrancada na direção do futuro exige objetivos claros e persistência no caminho escolhido, requer coragem nas decisões e eficiência para implementá-las. Não deixa de ser preocupante que o PT tenha chegado ao poder no momento que mais exige tais qualidades. Por mais que o atual governo tenha dado continuidade às políticas macroeconômicas que herdou, das quais sempre foi crítico e - pasmem! - continua sendo, não soube fazer a revisão programática que lhe permitiria levar adiante um projeto verdadeiramente nacional. Um projeto que abrangesse todas as correntes da sociedade e transcendesse os interesses meramente partidários, corporativos e pessoais. Um projeto que avançasse nas reformas institucionais e permitisse uma colaboração verdadeira entre o Estado regulamentador e a iniciativa privada disposta a empreender, especialmente no campo da infra-estrutura. Um projeto verdadeiramente democrático, ao abrigo de recaídas populistas.
O presidente Lula só faz autocrítica indiretamente, sem assumir responsabilidade pelas decisões que toma. Apenas lamenta "a quantidade de coisas que eu falei e falava porque era moda falar, mas que não tinha substância para sustentar na hora em que você pega no concreto". No exercício do governo, sempre que pode, refugia-se nas frases vagas, na cobrança genérica de responsabilidades, no jogar toda culpa no passado e se contenta com elogios fáceis a si mesmo, do tipo "nunca neste país&"... Em parte a retórica presidencial é certa: nunca houve tantos escândalos e, o que é pior, nunca qualquer outro presidente passou tanto a mão na cabeça dos envolvidos ("não se comprovou nada, são aloprados, e não criminosos, errar é humano").
De conseqüências ainda mais funestas do que a atitude leniente talvez seja a falta de compreensão histórica do governo e de seu líder. No afã de aumentar a popularidade e de iludir quem não tem acesso a melhor informação, governo e presidente assumem como próprio o que herdaram. Pouco importa, se for para o Brasil continuar avançando. Mas importa, sim, e muito, que estejam desperdiçando uma oportunidade histórica excepcional para que o Brasil dê um salto de qualidade, assegurando-o em benefício desta e das gerações futuras. Aqui, sim, cabe a frase: nunca neste país houve maior apagão ideológico e maior desídia diante do interesse público. O que vemos é um quadro de paralisia governamental, de desconexão, de imprevidência e de incompetência, recheada com uma retórica irresponsável.
Digo com lástima, sinceridade e franqueza: jamais imaginei que chegássemos a tal ponto de degradação. Fui testemunha da ação inovadora de Lula no sindicato e corajosa na política, quando ainda não era o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nunca o considerei, nem naquela época, um líder excepcional, pois lhe faltava firmeza para se contrapor à opinião da maioria ocasional, mas o tinha por um símbolo: migrante nordestino, corajoso e lutador que superou barreiras sociais. Tinha-o, e ainda o tenho, como um homem de boa índole, que em termos gerais deseja o bem do povo. Mas me decepciona vê-lo desperdiçar a oportunidade que tem nas mãos. Opus-me aos que, em 2005, cogitaram de propor o impeachment, não porque faltassem argumentos jurídicos nem porque quisesse vê-lo sangrar aos poucos, mas porque acreditava, como continuo acreditando, que o conteúdo simbólico de sua liderança é um patrimônio do País que não deve ser destruído. Lamento vê-lo agora destruir por suas próprias palavras e atos o capital de credibilidade que conquistou.
Presidente: em nome da sua e da História de nosso país, não se rebaixe à vulgaridade em nome da popularidade, resguarde-se de dizer tantos impropérios que machucam o bom senso, a solidariedade e a democracia. Por favor, tenha um pouco mais de grandeza, de que tanto necessitamos!
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República
Wednesday, July 25, 2007
UTOPÉIA - Do blog Prosa & Política de 25/07/07
Por Ralph J. Hofmann
O ano de 2003 trouxe ao povo Brasileiro um momento de catarse. Era um dos poucos lugares no mundo que haviam logrado eleger um trabalhador braçal, com o mínimo de educação técnica possível ao mais alto cargo da nação. Eleição democrática. A voz do povo falara. Um homem que sentira as agruras da vida nos níveis mais baixos da sociedade iria zelar para que as oligarquias entrincheiradas fossem alijadas dos pontos chave da sociedade.
Carregava consigo o beneplácito dos estudantes universitários e seus professores, de certas vozes distintas no mundo acadêmico e até de muitos empresários que o avaliavam pelas suas boas intenções.
Daria oportunidade aos dissidentes que haviam amargado anos de exílio, seja por estarem fora do país seja por estarem afastados dos centros de decisão pelas suas crenças políticas.
E antes de tudo, no decorrer de sua longa caminhada ao poder este homem nunca havia lançado mão da violência, e mais, havia nos últimos meses concordado que não cabia desmantelar o que já existia em termos de atividade privada e de medidas públicas bem sucedidas no país, o que, em última instância era o que gerava riquezas que alimentavam o povo.
Havia os céticos. Como um país complexo como o Brasil poderia ser gerido por um homem avesso a leituras, mesmo que de relatórios técnicos, por um homem que essencialmente era uma pessoa carismática com um instinto para dizer a cada platéia o que esta queria ouvir. Como poderia um primeiro mandatário dar ordens sobre situações complexas oriundas de diferentes áreas simultaneamente.
Mas enfim, o presidente de seja o que for sempre é essencialmente o líder de uma equipe. Escuta seus comandados e decide entre opções. Assim o país jamais ficaria paralisado. O importante seria que este operário estaria, segundo se preconizava, munido de noções de ética e moralidade advindas dos sofrimentos que passara em seus primeiros anos.
O país ouviu durante meses pessoas que conheciam a estrutura do seu partido declararem taxativamente que quem comandava a equipe montada era o próprio presidente. Este estaria se ocupando da imagem do país, mas que ninguém faria nada nos seus ministérios sem que o próprio mandatário desse sua aprovação.
Era importante frisar isto, pois aos observadores parecia que a Casa Civil, O Ministério da Fazenda e sua Secretaria Especial para Assuntos Internacionais estariam governando o país. Mas não, diziam os entendidos ou os alegadamente íntimos, “o Presidente manda em tudo”.
Sendo isto verdade podemos imaginar as lideranças do governo sentadas em suas salas de reunião recendentes a “puros” cubanos, rum e Romanée Conti, mapeando a transformação numa legítima utopia socialista. Imaginamos os mesmos planejadores preenchendo um quebra-cabeças com gráficos, quadros, cronogramas e organogramas, montando uma estrutura equilibrada moldada aos seus princípios éticos morais e de justiça social.
Mas em pouco tempo constatamos, por vídeos, evidências escritas, extratos de contas bancárias, sinais de enriquecimento rápido que o papo era outro.
As reuniões eram para determinar como efetuar o saque do botim. Eram as reuniões dos “capi mafiosi”. Administrar? Nem em sonho. A equipe tinha membros competentes. Mas não em obter soluções para o crescimento do país. Este ficou por conta do que havia sido feito antes da eleição que guindara o presidente ao palácio. Ficou por conta de esforços do setor privado ao longo dos quinze anos anteriores. Ficava-se no “status quo”, com um empurrãozinho daqui, uma apertadinha ali e uma pressão acolá.
Internacionalmente era uma questão de mostrar-se socialista. Não importa que fosse no contexto de um socialismo alijado por cinqüenta anos de insucesso na Europa Ocidental e oitenta anos de insucesso na Europa Oriental. Era uma questão de ser solidário com congêneres das Américas. Mesmo que isso significasse praticamente doar riquezas aos vizinhos ou seguir sambando enquanto um vizinho se empanturrasse de armas qual uma Alemanha da década de trinta.
Quando um país vizinho está fortemente armado normalmente chega um dia em que quer usar suas armas. Vide Saddam Hussein e o Kuwait. Ainda mais quando esgota suas fontes de riqueza sem aproveita-las para garantir o futuro de seu país. Mas o Presidente nos assegura que a amizade com o vizinho será imorredoura. E o Ministro Especial garante isto também. Assim também o antigo Chefe da Casa Civil. Podemos dormir descansados. Nossos filhos e netos não terão de se defender contra o vizinho. Não terão de pagar ano após ano para armar este país para que esteja a salvo do inimigo.
Também cabia ser solidário com as massas mobilizadas contra a modernidade no campo. Não interessa se pregam um desprezo total contra as leis, se efetivamente transgridem a lei com violência, se infringem direitos de outros.
A acomodação de amigos e simpatizantes significa que as próprias fontes e origens de regulamentos e normas estavam sendo solapadas. Organismos criados em décadas de trabalho, com informações seguras quanto às necessidades e objetivos a alcançar no país passaram a ser desmanchadas para acomodar a estrutura de serventes amigos do poder. Planos criados para defender e desenvolver o país foram passados às mãos de administradores que entre pusilânimes e ignorantes deixaram que fossem desmontados, sem que algo de novo surgisse no seu lugar. Passamos a ter ministros que seguindo o próprio exemplo da presidência, não sabem o que precisam fazer. Não conseguem argumentar as necessidades de seus ministérios, pois sequer as conhecem. Não escutam os poucos peritos que sobraram. Assim temos crises como a da aftosa, temos uma transposição de Rio São Francisco apenas baseada em fatores emocionais, temos Pedro roubando de Paulo, temos um apagão aéreo e uma previsão de apagão de energia.
Isso para não falar da corrupção progressiva de todos os aspectos da vida pública nacional.
Realmente, há um monstro de cem pernas devorando tudo que é sólido neste país. O objetivo dos confidentes do Sr. Presidente não é a Utopia. É um mundo em que tenham o poder. Querem algo como o “ Tausend Jahr Reich” (Império de Mil Anos) do Hitler. Um país que lhes pertença para fazerem suas experiências. Mesmo que, como ocorreu na Rússia, na China e no Camboja isto custe a vida de dezenas de milhões. Não Utopia, Utopéia.
Pena que o Presidente operário não tenha dado certo. Teríamos tido prazer em aplaudi-lo se estivéssemos errados em 2003 ao nos mostrar céticos. O problema agora é outro. Com o egoísmo das oposições que não conseguem ser oposição, que lutam por migalhas, vamos ter de seguir agüentando essa perda de estatura do país após 2010?
UTOPÉIA
O ano de 2003 trouxe ao povo Brasileiro um momento de catarse. Era um dos poucos lugares no mundo que haviam logrado eleger um trabalhador braçal, com o mínimo de educação técnica possível ao mais alto cargo da nação. Eleição democrática. A voz do povo falara. Um homem que sentira as agruras da vida nos níveis mais baixos da sociedade iria zelar para que as oligarquias entrincheiradas fossem alijadas dos pontos chave da sociedade.
Carregava consigo o beneplácito dos estudantes universitários e seus professores, de certas vozes distintas no mundo acadêmico e até de muitos empresários que o avaliavam pelas suas boas intenções.
Daria oportunidade aos dissidentes que haviam amargado anos de exílio, seja por estarem fora do país seja por estarem afastados dos centros de decisão pelas suas crenças políticas.
E antes de tudo, no decorrer de sua longa caminhada ao poder este homem nunca havia lançado mão da violência, e mais, havia nos últimos meses concordado que não cabia desmantelar o que já existia em termos de atividade privada e de medidas públicas bem sucedidas no país, o que, em última instância era o que gerava riquezas que alimentavam o povo.
Havia os céticos. Como um país complexo como o Brasil poderia ser gerido por um homem avesso a leituras, mesmo que de relatórios técnicos, por um homem que essencialmente era uma pessoa carismática com um instinto para dizer a cada platéia o que esta queria ouvir. Como poderia um primeiro mandatário dar ordens sobre situações complexas oriundas de diferentes áreas simultaneamente.
Mas enfim, o presidente de seja o que for sempre é essencialmente o líder de uma equipe. Escuta seus comandados e decide entre opções. Assim o país jamais ficaria paralisado. O importante seria que este operário estaria, segundo se preconizava, munido de noções de ética e moralidade advindas dos sofrimentos que passara em seus primeiros anos.
O país ouviu durante meses pessoas que conheciam a estrutura do seu partido declararem taxativamente que quem comandava a equipe montada era o próprio presidente. Este estaria se ocupando da imagem do país, mas que ninguém faria nada nos seus ministérios sem que o próprio mandatário desse sua aprovação.
Era importante frisar isto, pois aos observadores parecia que a Casa Civil, O Ministério da Fazenda e sua Secretaria Especial para Assuntos Internacionais estariam governando o país. Mas não, diziam os entendidos ou os alegadamente íntimos, “o Presidente manda em tudo”.
Sendo isto verdade podemos imaginar as lideranças do governo sentadas em suas salas de reunião recendentes a “puros” cubanos, rum e Romanée Conti, mapeando a transformação numa legítima utopia socialista. Imaginamos os mesmos planejadores preenchendo um quebra-cabeças com gráficos, quadros, cronogramas e organogramas, montando uma estrutura equilibrada moldada aos seus princípios éticos morais e de justiça social.
Mas em pouco tempo constatamos, por vídeos, evidências escritas, extratos de contas bancárias, sinais de enriquecimento rápido que o papo era outro.
As reuniões eram para determinar como efetuar o saque do botim. Eram as reuniões dos “capi mafiosi”. Administrar? Nem em sonho. A equipe tinha membros competentes. Mas não em obter soluções para o crescimento do país. Este ficou por conta do que havia sido feito antes da eleição que guindara o presidente ao palácio. Ficou por conta de esforços do setor privado ao longo dos quinze anos anteriores. Ficava-se no “status quo”, com um empurrãozinho daqui, uma apertadinha ali e uma pressão acolá.
Internacionalmente era uma questão de mostrar-se socialista. Não importa que fosse no contexto de um socialismo alijado por cinqüenta anos de insucesso na Europa Ocidental e oitenta anos de insucesso na Europa Oriental. Era uma questão de ser solidário com congêneres das Américas. Mesmo que isso significasse praticamente doar riquezas aos vizinhos ou seguir sambando enquanto um vizinho se empanturrasse de armas qual uma Alemanha da década de trinta.
Quando um país vizinho está fortemente armado normalmente chega um dia em que quer usar suas armas. Vide Saddam Hussein e o Kuwait. Ainda mais quando esgota suas fontes de riqueza sem aproveita-las para garantir o futuro de seu país. Mas o Presidente nos assegura que a amizade com o vizinho será imorredoura. E o Ministro Especial garante isto também. Assim também o antigo Chefe da Casa Civil. Podemos dormir descansados. Nossos filhos e netos não terão de se defender contra o vizinho. Não terão de pagar ano após ano para armar este país para que esteja a salvo do inimigo.
Também cabia ser solidário com as massas mobilizadas contra a modernidade no campo. Não interessa se pregam um desprezo total contra as leis, se efetivamente transgridem a lei com violência, se infringem direitos de outros.
A acomodação de amigos e simpatizantes significa que as próprias fontes e origens de regulamentos e normas estavam sendo solapadas. Organismos criados em décadas de trabalho, com informações seguras quanto às necessidades e objetivos a alcançar no país passaram a ser desmanchadas para acomodar a estrutura de serventes amigos do poder. Planos criados para defender e desenvolver o país foram passados às mãos de administradores que entre pusilânimes e ignorantes deixaram que fossem desmontados, sem que algo de novo surgisse no seu lugar. Passamos a ter ministros que seguindo o próprio exemplo da presidência, não sabem o que precisam fazer. Não conseguem argumentar as necessidades de seus ministérios, pois sequer as conhecem. Não escutam os poucos peritos que sobraram. Assim temos crises como a da aftosa, temos uma transposição de Rio São Francisco apenas baseada em fatores emocionais, temos Pedro roubando de Paulo, temos um apagão aéreo e uma previsão de apagão de energia.
Isso para não falar da corrupção progressiva de todos os aspectos da vida pública nacional.
Realmente, há um monstro de cem pernas devorando tudo que é sólido neste país. O objetivo dos confidentes do Sr. Presidente não é a Utopia. É um mundo em que tenham o poder. Querem algo como o “ Tausend Jahr Reich” (Império de Mil Anos) do Hitler. Um país que lhes pertença para fazerem suas experiências. Mesmo que, como ocorreu na Rússia, na China e no Camboja isto custe a vida de dezenas de milhões. Não Utopia, Utopéia.
Pena que o Presidente operário não tenha dado certo. Teríamos tido prazer em aplaudi-lo se estivéssemos errados em 2003 ao nos mostrar céticos. O problema agora é outro. Com o egoísmo das oposições que não conseguem ser oposição, que lutam por migalhas, vamos ter de seguir agüentando essa perda de estatura do país após 2010?
UTOPÉIA
Sunday, July 22, 2007
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